De África para Hong Kong

wilson

Nem aqui do outro lado do mundo a África se distancia de mim – ou eu me distancio dela. Eu não tenho cara de africana, mas venho de um país em que as pessoas estão acostumadas a olhar para as outras e a sorrir e a olhar pro outro lado e a pegar puxar uma conversa a toa com um completo estranho. Por isso aquele homem vestido exoticamente com um macacão verde de nailon, um cachecol vermelho do Manchester, uma cartola e um par de botas de couro e de bico fino dessas de caubói deve ter se sentindo meio em casa ao ver alguém que, assim como ele, olha para os lados. Então ele veio falar comigo. Eu estava sentadinha num banco de um parque pensando como aquele lugar era bonito e triste e que eu nunca ia entender nada sobre essa cultura que começava a aparecer diante de mim.

Foi assim que conheci W., o braço direito do candidato à presidência derrotado nas eleições de um país africanoexilado político em Honk Kong desde então. Para continuar vivo, W. teve que deixar sua terra do dia para a noite para viver em outra que não entende e nem conhece.

Ele agora vive numa terra em que muita gente pensa que a África é um país só e que lá só há pessoas que moram em tribos, andam seminuas e tocam tambores. Ele vive numa terra em que as pessoas não entendem muito bem que um africano pode ser um engenheiro, um político, um antropólogo, pois estão condicionadas a pensar que todos os africanos que não são presidentes ou assessores dos presidentes são retirantes miseráveis. (Na verdade, quase todas as pessoas do mundo pensam isso).

Como W. é refugiado político, ele não pode exercer nenhuma atividade remunerada, o que tornam as coisas ainda mais difíceis. Ele vive com uma mesada que o governo de HK paga a todos os refugiados. Seu passaporte fica retido e ele não pode sair daqui. Para não ficar louco, lê muito e frequenta aulas em uma universidade chinesa aqui em Hong Kong. Depois de três anos, já se diz mais acostumado com a vida aqui.

Mas tudo é temporário. W. quer morar em qualquer outro país e está fazendo de tudo para que a ONU aceite. Mas a ONU só vai aceitar se ele se casar com alguém de outra nacionalidade ou então se alguém de outra nacionalidade se responsabilizar financeiramente e juridicamente por ele. Sozinho, com as suas próprias pernas, não lhe deixam. Obviamente, W. quer voltar para seu país. Mas isso só pode acontecer quando o atual presidente, que está há 23 anos no poder, não for mais presidente.

Em Hong Kong, W. vive num apartamento alugado em que, para passar do quarto para o outro cômodo que é a cozinha e o banheiro ao mesmo tempo, precisa afastar a cadeira e passar de lado. Sua casa é milimetricamente organizada. A cama ocupa mais ou menos 80% do espaço. É coberta por um pano estampado africano. Ao longo da janela, por cima da cortina, estão penduradas gravatas, gravatas, bonés, ternos, camisas e chapéus. Em frente da cama há um guarda-roupas e um móvel com computador, uma televisão pequena, internet de banda larga e um som. No móvel que fica ao lado da sua cama há fotos da sua ex-mulher e dos seus filhos, muitos Cds e livros de política e antropologia. A cozinha tem uma pia, um fogageiro embaixo e, do lado esquerdo, uma privada e um chuveirinho.

W. já escreveu um livro sobre sua história e atualiza notícias, comentários e vídeos no seu blog. Lá em Kampala ele tem uma escola. Foi toda construída durante seu período de exílio. O projeto já estava pronto e ele conseguiu apoio de uma ONG sediada em Hong Kong, que mandou de contêiner tudo que a escola precisava. O contêiner chegou lá e seu irmão está cuidando de tudo. As aulas vão começar este ano. W. acompanha tudo pelas fotos e fica emocionado em perceber, mais uma vez, como tudo sempre está em movimento, não importa onde as pessoas estejam.

Ele tem um irmão que vive nos Estados Unidos. É piloto, tem greencard. Nas penúltimas eleições presidenciais dos Estados Unidos, ele era o piloto de John Carry.

W. conta que não queria se meter na política, mas não teve jeito. Sua mãe morreu assassinada por causa de política. Ele e seus irmãos foram criados por uma tia que eles chamam de mãe. Ele não achava certo ver as coisas indo muito erradas e ver gente do seu povo a viver mal e a passar fome e ter um presidente que resolve seus problemas matando seus adversários políticos.

W. tem certeza de que, em breve, a situação vai melhorar. Aí, ele vai, finalmente, poder voltar à terra que nunca desejou ter saído. Ele acredita tanto nisso que todos os dias carrega a passagem aérea – de ida e de volta – que lhe trouxe até aqui.

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