O fim do livro do Kapuscinski

Acabei de terminar de ler um livro incrível e super apropriado para o momento que eu vivo. É o “Minhas Viagens com Heródoto”, do polonês Ryszard Kapuscinski. Pra quem não conhece, esse cara foi um jornalista que por décadas viajou pelo mundo inteirinho escrevendo reportagens pra uma agência de notícias da Polônia. Ele ficou anos na África, conheceu quase todos os países e testemunhou uns 20 e poucos golpes de estado. (Ah, vale muito a pena ler Ébano, é ótimo!)

Nesse livro que eu acabei de ler, ele usa algumas viagens que ele fez pra dizer sobre como é difícil, tentador e incrível ser arremessado num país totalmente diferente do seu e ter que passar lá tempos tentando entender e contar para os outros como as coisas funcionam. O livro inteiro é acompanhado por vários trechos do “História”, de Heródoto, que, segundo Kapuscinski, é o primeiro livro reportagem do mundo.
Gostei desse trecho (meio longo) do livro que ele fala sobre Heródoto:

Heródoto me envolveu desde o início. A julgar pela forma como via e descrevia as pessoas e o mundo, ele deve ter sido um homem afável e gentil, um sujeito sereno e cordial. Ele não exala um pingo de rancor e de ódio. Tenta compreender tudo, descobrir os motivos que levaram alguém a agir de uma maneira, e não de outra. (…) Ele mostra a história do mundo através do destino dos indivíduos. Nas páginas do seu livro, cujo objetivo é perpetuar a história da humanidade, estão sempre presentes homens concretos, homens grandiosos ou insignificantes, bondosos ou cruéis, triunfantes ou miseráveis.

Heródoto se confronta sempre com o problema da memória: as lembranças variam de indivíduo para indivíduo, e cada um as conta à sua maneira. Além disso, ele descobre, muitos séculos antes de nós, uma característica importante, e também perversa da memória – os homens se lembram daquilo que querem se lembrar, e não do que aconteceu realmente. Cada um pinta os eventos à sua maneira, e cada um, no seu cadinho, faz a própria mistura. Portanto, a restituição do passado da forma como ele se deu é impossível; nós temos acesso apenas às suas variantes, mais ou menos dignas de fé, mais ou menos satisfatórias. O passado não existe mais. Existem tão somente suas incontáveis versões.

E com entusiasmo e encantamento infantis, Heródoto se lança à descoberta dos seus mundos. Eis sua maior descoberta: eles são muitos, diferentes entre si, mas importantes cada um à sua maneira. É preciso conhecê-los porque esses mundos e essas culturas são espelhos nos quais nos miramos – nós e nossa cultura – e nos quais ela se reflete. Graças a eles, entendemos melhor a nós mesmos, já que não podemos definir a nossa singularidade se não a confrontamos com outras.

O ato de conhecer o mundo requer uma mobilização de forças, tanto físicas quanto intelectuais, que consomem o ser humano. A maioria das pessoas desenvolve competências inversas, notadamente aquela que envolve olhar sem ver, em escutar sem ouvir. Portanto, o surgimento de alguém como Heródoto – um homem possuído por um desejo, até por uma obsessão de observar e ouvir e, ainda por cima, dotado de inteligência e aptidão para escrever – constitui um fato que passa imediatamente para a história do mundo!

Indivíduos assim se caracterizam por uma capacidade de assimilação incrível, como se tudo pudessem absorver e, com a mesma facilidade, despojar-se de tudo que foi absorvido. Eles não mantêm par si as coisas por muito tempo, e, como a natureza não suporta o vácuo, precisam sempre se renovar, precisam incessantemente absorver, preencher, multiplicar, aumentar seu saber. A mente de Heródoto é incapaz de se deter num acontecimento ou país. Existe nela algo que o faz seguir em frente, apressando-o com inquietação. A descoberta feita hoje já não o interessa mais amanhã; ele precisa viajar para outro lugar, para ainda mais longe.

Ao analisarmos a questão mais profundamente, chegamos à conclusão de que ignoramos por completo o que desperta nos homens a vontade de viajar. Curiosidade? Fome de aventuras? A necessidade de constantemente se surpreender? Um homem que deixa de se espantar está oco; apagou-se a chama do seu coração. Aquele que acredita que já viu de tudo e que mais nada pode surpreendê-lo perdeu a alegria de viver, a beleza da vida. Heródoto é exatamente o oposto: nômade agitado, apaixonado, incansável, cheio de planos, ideias e hipóteses. Para Heródoto, viajar é sinônimo de esforçar-se, de procurar, de querer saber. Uma viagem perquiridora, uma tentativa de conhecer tudo – a vida, o mundo a si próprio.

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2 Respostas to “O fim do livro do Kapuscinski”

  1. Crovis Says:

    Oi, Ju,
    cheguei no seu blog pelo blog que o Fellet acabou de criar do rolê dele na África.
    Olha, esse livro do kapuscinski é realmente fantástico! Eu ganhei esse livro de um amigo mexicabo e logo comprei todos os outros que encontrei dele. Em espanhol, porque infelizmente em português tem uma coisa ou outra apenas.
    E o livro que eu mais gostei dele foi Um dia mais com vida, que ele fala justamente da guerra civil em Angola. Vc já deve ter ouvido falar dele por aí…
    Boa sorte e parabéns pelo blog!

  2. juborges Says:

    Crovis, já ouvi falar do Um dia mais com vida, mas ainda não li… ele é meio difícil de encontrar mesmo.
    Mas eu adoro o Kapuscinski e morro de inveja das histórias dele 🙂

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