Coitado

Achei essa história escrita pelo Moacyr Scliar na Folha de hj bem triste.

MOACYR SCLIAR

A história de um currículo


O papel seria a chave mágica que lhe abriria a porta das oportunidades; gastou suas poucas economias em cópias


Assaltante esquece currículo em van de transporte após assalto e é preso no Rio. Rapaz se descreve no documento como “educado, de fácil trato”, e diz ter “facilidade de trabalhar em equipe”. Cotidiano, 20 de junho de 2009

AOS 21 ANOS , idade simbólica, ele sentiu que tinha chegado a um momento decisivo em sua vida. Rapaz pobre, de origem humilde, escassa escolaridade, estava diante de duas possibilidades: ou enveredava pela senda do crime, como tantos de seus amigos da periferia, ou arranjava um emprego decente.
Decidiu por essa última, mesmo porque considerava-se pessoa honesta e também porque acumulara certa experiência como ajudante de pintor, serralheiro, estoquista. Posições humildes, mas ele sabia de gente que tinha começado por baixo e que subira na vida. Um posto de gerente de empresa não estava fora de suas cogitações.
O problema era arranjar emprego. Numa de crise, isto era muito difícil. Ele bem que tentou: lia os anúncios de jornais, ficava horas em filas. Num dos lugares que procurou, a moça que entrevistava os candidatos perguntou por seu currículo.
Currículo? Ele não tinha currículo algum. Sem currículo ninguém contratará você, disse ela, enfadada.Trate de preparar o seu. Preparar como? Não sabia como começar. Mas tinha a quem recorrer: seu antigo professor, um homem generoso que muitas vezes o ajudara. Foi procurá-lo, e, como de costume, o mestre o auxiliou.
No dia seguinte o currículo estava pronto. O professor explicou que, como o rapaz não tinha muita coisa a dizer a respeito de seus próprios méritos, colocara coisas gerais, definindo-o como alguém “educado, de fácil trato”, com “facilidade de trabalhar em equipe, muita vontade de crescer profissionalmente e disponibilidade de horários”, afirmativas que o rapaz deveria confirmar na entrevista.
O fato de ter um currículo deixou-o muito contente e animado. Aquele papel seria a chave mágica que lhe abriria a porta das oportunidades. Gastou as poucas economias mandando fazer dezenas de cópias, que deixou em vários lugares, inclusive no bar perto de sua casa.
Poucos dias depois foi procurado por dois rapazes do bairro. Quando os viu, estremeceu: os dois eram conhecidos ladrões. E estavam ali para convidá-lo -para convidá-lo, não, para intimá-lo- a participar de um assalto a uma van de transportes, coisa que poderia render boa grana.
Um dos assaltantes tinha na mão um papel: o currículo. E disse, irônico: “Você diz que tem facilidade de trabalhar em equipe e vontade de crescer profissionalmente. É por isso que você nos serve. Agora, se você recusar…” A ameaça era clara e não havia alternativa. Participou no assalto, que aparentemente teve sucesso. Só aparentemente: ele esquecera na van uma mochila com o currículo no qual constava o seu endereço. A polícia não teve a menor dificuldade em achá-lo.
Os outros dois assaltantes estão furiosos com ele. Consideram-no um traidor, acham que esqueceu a mochila de propósito. Num certo sentido talvez estejam certos. No fundo, ele queria que lessem o seu currículo, que lhe dessem uma oportunidade. Pela qual ele pode esperar. Na prisão, e como diz o currículo, ele terá muita disponibilidade de horários.

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