If you wanna feel

No dia 22 de fevereiro, lá pelas 3 horas da manhã, umas pessoas meio bêbadas, muito felizes e com histórias, origens e pensamentos bem diferentes entre si estão reunidas numa casa que é uma república de brasileiros de uma empresa picareta e que daqui a alguns meses será uma república na frente e uma pizzaria atrás, graças à ideia genial da primeira dama do dono dessa empresa picareta.

A única regra que existe ali é que as pessoas podem fazer o que elas quiserem.

Elas podem tentar fazer uma direção de arte para ensinar o Filete a fechar o microondas de um jeito que a câmera vai fazer uma foto ótima. Elas podem cantar poesias com a voz mais linda que eu já vi enquanto uma música eletrônica toca no fundo ou então marcar o ritmo dos sintetizadores cantando de um jeito agudo, mas que combina bastante com todo o resto.

As pessoas podem ficar bem bravas porque estão bêbadas e não conseguem explicar o que elas querem dizer. Elas podem se apaixonar ou se desapaixonar quando quiserem. Elas podem chorar e não precisam ir dormir nunca porque o dia seguinte é domingo e suas famílias e pertences estão lá do outro lado do mar. Elas podem querer fazer uma festa de despedida sem chamar a namorada porque depois vai dar tempo de perceber como isso é uma estupidez.

Elas podem ir dormir a hora que quiserem. Elas podem dar um cochilo no sofá e dizer que não estão cochilando, mas ouvindo a música, ou podem também ir pensar na vida lá fora da sala e do ar condicionado, na escada que passa por cima de um monte de entulho. Elas podem filmar tudo aquilo, mesmo que não dê para ver direito, pois quem assistir aquelas coisas confusas vai entender que tem muita emoção enlatada naquela sala.

Todas elas podem dizer que o kuduro é o ritmo mais contemporâneo e completo e incrível que existe hoje no mundo porque todos os corpos de todas essas pessoas que estão nessa sala sentem e se enfeitiçam e vivem em Luanda e, mesmo que alguns corpos nunca vão conseguir se mexer naquela frequência linda e esquisita, eles não precisam dizer mais nada, só ouvir tudo aquilo tocando ao mesmo tempo. Elas podem desafinar porque as informações vêm de tantas direções que aquele caos todo se completa e tudo fica perfeitamente harmônico no conjunto.

Elas podem pensar que a sua vida do outro lado do mar ainda está como elas deixaram e que todas as pecinhas vão voltar a se encaixar quando elas voltarem para suas origens, porque elas ainda não estão no futuro e só no futuro elas vão perceber que as peças da vida se transformam toda hora e, quando se está longe e depois volta-se para perto, elas podem não se encaixar mais. A nossa vida não é como aqueles quebra-cabeças de mil ou duas mil peças que eu gostava de montar com minha mãe quando ela ainda morava na minha casa da infância que aparece nos meus sonhos. Naqueles lá, por mais que demore pra encaixar uma peça na outra, elas nunca mais saem dali. E ainda bem que nossa vida não é assim, porque se não iríamos morrer de tédio.

Pum pum tchi pum pum but i feel perhaps we’ll never now. we we we we, but i still pum pum pum pum but i’m stiiiiiiil. if you wanna feel if you wanna feel. Os sons dessa noite divertida que ficaram guardados no vídeo gravado bem amadoramente hoje ficaram me levando de volta para os lados de lá.

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3 Respostas to “If you wanna feel”

  1. João Fellet Says:

    Saudades……….

  2. Julio Lee Says:

    Nao sei se esta aventurando por Luanda, mas achei legal o que tem relatado. Continue e tenha cuidado, logo estarei escrendo das minhas esperiencias, sao mais um auto relato triste, rsrsrs…

    Boa Sorte ai em Luanda…

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