O piano de Simon Bolívar

O piano fica lá para quem quiser tocar. É público. E não precisa saber. É só sentar.
O piano fica lá naquele lugar lindo que é uma estação de trem antiga e do lado de fora tem um parque, um museu, outro museu e uma aglomeração de pessoas que se afogam na cachaça para tentar deixar a vida um pouco mais doce, quase nunca conseguem e então ficam lá a ver o tempo passar, a arrumar pequenas encrencas e a guardar os carros de quem vai ali passear.
Nem era para eu ir parar lá na frente daquele piano. Entrei na porta errada e não consegui mais sair de tanta curiosidade de ver aqueles dedos tocando as notas com força. O dono dos dedos tem cabelos brancos, olhos claros, acho que verdes e mãos inchadas. Seu corpo veste uma calça velha e uma camiseta velha maior que seu tamanho com um alfinete pregado na gola para deixá-la menos folgada; suas costas carregam uns embrulhos de sacos plásticos e sua barriga, um embrulho de papelão que, pelo que eu entendi, é uma espécie de sonda adaptada.
O homem que toca blues no piano é Simon Bolivar. Tem 60 anos e já faz alguns deles que sua casa é a rua. Ele anda pelo centro, pela estação Ana Rosa, pela Lapa, pelos hospitais para arrumar tratamento e remédios para sua hérnia de disco. Enquanto espera uma vaga num albergue, sua cama é no relento, na rua Cardoso de Almeida, no Pacaembu. Ele pega latinhas no lixo e revende. Seu almoço custa um real ou quatro e oitenta, depende do lugar. Quando uma moça que sempre o ajuda o ajuda, ele come por 8,50, aí a comida é boa mesmo. Mas esses dias ele tem comido apenas uns lanches. Naquelas sacolas ele guardou três pães de queijo. Mais tarde vai dar fome e ele vai ali no restaurante do japonês. A comida é boa. Simon Bolivar acha que as pessoas o ajudam porque elas percebem que ele não bebem cachaça, que ele é homem sério. Agora as pessoas lhe ajudam e lhe entregam dinheiro porque ele toca piano naquele piano público.
As notas das músicas ele lembra das aulas de piano e de bateria que teve na escola. Não toca exatamente bem, ele mesmo admite, pois era aluno, não professor. Não entendo de música, mas acho que ele aperta aquelas notas com bué de força. Tanta força que elas saem até um pouco desafinadas. Mas é essa força que eu acho que deixa a música com a cara dele e que faz as pessoas gostarem. É essa força que ele tem para atrair as pessoas.
A menina filma tudo, ele gosta, fica vaidoso, explica sobre blues e sobre bossa nova. O bêbado ao lado é o Robert, eles não são amigos, mas estão ficando, pois o Robert e seu bafo de cachaça gostam de observar o Simon Bolivar e de puxar papo com quem dá trela. Depois vem uma menina com uns malabares, uns outros bêbados, uma menina, um casal, umas mulheres com uns óculos modernos. Todos ficam interessados por aquele senhor e por aquela música.
Conhecer o Simon Bolivar e ouvi-lo tocar foi tão interessante que o Museu da Língua Portuguesa ficou pra um próximo dia. Saímos d elá e fomos direto comer comida grega ali do lado, no Acrópolis.

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