Três livros mais atuais do que todos os jornais

Três coisas que eu li ou to lendo recentemente que me parecem mais atuais e úteis do que todo o bla bla bla que os jornais chatos escrevem todos os dias.

1) O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

2) O Vidiota, de Jerzi Kósinsky

3) Pesadelo refrigerado, de Henry Miller (esse eu to no começo ainda)

Acho que os três falam sobre como as pessoas andam a se preocupar com as coisas erradas e desimportantes na vida. O engraçado é que esses livros foram parar nas minhas mãos totalmente por acaso. Um eu ganhei no meio de uma viagem, o outro eu tive que devolver para uma pessoa e resolvi ler antes disso e o terceiro simplesmente apareceu na minha casa. Mas ler eles agora está fazendo bué de sentido.

Aí vai um pedacinho do Pesadelo Refrigerado. O Henry Miller é americano nascido no fim do século 19 e viveu um tempão na Europa. Depois ele voltou pros Estados Unidos pra viajar o país todo e tentar se rearmonizar com sua terra. Mas ele de desarmonizou e escreve coisas tristes e cheias de ódio sobre o próprio país.

Nas cidades grandes e pequenas encontra-se o americano típico por toda parte. Sua expressão é suave, branda, pseudo-séria e nitidamente vazia. Está sempre bem vestido, com um terno barato comprado pronto, sapatos engraxados, caneta e lápis no bolso do peito, uma pasta debaixo do braço – e, é claro, óculos, cujo modelo muda de acordo com a moda. Um se parece com o outro, da mesma forma que telefones, automóveis e rádios se parecem. É um indivíduo entre 25 e 40 anos. Depois dessa idade temos outro tipo – o homem de meia idade, que já está equipado com dentaduras postiças, que bufa e ofega, que insiste em usar cinto, embora devesse estar usando uma funda de hérnia. É o homem que come e bebe demais, fuma demais, fica sentado demais, fala demais e está sempre a beira de um colapso. Quase sempre morre de ataque de coração dentro de poucos anos. Numa cidade chamada Celveland, esse homem chega ao apogeu. Assim como os prédios, restaurantes, prédios, memoriais de guerra. É a cidade americana mais típica em que estive até agora. Vibrante, típica, limpa, espaçosa, sanitizada, vitalizada por generosa infusão de sangue estrangeiro e pelo ozônio do lago, ficou em minha mente como um compósito de muitas cidades americanas. Mesmo possuindo todas as virtudes, todos os pré-requisitos para a vida, o crescimento, a frutificação, ela permanece um lugar absolutamente morto – um lugar mortal, chato, morto. Eu gostaria de morrer em Richmond de alguma forma; Deus sabe que essa cidade tem pouco a oferecer. Mas em Richmond, ou em qualquer outra cidade sulina, você de vez em quando vê sujeitos que fogem à norma. O Sul é cheio de personagens excêntricos; ainda alimenta a individualidade. E os mais individualistas, são, é claro, da terra, de lugares fora de mão. Quando você atravessa um estado parcamente habitado como a Carolina do Sul, encontra homens, homens interessantes – criaturas joviais, ma-humoradas, competitivas, em princípio, mas fazem a vida encantadora, graciosa. (…) No Sul, é preciso pregar um homem no chão para poder falar de negócios com ele. E se, por acaso, for um bom homem de negócios, esse sujeito de Charleston, é muito possível que seja um fanático por alguma coisa de que nunca se ouviu falar. O rosto dele registra mudanças de expressão, os olhos se iluminam, o cabelo se arrepia, a voz se enche de paixão, a gravata sai do lugar, os suspensórios provavelmente serão tirados, ele cospe e fala palavrão, arrulha e se empina, de vez em quando dá uma pirueta. E há uma coisa que nunca esfrega no seu nariz – o relógio. Ele tem tempo, muito tempo. E realiza tudo o que quer realizar em seu devido tempo; o resultado é que o ar não fica cheio de poeira, de óleo de máquina, de tilintar de caixa registradora. Os grandes perdedores de tempo, eu acho, estão no Norte, entre os ocupados. Pode-se dizer que sua vida toda não passa de muito tempo perdido. O homem gordo, pretensioso, de cara amarrada, de quarenta e cinco anos, que ficou assexuado, é o maior monumento da futilidade que o homem criou.

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