Separação

separação

Era no meio da noite e a menina não entendeu nada quando aquele som de rádio dessintonizado invadiu o quarto com volume máximo e atordoou os seus sentidos. Não, infelizmente, aquilo não era um sonho. Ela ainda era uma criança e dormia na casa da sua infância junto com uma das irmãs naquele quarto do qual ela ainda hoje se lembra de cada detalhe: o barulho da gaveta dos armários abrindo, o cheiro da janela, a cor do preto da escrivaninha, os lugares em que os pés passavam demais e gastavam o tapete, a estampa do edredon, o barulho dos latidos e dos grilos e dos sapos.

O som de rádio dessintonizado vinha do quarto ao lado. As duas vozes que um dia já foram um casal se desentenderam e uma das vozes, a mais esquentadinha, ligou aquele som todo para chamar atenção, sem se importar que quatro crianças eram apenas crianças e não precisavam entender e nem se envolver em problemas de adultos. Os dois adultos das vozes do quarto ao lado, assim como eles iriam fazer tantas vezes daqui para diante, mesmo sem a menina saber disso naquela época ou entender o que isso significava, não se portaram como adultos e não se importaram com aquele volume todo.

O som só parou quando a menina se levantou sem se questionar muito se essa era a coisa correta a se fazer – ela só sabia que aquele som que doía os tímpanos precisava silenciar –, andou pelas partes gastas do tapete, abriu a porta do quarto, foi até o quarto ao lado, abriu a porta sem bater, caminhou até a escrivaninha e desligou aquele barulho. Não falou com ninguém, não perguntou nada, apenas saiu através do silêncio, como se fosse um fantasma, como se nunca estivesse estado ali. Nessa noite a menina tentou dormir e não conseguiu.

Era uma terça-feira de carnaval e a mulher que achou difícil virar adulta não entendeu nada quando quando uma voz irritantemente calma percorreu milhares de quilômetros de cabos subterrâneos e enterrou, numa conversa telefônica semi-telegráfica, muitos planos e um futuro. Naquele momento, ela teve saudade de quando era uma menina e ainda não entendia quanta dor, solidão e sofrimento podia causar uma separação, mesmo se ela já está anunciada ou se é a melhor coisa a se fazer, mesmo se já não há mais amor, ou se ainda há, mesmo quando uma das pessoas nunca quer falar a respeito e, em vez de fazer isso, fica repetindo mecanicamente que ela está ótima e que deseja tudo de bom para a outra. Naquele momento ela pensou também que, a despeito de tudo, ela quer continuar se envolvendo em historias de amor até o fim dos seus dias. Porque sempre vale a pena. No momento seguinte ela não pensou mais nisso, pois foi rebocada para ir dançar, filmar e se impressionar com o carnaval na marginal.

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2 Respostas to “Separação”

  1. Alexandre Correia Says:

    Olá Ju!

    É lindo este seu texto. Abre-me as memórias e levou-me ao passado. Cresci ganhando imunidade a discussão conjugal e decidi que eu próprio nunca iria permitir alimentar essas discussões intermináveis que cansam tantos casais e os que estão à sua volta. Como a Ju escreve, também nunca perdi a esperança de um dia encontrar essa paz perfeita que é uma vivência de amor sem discussão. Mas é difícil. Já fiz muitas coisas erradas na vida, mas também já fiz imensas boas. Uma das segundas foi no dia em que entrei em casa e pela enésima vez entrei no meio de uma discussão dos meus pais. Estavamos na casa da praia e eu chegara cansado de uma semana de trabalho, ávido para relaxar no fim-de-semana, mas nem pensei duas vezes: peguei no braço do meu pai e disse que já chegava, que tinha sido a última discussão e que íamos voltar imediatamente os dois para Lisboa. O espantoso é que o meu pai obedeceu! Os meus pais nunca se divorciaram, mas nunca mais voltaram a viver juntos. E finalmente todos, começando por eles próprios, tivémos alguma paz em casa.

    Um beijo,

    Alex

    PS – Fico contente que as suas orquídias tenham voltado a florir. As minhas nunca chegam a rebentar de novo. E fico triste que a Ju ainda não tenha “encontrado”

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