A ex-cidade de sal

Vai ter um filme chamado Sudoeste que escolheu uma locação que é uma salina semi-abandonada. É um lugar branco, vazio e horizontal, que parece existir só no passado.

As nuvens refletidas nas pequenas lagoas geometricamente quadradas são cor de rosa porque pegam a cor do solo sujo. E o sujo da salina, estranhamente, é rosa. Quando as galochas pretas dos poucos colhedores de sal que restaram ali andam pelos caminhos que eles mesmos fizeram entre uma lagoa quadrada e outra, faz um barulhinho bom de concha quebrando.

Os olhos das pessoas nunca conseguem ficar muito abertos, mesmo em dia de nublado, porque é luz demais refletindo naquela água toda. O silêncio mora ali, a menos quando o tec-tec-tec do motorzinho que parece de barco de pescador fica ligado para puxar água. Os moinhos velhos, que recebem óleos pretos que sujam as luvas dos moços que escalam até lá em cima, transferem a água das lagoas originais para as lagoinhas quadradas. No reservatório que existe perto do moinho há uma pequena montanha de espuma branca, formada quando o sal se separa da água que move o moinho. Aquela espuma toda parece uma nuvem aterrisada, pois é leve e gordinha.

Já os montes enormes de sal, esse sal fora de época que se formou porque o homem mudou o clima e parou de ventar e de chover e o sal fez em junho, quando deveria ser feito só em outubro, que parecem neve. Sabe aquela neve que as máquinas de tirar neve do meio da rua jogam, junto com sujeira, no canto das avenidas grandes? Então, parece esse tipo de neve, meio remexida, meio feia, meio dura.

Em outros tempos, ao redor dessas lagoas geométricas, que já pertenceram a uma grande empresa, existiu praticamente uma cidadezinha lá dentro, com igreja, escola, caminhos e bué de casas. O sal e o tempo deixaram apenas algumas de pé. Hoje, para além dos 18 homens que eram antigos empregados e hoje arrendam as lagoinhas e cuidam de tudo sozinho, vagam por ali apenas fantasmas.

Em uma das casas de parede azul, vermelha e arruinada ainda dá para ver a marca da cola que grudou inúmeros pôsteres na parede. Eu tentei perguntar aos fantasmas se as colas grudaram retratos de famílias em preto e branco, páginas de revista de mulher pelada, fotos antigas de famílias ou jogadores de futebol. Eles não me disseram.

Mas agora não interessa mais. Muito em breve,  algumas paredes serão derrubadas e as que ficarem receberão uma demão de tinta nova azul ou vermelha. Em pouco tempo, a casa vai ficar como nova. Só que, em vez de pessoas morarem, ela servirá só para os atores morarem nas vidas dos seus personagens. Depois, acho que ela voltará a ser o que era: um marcador do tempo que passa e corrói as estruturas.

Quanto tempo será que demora para a casa nova se tornar velha e abandonada como as suas irmãs? Será que as outras aguentarão esperar de pé? A igreja pequenina com o altar azul e branco resiste firme e forte. Por quanto tempo? A cruz apodreceu ou desapareceu, assim como os santos, jesus, os bancos, a mesa, o padre, as pessoas, a missa, a música, os pecados, as vozes. A escolinha também continua ali, fazendo companhia à igreja vazia, muda, morta.

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