Depois

Depois de chegar em casa e demorar para entender que todas aquelas bolsas, sapatos, móveis, cachecóis, pratos, panelas e xícaras e todo aquele espaço eram meus, depois de demorar para entender que eles pertenciam a mim porque eu havia comprado ou ganhado ou desejado ou juntado tudo aquilo, depois de demorar para entender que nós havíamos juntado aquelas coisas porque era legal ter uma casa legal e coisas legais para chamar de nossa, para cuidar, para nos contextualizar no mundo e para receber amigos e pessoas queridas, depois que um pouco de tempo se passou eu comecei a reentender um pouco essas coisas. E recurtir essas coisas também. E ter saudade dessas coisas também.

Mas o tempo para reentender e recutir é pouco, pois eu logo peguei o carro para ir visitar minha mãe em Ilhabela. Na avenida Nove de Julho, que eu quis passar de propósito para sair da cidade, eu achei que São Paulo no mês de janeiro e depois de uma temporada em Luanda fica ainda mais incrível e linda e organizada e globalizada e limpa e bem sinalizada e transitável e diversificada.

Mais tarde e mais pra baixo, na serra, eu tinha uns 10 mega de música ou uns 20 CDs para escutar, inclusive coisa nova que eu ainda nem ouvi, mas eu quis escutar e cantar Bob Marley bem alto, porque em África ele é algo tão forte e tão presente e tão mais cheio de significados que eles cantam e dançam cheios de sentimentos e emoções que fazem até as pessoas de fora como eu se emocionarem mais essa música libertadora e bonita, mas que já virou clichê desses que a gente enjoa mesmo. ]

E agora estou aqui, maravilhada com o barulho dos dois rios que ilham a casa da minha mãe e minha mãe do mundo, respirando o delicioso cheiro úmido da terra, cercada de matos e bichos e verdes e de céu porque todas as janelas e portas estão escancaradas, morrendo de saudade de São Paulo, que eu andava achando horrorosa e pouco habitável, mas que agora me dei conta de que acho o inverso, morrendo de saudade do meu marido, que teve que ficar em São Paulo, e morrendo de saudade de Luanda, cidade que me transformou tanto em tão pouco tempo e em que me sinto tão em casa que parece que eu sempre morei lá.

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