A vida dos outros

O telefone tocou e eu tinha que entrevistar o raio do presidente do conselho de administração de uma empresa enorme que fabrica motores para o mundo inteiro e tem sede em Caxias do Sul naquela hora, que era a única que existia livre na sua agenda antes de sexta-feira, meu prazo final. Inventei uma desculpa qualquer e pedi dez minutos pra pelo menos me preparar um pouco e ler aqueles retalhos todos que eu tinha juntado. O senhor executivo não me contou, mas eu li que seu primeiro emprego foi na empresa que ele trabalhou por décadas, foi presidente por 26 e hoje é presidente do conselho. Ao invés de achar idiota aquela vida inteira dedicada a uma empresa que fabrica motores, eu fiquei pensando, nossa, como o mundo é diferente e as pessoas são diferentes, e fiquei admirando a seriedade com que aquele senhor teve uma meta na vida e foi em frente e deve ter construído uma família em que as pessoas fazem o papel delas mesmas (o pai de pai, que aconselha e interfere, a mãe de saia plissada que cuida devotamente dos filhos e tem um coração enorme, os filhos que discordam dos pais, mas fazem o que eles dizem, e assim por diante).

Depois eu fui almoçar com um produtor de cinema sessentão que tem cara de marujo e olhos verdes muito emotivos, que parecem estar sempre prestes a chorar. Sua voz meio grossa, meio cantada, não pára de contar histórias interessantes de gente que viveu a vida e que entendeu, por causa da experiência, o que é importante na vida. Ele conta coisas tao triviais como no tempo em que foi o braço do zé dirceu na sua primeira eleição para político, no grêmio da faculdade ou quando produziu de o bandido da luz vermelha a central do brasil e muitíssimos outros filmes de várias épocas. Conta que já foi rico e teve lancha e casa na praia e casa no campo e que conheceu todo o tipo de personalidade louca que fez ou faz cinema no Brasil, mas que isso não é importante. Seus olhos brilham mesmo quando ele fala da sua mãe de 100 anos que é artista plástica, de bilhetes de pessoas queridas que marcaram sua vida, da personalidade intrigante de um tigre que ele teve que dirigir num filme e de como ele adorava lamber o gelo, sua mãe de 100 anos que é artista plástica, dos seus tem quatro filhos e três ex-mulheres que convivem harmoniosamente, sobretudo o seu último rebento, que tem 17 anos, desenha muitíssimo bem, fala inglês, vai entrar na faculdade e deu um nome tão criativo pro personagem do livro que o pai está escrevendo que eu até esqueci qual é.

Depois do almoço, marquei de conversar com duas jovens empreendedoras sociais que organizam viagens para os brasileiros conhecerem os brasileiros reais e de ir visitar a criadora do genial Museu da Pessoa.

Tem um amigo meu que diz que sempre se impressionava com a minha pré-disposição em conversar com as pessoas, que sempre era maior que a dele, independemente da pessoa e da hora. Pois hoje eu tava assim, desse jeito, gostando de falar com as pessoas, e voltando a achar que esse trabalho que eu tenho, que é ser jornalista, pode, sim, ser interessante.

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