Feliz aniversário

eu cega

No mesmo dia de hoje, mas no ano passado, eu vestia uma calça laranja e uma blusa azul de bolinhas brancas com um laço nos ombros, arrastava uma mala com umas roupas e uns pertences e uma rodinha a menos e me preparava para ir para esse lugar sem volta chamado Angola. Não dava nem para chorar, só dava para ter pressa, pois eu estava bué atrasada e tive mesmo que correr.

De repente eu estava lá, dentro daquele avião, entre um consertador de ônibus evangélico e um menino estranho com cabelos encaracolados com uns óculos enormes. Eles também haviam deixado tudo para trás.

Deixar tudo para trás é difícil.

O que será que eles estavam sentindo? Será que tinham esposas? Filhos? Havia uma separação anunciada? Iriam virar sócios de uma empresa? Tinham medo de se apaixonar por alguém? De apanhar paludismo? De fazer um filho? Será que eles iriam odiar tudo aquilo? Ou se atirar lá do alto e fazer com que cada instante daquela existência longínqua e inexplicável os marcasse para sempre? Será que eles achavam que tudo ia voltar para o mesmo lugar quando eles voltassem, como eu achava?

Nada voltou pro seu lugar depois desse dia.

Ainda bem.

Por muito tempo, eu fiquei tentando caber num lugar que não era meu. Era um esforço danado ter que ficar se encaixando nos planos que eu mesma fazia para mim. Um dia, quando eu achava que estava tudo encaixadinho, apareceu uma dor de cabeça que não parava nunca. E aí eu pifei. No começo eu não entendi muito bem por que. Demorou para eu descobrir que o que estava errado eram os planos que eu fazia para mim mesma, que atropelavam meus sentimentos, meus instintos e minha essência. Essas coisas todas que existem dentro do nosso peito e que a gente nem sabe dar nome direito têm uma potência mais avassaladora do que conseguimos imaginar ou controlar.

Deixar coisas importantes para trás e embarcar nesse avião sem volta foi a materialização de uma mudança profunda em mim, que começou a ganhar corpo talvez um ano antes.

Decidir embarcar nesse avião foi difícil, talvez a coisa mais difícil que eu já tenha decidido. Só que, ao mesmo tempo, também era como se nem fosse uma decisão. Eu sentia que era o único caminho possível. Era o meu caminho. Embarcar nesse avião era apenas se apropriar do que já era meu. E eu me apropriei da forma mais sincera e intensa que eu pude.

Nunca vivi tanto, chorei tanto, senti tanta saudade, me desiludi tanto, aprendi tanto, mudei tanto, me diverti tanto, dancei tanto, visitei tantos lugares, conheci tanta gente, me apaixonei tanto pela vida. Nunca escrevi tanto. Nunca tive tanta sede. E nem tantos projetos. Meus projetos. Apesar de ter ficado tanto e tantas vezes sem rumo, nunca me senti tão no rumo certo e nem tão preparada lidar com todas as coisas monstras que vão aparecendo pela frente.

Hoje, consigo aceitar melhor que, para mim, talvez tudo esteja no lugar quando está fora do lugar. Que alguns lugares marcados não me servem. Tenho medo? Um monte deles. Mas, quando vou dormir, não sinto aquela dor de cabeça enlouquecedora. E me divirto bem mais.

Feliz aniversário, Ju.

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10 Respostas to “Feliz aniversário”

  1. João Fellet Says:

    lindo, ju!
    = )

  2. zé maia Says:

    lindo!

  3. xuxis Says:

    lindo tb! posso ficar junto tb?
    resumiu td num post. uma semana depois eu lhe conheceria.

  4. Alexandre Correia Says:

    Olá Ju,

    E haverá melhor sensação do que essa de realmente dormir quando chega a hora de dormir? Dormir tranquilamente, sem insónia, sem dores de cabeça, sem pesadelos até, é um privilégio reservado a muito poucos. Parabéns por ter conseguido. Agora só lhe falta vencer o medo. Acredite que também se consegue!…

    Beijo,

    Alexandre Correia

  5. Tugolano Says:

    Acabados de aterrar embarcavam comigo para Cabo Ledo. A morena linda, o rapaz estranho de cabelos encaracolados que não ia à praia há anos, e mais muita gente que não decorei. Nesse pequeno paraíso, todos queriam ficar junto do bar. Todos menos eu, a morena linda e o rapaz estranho. Queríamos curtir a praia, a gente e a realidade. Estava assim dada a tónica para uma relação que se construiria a partir daí, espaçada, calma, tranquila, ébria até cair no chão. Saudades, morena linda, rapaz estranho… Saudades a partir desta nossa Luanda.

    • juborges Says:

      Saudade de todos os os amigos que se jogam na vida!!!!! Vamos todos nos visitar em muitos lugares do mundo muitas vezes ainda!!!!!

  6. yeah right Says:

    O seu blog esta cheiro de coisas inuteis que nao tem nenhuma aplicaçao util na vida das pessoas… so batucada e bosta da mesma categoria … get a life brasileira … vivem todos em uma pindeida de meter do e ta se achando.

    • juborges Says:

      amigo, o objetivo de um blog nao necessariamente eh ser util para alguem. vc leu porque quis, ne? e se fosse tao inutil como vc diz, nao estaria comentando nada. vc tem um blog com coisas uteis escritas?

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