Como morre um amor

o fim

No dia anterior, ela podia ter escolhido qualquer bar, desses tantos que existem espalhados pelas esquinas. E ele também. Ela podia escolher qualquer dia para ir até qualquer bar, assim como ele. Só que ela e ele escolheram aquele mesmo bar apertado e aquele dia de chuva fina e frio. Ela não sabia da escolha dele e nem ele da dela. Claro que não. Os tempos em que eles compartilhavam coisas morreu sufocado algum tempo atrás.

Ela e ele teriam chegado no mesmo horário, se não fosse o interesse sem fim dela por aquele que tomou mais tempo do que devia e ela se atrasou. E aí, como ela se atrasou, ainda deu tempo de um telefone sair correndo do bar até a casa dela e avisá-la para nem aparecer. Por isso, ainda deu tempo de desfazer a brincadeira que o destino ou deus ou os astros ou alguma dessas entidades superiores que regem as vidas das pessoas nesses momentos imprevisíveis tinha aprontado.

Mas quando essas brincadeiras já foram planejadas, parece que não dá para desfazer. Ou dá? Ela não conseguiu, pelo menos. Nem ele.

No dia seguinte, ela podia escolher qualquer horário para ter andado por aquelas ruas tão familiares para ela e para ele até chegar àquele prédio que ela tanto já chegou, mas que agora ela evita ir. Não por causa ele (talvez também), mas por todas as outras 5 mil pessoas que deixam aquilo com cara de formigueiro. Bastava entregar um envelope. Não era preciso nem sorrir para agradar, nem tomar aquele café amargo que ela detestava, nem pegar crachá. Não precisava nem passar do saguão, era coisa para um minuto, ou dois, no máximo. Ela escolheu um horário qualquer e foi. Passou pelo centro cultural bonito, pela floricultura decadente, admirou o lusco-fusco e gostou de ter escolhido passar por ali na hora em que as pessoas saem do trabalho e a rua tem aquele burburinho gostoso.

Ele podia escolher qualquer horário para descer aquelas escadas bem sinalizadas, passar pela catraca, depois pela outra e ir tomar um chá. Há quase quatro anos, ele faz isso todos os dias. Sempre igual. Ele escolheu um horário qualquer e foi.

Durante o minuto que ela esteve dentro daquele saguão, ele passou pela frente dela.

E o coração dela não bateu. Ou melhor, continuou a bater, sem se desritmar ou querer saltar pra fora. Tum. Tum. Tum. O dele bateu bem, ela sabe. Dava para ver naqueles olhos verdes. Mas não era mais de amor, pois ele já não bate de amor há muito tempo. Bateu porque se assustou com aquela presença que hoje é tão fora do contexto. De tão sem graça que o coração dele ficou, ele nem conseguiu dizer nada, só oi e eu tenho que subir. E subiu.

O coração dela continuou nesse ritmo de sempre. Continuou um pouco ferido ainda, isso demora. Continuou sentindo saudade de quando o coração dele estava sempre por perto, saudade de um tempo bonito que já não existe mais. Ela sentiu saudade de um tempo que ela não quer mais resgatar, nem se pudesse.

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8 Respostas to “Como morre um amor”

  1. Paulo Says:

    como se diz “amarelar” em inglês?….

  2. natalia parizotto Says:

    queria que o wordpress tivesse um LIKE / UNLIKE que nem o Facebook, pra que eu pudesse deixar registrado que gostei do que li mas não quero dizer mais nada. ok, talvez que minha vida ficou um pouco mais viva depois desta leitura poética da firma….vai um cafezinho?

  3. Caco Says:

    Bom
    Triste, mas bom.
    Abs
    Caco

  4. Felipe Says:

    Muito bom, Ju!
    Gostei!

    Beijocas,
    Felipe

  5. Alexandre Correia Says:

    Ju,

    Cada vez mais me convenço que o que pode fazer de qualquer um de nós um bom escritor não é só o talento de bem escrever. É termos uma vida recheada. Uma vida repleta de experiências, uma vida em que tudo acontece e nada se repete. Em que a rotina é não ter rotina. Em que há quem entre e saia da nossa vida. Em que há dor, mas também alegria. A Ju, embora ainda muito nova, começa a ter isso tudo dentro de si. Caramba, ao ler esta história até senti o coração apertado. Por isso gostei tanto dela. E imaginei-me ali, nesse saguão, de um lado e do outro. Também já disse ôi e subi, como fiquei a ver alguém desaparecer. Quando desaparece sem dor, é o sinal que já não ficaram senão as recordações.

    Beijo,

    Alexandre Correia

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