Meu avô e eu

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cegueira

vazio

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leite

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Ele era um homem sério, com dedos cumpridos e lentos, óculos grossos e usava sempre uma camisa de manga curta com um maço de muitos dinheiros dentro. As pessoas que o conheceram lá no passado diziam que o vovô Maurão havia sido um dos homens mais engraçados que já existiu. Eu, que só o conheci depois disso e só achava engraçado quando ele usava aqueles dedos enormes em cima da mesa para fingir que era um bicho me perseguindo, acho difícil entender isso.

Ele fazia palavras cruzadas no sofá e gostava de escutar as nossas histórias. No final, ele sempre comentava assim: puxa, como vocês falam rápido. Ele foi ficando cada dia mais lento, cada dia mais preguiçoso, cada dia mais infeliz, cada dia mais atrofiado. Parou de sair, parou de falar, parou de ouvir, parou de viver e um dia o coração parou de bater.

Eu só descobri que ele havia sido um fotógrafo incrível pouco antes de ele morrer ou depois disso. Vi umas coisas que ele fez e me apaixonei. Ele era químico de profissão e amava fotografar. Passava horas trancado com aquelas químicas todas ampliando seus retratos, paisagens, seus sonhos. Um dia, meu pai me contou, ele fechou aquele laboratório e nunca mais sonhou na vida.

O Vovô Maurão fez parte do Cine Fotoclube Bandeirante. Outro dia o Cine Fotoclube Bandeirante fez 70 anos e montaram uma exposição linda para mostrar coisas legais que os fotógrafos que passaram por lá já fizeram. Eu fui visitar no sábado. E, lá, no meio daqueles nomes todos importantes e daquelas fotos com tantas histórias e estéticas, numa daquelas paredes, encontrei um retrato lindo que o meu avô fez da tia Estela.

Eu queria ter conhecido esse meu avô de antes, que fez essa e outras fotos e que iria me colocar dentro do laboratório e ficar horas me ensinando coisas incríveis sobre fotografia. Mas quando eu cheguei ao mundo ele já tinha trancado tudo isso para sempre.

***

Essas imagens aí de cima são pedaços de fotos feitas pelo meu avô que ficavam enquadradas na casa do meu pai e uns anos atrás foram refotografadas e reinterpretadas por mim. São para você, meu avô.

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2 Respostas to “Meu avô e eu”

  1. joao Says:

    neta de peixe…

  2. Cecy « Blog da Ju Says:

    […] lhe dar a notícia. A tia Dedé não é minha tia, é tia avó, irmã da vó Cecy, casada com esse avô sobre o qual eu já escrevi um dia. É tia querida, mais de 90, gente sábia, amada e bué […]

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