De onde viemos

E nessa de entender de onde eu sou e de onde eu vim, Casa Grande e Senzala virou meu livro de cabeceira. Vou lendo bem devagar, anotando uns trechos, encantada com essas palavras boitas, esse monte de sabedoria acumulada e essa história misturada que é a nossa dos brasileiros. E assim vou aprendendo um monte.

Sempre tive um certo desinteresse pelos tugas. Achava um país besta, desimportante. Depois que fui parar em Angola, que tem outra relação com o colonizador comum, uma relação muito mais do presente, e depois que conheci bué de tugas, comecei a ficar mais intrigada com esses nossos parentes. Percebi que o que somos hoje também tem muita relação com eles, mas, na verdade, sabemos bem pouco de quem eles são. Agora com o Gilberto Freyre, to aprendendo um monte. E adorando entender um pouco melhor quem são os portugueses.

Vou transcrever umas partezinhas:

A singular predisposição do português para a colonização explica-a em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África. Nem intransigentemente de uma nem de outra, mas da duas. A influência africana fervendo sobre a europeia e dando um acre requeime à vida sexual, à alimentação, à religião; o ar da África, um ar quente, oleoso, amolecendo nas instituições e nas formas de cultura as durezas germânicas; corrompendo a rigidez doutrinária da Igreja medieval. A Europa reinando mas sem governar; governando antes a África.

“Em vão se procuraria um tipo físico unificado”, notava há anos em Portugl o Conde Hermann de Keyserling. O que ele observou foram elementos os mais diversos e mais opostos, “fugiras com ar escandinavo e negroides”, vivendo no que lhe pareceu “união profunda”. “A raça não tem aqui papel decisivo”, conclui o arguto observador.

A indecisão étnica e cultural entre a Europa e a África parece ter sido sempre a mesma em Portugal como em outros trechos da Península. E gente mais flutuantes que a portuguesa, dificilmente se imagina; o bambo equilíbrio de antagonismos reflete-se em tudo o que é seu, dando-lhe ao comportamento uma fácil e frouxa flexibilidade, às vezes perturbada por dolorosas hesitações, e ao caráter uma especial riqueza de aptidões, ainda que não raro incoerentes e difíceis de se cinciliarem para a expressão útil ou para a iniciativa prática.

Considerando-se no seu todo, o caráter português dá-nos principalmente a ideia de “vago impreciso”.  O caráter português é como um rio que vai correndo muito calmo e de repente se precipita em quedas d’água: daí passar do “fatalismo” a “rompantes de esforço heroico”: da “apatia” a explosões de energia na vida particular e a revoluções na vida pública.; da “docilidade” a “ímpetos de arrogância e crueldade”. É um caráter todo de arrojos súbitos que entre um ímpeto e outro se compraz em certa indolência voluptuosa muito oriental, na saudade, no fado, no lausperene.

Tomando em conta tais antagosinsmos de cultura, a flexibilidade, a indecisão, o equilíbrio e a desarmonia deles resultantes, é que bem se compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização do Brasil,a formação sui generis da sociedade brasileira.

Quanto à miscibilidade, nenhum povo colonizador, dos modernos, excedeu ou sequer igualou nesse ponto aos portugueses. Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços que uns mulheres apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos na extensão de domínio colonial e na eficácia de ação colonizadora.

Ai, tá, e pra terminar, uma partezinha da África, para não perder o hábito:

Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo a influência direta, ou vaga a remota, do africano. Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam os nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera da vida, trazemos quase todos a marca da influência negra

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8 Respostas to “De onde viemos”

  1. Hilcelia Says:

    Pois…Já tinha lido antes, mas é bom relembrar tudo isto que, para mim, na verdade, é extremamente presente na cultura de Salvador. África e Portugal vivem em nós!

    • juborges Says:

      Salvador é tão diferente, né? São Paulo é muita mistura recente de tudo o que é gente, então essas origens mais antigas eu acho que acabam se perdendo…. bjs!!

  2. xuxis Says:

    E nós vivemos tudo isso, ne Ju? Freyre é o máximo. Meu exemplar esta ai em sp, morro de saudades.
    Bjs

  3. Alexandre Correia Says:

    Olá Ju,

    Depois de ter lido isto tudo, colocam-se-me na cabeça uma série de interrogações. Por exemplo, se conhece Portugal, ou que más experiências o escritor Gilberto Freyre teve em Portugal ou com portugueses, pois sabemos (a Ju sabe, com certeza, porque também escreve…) que é uma grande tentação escrevermos retratos apaixonados, que tanto podem ser positivos, quando nos sentimos muito bem, como podem explorar o lado mau das coisas e até energrecê-lo bastante mais, um pouco à láia de vingança. Para Freyre ter escrito isso, arrisco dizer que algo lhe correu mal na sua relação com Portugal e, ou, portugueses. E com a Ju? Não vou arriscar, mas fico a pensar que talvez…

    Mas pergunto-lhe, já que estamos condenados a viver eternamente sob o estigma do colonizador, mau, por é esse o cunho do texto, o que pensa dos franceses, italianos, holandeses, alemães, checos, polacos até? É que todos estes povos tiveram — e continuam a ter — uma influência fortíssima no Brasil, que todos eles colonizaram e que alguns deles tentaram mesmo transformar numa colónia. Pense em São Luís do Maranhão e nos franceses, ou em Pernambuco e nos holandeses, ou ainda no sul de Santa Catarina e nos italianos, por onde até andou o célebre Garibaldi, que regressou a Itália com mulher brasileira, Ana de seu nome. Bem e dizer que os brasileiros trazem quase todos a marca da influência negra das duas uma: ou é um enorme exagero, ou o autor não conhece a sua própria terra, o que até compreendo, pois frequentemente descubro que eu conheço mais do Brasil que muitos brasileiros com quem contacto. E só uma última pergunta: conhece mais algum outro país, sobretudo um que fosse considerado uma potência nessa época, cujo monarca tenha optado por não regressar a casa, adoptando essa parte do reino (recordo-lhe que o Brasil não era considerado uma colónia, mas sim parte integrante do Reino de Portugal, do Brasil e dos Algarves — como era oficialmente designado o país) e tornando-a num reino independente?

    Definitivamente, arrisco que a Ju não conhece Portugal. Tal como o Brasil, é um país óptimo para se viver, apesar das dificuldades de ambos.

    Beijo,

    Alexandre Correia

    PS – Os seus textos originais são bastante mais interessantes. E deixe-me explicar-lhe que adoro o Brasil, tenho excelentes relações com brasileiros, alguns grandes amigos brasileiros. E não me chamam Tuga. Nem eu lhes chamo Brasucas. Porque ambos sabemos que são expressões com uma forte carga depreciativa. Mas já vi que a Ju gosta muito de usá-la…

    • juborges Says:

      Oi, Alexandre, sempre adoro ler suas observações sobre o que eu escrevo.
      Vamos lá: brazuca não é depreciativo para nós. Quando digo tuga, também não tem essa carga depreciativa, acho que tem mais jeito de apelido do que qualquer outra coisa. Como mangolê ou japa. Aqui no Brasil não usamos essa palavra Tuga, achei engraçada quando ouvi pela primeira vez.
      Eu acho que, nós, brasileiros, desconhecemos profundamente as nossas origens e tudo o que está a nossa volta. Talvez daí exista esse desinteresse sobre o qual falei. É um desinteresse por desconhecimento. É isso não é legal. Eu ando fascinada com a história de Portugal, com essa predisposição de se mudar, de de sembrenhar pelo mundo, com essa alma poeta e sonhadora. Mas, para mim, sinceramente, tudo isso é algo novo mesmo. Acho que o Gilberto Freyre também disse tudo isso com uma certa admiração pelos portugueses, e não com desdém…. Não sei, não li tudo ainda, depois te conto.
      Não, eu nunca fui à Portugal. E, se eu pudesse escolher um lugar para conhecer amanhã, Portugal certamente seria um deles.

  4. septuagenário Says:

    Será que nunca mais sai da cabeça de brasileiros que Portugal não é mais que pura imaginação?

    Sim, porque criar uma fronteira que ia do Rio Amazonas até ao rio da prata, não cabia na cabeça de ninguem!

    Atenção, que Gilberto Freyre não é muito estimado por muitas mentes “descolonizadas”.

  5. Alexandre Correia Says:

    Olá Ju,

    Apreciei muito a sua resposta ao meu comentário. E fiquei bem esclarecido. Seria uma decepção muito grande para mim ver-me obrigado a considerar que a Ju era mais uma dessas pessoas que se deixam escorregar pela ignorância e que catalogam todo um povo e um país de forma negativa apenas porque não gostam, ou não gostaram. Diz-se que sempre paga o justo pelo pecador. Mas ambos sabemos que isso não é justo. E eu já estou tão cansado de ver tanta gente sempre a malhar em Portugal e nos portugueses. No dia em que nos conhecer, e no dia em que estudar um pouco mais em profundidade a história de Portugal, que abre a própria história do Brasil, compreenderá tudo ainda melhor.

    Beijo,

    Alexandre Correia

    • juborges Says:

      Oi, Alexandre, catalogar e reduzir as coisas sempre dá errado mesmo. Mas a gente faz isso toda hora sem querer. Com tudo o que nos é diferente e nos é estranho. E temos que tentar ir lutando contra isso, é sempre o melhor caminho. Quando eu for à Tuga vou falar com você para pedir dicas de lugares, cantinhos e gentes imperdíveis🙂

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