O medo que mede cinco metros

Subi aqueles degrauzinhos estreitos e bem íngremes de cimento velho toda decidida e cheia de mim. O sol esquentava meu corpo e tudo mais a minha volta porque era a hora do almoço numa terra que todos os dias faz sol e isso me deixava ainda mais a vontade, pois é assim que eu me sinto em casa: no calor, com pouca roupa e com umas havaianas. Mas aí eu cheguei na beirada e percebi que o mundo inteiro estava lá embaixo e só havia sobrado eu naquela altura toda. E perceber isso fez toda aquela confiança se evaporar no mesmo instante e me fez empacar igual essas mulas de fazenda que ficam fazendo o que não querem o dia todo e uma hora elas simplesmente desistem e nunca mais se movem.

Apenas cinco metros me separavam daquela água toda lá debaixo. E esses cinco metros me davam um medo imenso, que, se desse para medir, acho que daria alguns quilômetros. Como cinco metros de altura me metiam tantos quilômetros de medo? É só água. Não machuca nem nada. Quando a gente pula, ela engole a gente e é bom. E depois ela devolve a gente sozinho para cima. É só pular.
Lá debaixo é mesmo fácil falar que é só pular. Mas ali de cima era um drama. Também, lá de cima dava para ver a piscina olímpica de azulejinhos descascados, a outra piscina menor de água turva dos putos, a arquibancada sempre vazia, as árvores lá bem longe, os telhados das casas do chiques do Alvalade e muitas outras coisas. E sé dá para ver tanta coisa porque é alto. E se é alto dá medo, pelo menos para mim.

Eu passei um tempo considerável nessa nessa briga interna de vai não vai, passo pra frente passo para trás, vou adiante ou volto pelas escadinhas. A piscina toda parou para ver a agonia engraçada daquela pula branquinha e meio escandalosa. Aí vinham uns putos que subiam, chegavam correndo até a beirada e saltavam dançando kuduro, ou então de cabeça, ou então com cara de pouco caso. Eles queriam mostrar para a pula que era só pular, simples assim. Ou então queriam mostrar como eles eram corajosos, sei lá. Só sei que eu continuava com medo.

Esse medo que eu senti lá em cima é do tipo que dá um frio enorme na barriga mesmo quando a cabeça sabe que é uma bobagem, pois não há o que dar errado. Não havia como eu pular fora da piscina, quebrara a perna ou me afogar. Tudo necessariamente iria ficar bem. Não havia risco nenhum. Mas, ainda assim, eu sentia medo.

Ontem eu senti um medo desses.
Aí uma hora eu parei de pensar nisso e pulei.
A água me engoliu e foi bom. E depois me devolveu sozinha para cima.

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