Cena carioca

22h, no ônibus da Gávea para Botafogo. Minha cabeça, que estava distraída nos pensamentos de uma fotinho que eu destruía em mil pedaços, demorou pra perceber que o ônibus faz uma parada mais longa do que devida e estava com o psica-alerta aceso. Só depois que eu notei que a cobradora não estava no ônibus. Devia estar apertada para fazer xixi, pensei, e o motorista, bem gentilmente, fez um stop. Depois de uns minutos ela voltou acompanhada do motivo da parada: uma sacolinha plástica com um sanduíche dentro. Ah é, aqui é o Rio de Janeiro.

***

Na mesma toada desse historinha besta vão passando as histórias de um livro bem despretensioso que eu to lendo. Chama Como ser feliz sem dar certo — e outras histórias de salvação pela bobagem, do Carlos Moraes.  Tem umas historias bonitinhas, principalmente essas duas.

Poesia e informação

Mauro Vicente Robles, o mais jovem diretor da empresa, era tão sério que cada vez que um troço parecia meio assim, vaporoso, ele falava pro pessoal: “Tudo bem, gente, mas isso é pura poesia, na prática nada a ver.”

Uma noite tinha um encontro com uma mulher diferente, que muito o impressionara. Antes passou pela sua aula de inglês avançado. Foi quando o professor, a pretexto de explicar um verbo qualkquer, veio com o seguinte verso de um poeta inglês do século XVII, Alexander Pope, soube depois: “Fools rush in where angels fear to tread.”

Mauro era um perfeccionista, o professor também e um bom tempo lá ficaram os dois em busca da melhor versão. No fim concordaram nesta: “Só os idiotas vão com tudo ali onde até os anjos pisam devagar.”

Terminou a aula e Mauro foi para seu encontro com aquele verso de quase trezentos anos na cabeça, martelando. Aquela noite, devagar, começou a acontecer a melhor coisa que já lhe acontecera na vida e, daí pra frente, ele nunca mais disse de coisa nenhuma: é pura poesia.

Pedigrees

Depois de certa idade, a gente tem mais é que simplificar. Eu, que de muitas maneiras já dividi a espécie, hoje penso que só há dois tipos: os humanos e os mundanos. Os humanos são os que têm critérios principalmente humanos nas escolhas que fazem. Os mundanos, critérios mundanos. Na hora de ilustrar um e outro caso, dois nomes me ocorrem.

Alberto B. Lenzi muito contrariou a família ao casar com uma moça de família simples, mas magnificamente dotada, esta é a palavra, de sentimentos reais. Um sábado eu estava no sítio deles conversando com Alberto quando ela chegou lá do fundo do jardim com lágrimas nos olhos. O motivo: as primeiras flores de um manacá que ela e o marido haviam plantado juntos cinco anos atrás. Antes de ir lá conferir com a mulher, ele achou jeito de me perguntar: “Quantas PUCs vale isso, me diz?”

Já Lilita Vals do Couto era uma senhora tão fina que até na Aids do folho conseguiu encontrar o pedigree. O rapaz, um artista plástico até bem-conceituado, nem dois anos depois de ter pego o mal veio a falecer lá pelos sertões de Minas ou Bahia, à procura de um desses milagreiros que sempre aparecem. A mãe deve ter sentido, sim, mas fazia questão de ressaltar onde e de quem o filho tinha contraído a doença. Em Paris, de um bailarino russo, o que é que vocês estão pensando? Para que isso, aliás, ficasse bem claro ela nem Aids falava. Dizia Sida, ou melhor, Sidá.

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2 Respostas to “Cena carioca”

  1. Lucas Telles Says:

    Íamos de Jacerepaguá para o Flamengo, e precisávamos fazer a baldeação na Barra. Minha amiga perguntou para o motorista: “passa na rua tal, na Barra?” E o moço: “quantos vocês são?” “Quatro.” “Entra que eu deixo vocês lá”.
    Jujuba, uma delícia os seus posts. Tudo bem, eu já era doido com você antes.

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