O canto e o tempo de cada um

Os planos são novos, foram moldados à força porque a vida é imprevisível e os caminhos mais certos podem ruir totalmente em minutos. Ou em um segundo. Porque isso acontece todos os instantes com alguém em algum lugar do mundo.

Com planos novos (ainda que bem incertos e confusos), a vida parece ser nova também. Mas a casa ainda é a antiga e a vista ainda é essa mesma aí de cima. E, para ela virar uma nova casa no mesmo endereço, isso demora um pouco. É uma transformação lenta, como a transformação das pessoas. A casa nova tem que nascer, as coisas que estão dentro precisam encontrar os seus novos lugares. A casa é uma metáfora de nós mesmos. Ela precisa de tempo para que os móveis e as energias entendam onde têm que ficar.

O escritório não é mais escritório, virou um quarto. E a TV de repente ficou sem quarto. E a casa ficou sem TV, porque a fonte queimou. Aí a TV voltou e ela não sabia muito bem se devia morar no novo escritório ou na nova sala, que na verdade quase nem é nova, só tem o chão mais gelado porque sente falta de um tapete, também não tem ipod e nem som e nem uma mesa bem descolada que ficava ali. Também tem um ou dois quadros a menos, mas em compensação ganhou uns apetrechos do mundo — uma máscara africana a mais, um pano lindo de Côte de Ivoire, uma mulher do Vietnã desenhada num fundo vermelho e uns pôsteres da China que ainda estão enrolados, mas um dia ficarão emoldurados e pendurados na parede.

A TV inicialmente queria ir para o escritório novo, afinal, ela sempre tinha morado no escritório. O escritório novo, por enquanto, não tem um tampo legal, apenas os cavaletes. O tampo é de compensado, mas vai virar uma obra de arte e vai ficar tão legal quanto o lagarto de madeira e colagens que fica também na sala.

Mas a TV não se mudou para o novo escritório nunca. Porque eu ainda estou me reacostumando com a rotina e com os espaços e com os vazios na casa. Aí entendi que, agora que muitas vezes estou sozinha, talvez ela me faça mais companhia na sala do que no escritório. Pronto, isso mesmo. Arrumei uma mesinha para ela morar, mudei a cubana e o cacto de lugar, empurrei o sofá e as coisas reencontraram seu novo lugar. Aos poucos as coisas vão se renovando.

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