A saudade do dia

kota50

Pois agora estou a escrever esse tal de livro. E aí quando eu pego umas horas para fazer isso a saudade das coisas bate bué. Hoje a saudade foi do Kota 50, um grande homem, um grande amigo.

Ela sabia que eu gostava de jinguba. Então sempre trazia um saquinho pra mim e pros outros cambas na redação. E sabia também que eu gostava de manga. Então, quando era época de mangas, muitos dias eu encontrava uma manga bem linda mesmo ao lado do meu computador. Ele comia manga com casca e tudo. Ele descobriu que eu gostava de cuidar das plantas e queria deixar aquela guest house com mais cara de casa e menos com cara de guest house. Então começou a andar na rua atento para mudas de cactos, temperos ou babosas ou outros pés de coisas que ele pudesse tirar e me presentear. Deixava sempre em cima da minha mesa, embrulhadinha, e eu levava as plantas para casa e colocava no vaso, que era um balde ou a parte de cima de um vaso sanitário abandonado, toda feliz.

Ele sabia também que eu gostava de desbundar e tinha sede de conhecer tudo o que meus olhos alcançavam ou ouviam falar ou nem sabiam que existia. E por isso foi com o Kota 50 que eu passei muitos dos momentos mais alegres da minha vida em Angola. Foi por causa dele que eu sempre tinha companhia para fazer os programas que para mim eram os mais incríveis, mas para quase toda outra gente não fazia muito sentido. Ir ao Roque, ficar 2 horas no trânsito em Viana depois de uma chuvarada, atravessar uma rua tão alagada que esconde o farol para poder chegar num alembamento, a cerimônia de pedido de casamento, ver putos a dançar kuduro, ir comer peixe ou funge na Mutamba, ver exposições de arte, fazer degustações de vinhos e ir em funeral.

O Kota foi lá no aeroporto só para me dar um último abraço de tchau. Chorei bué. Ele sempre me pergunta quando eu vou voltar. Um dia eu volto, Kota.

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4 Respostas to “A saudade do dia”

  1. joao Says:

    Ju, ja leu o perfil que o Greg escreveu sobre ele? Eu ja o li milhoes de vezes e continuo a me emocionar.

    Ta em http://agoraemangola.blogspot.com , bem no comecinho (nao consigo linkar so o post).

    Beijo!

  2. Alexandre Correia Says:

    Olá Ju!

    Li o seu texto sobre as saudades do Kota50 e até eu fiquei assim meio sentido. Fico contente por sentir saudades de alguém que fazia tudo aquilo por si. É um sinal de reconhecimento, de que reconhece a importância que tudo isso teve na sua vida que acabou de passar (até porque já percebi que regressou ao Brasil); sabe, quantas vezes na vida fazemos tudo isso e muito mais e nem olham para nós? Infelizmente, é tão raro encontrarmos alguém como descreve o Kota50, como alguém capaz de retribuir como as suas palavras denunciam; simplesmente reconhecendo que tudo isso foi importante, que marcou. Senão, não sentia falta, não sentia essa saudade…

    Um beijo,

    Alex

  3. aef Says:

    e dispensável repetir: um grande fotógrafo!

    essa aí foi feita no sapu?

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