Uma breve história do meu pai

Olhem por que eu sou assim:

Uma breve história do meu pai


Ele é engenheiro formado pela poli. Lá no passado teve uma esposa, quatro filhos, uma casa enorme, uma fábrica de compressores de ar uma vida confortável, com casona, caseiro, cachorros e piscina e tudo mais nos eixos. Mas aí empresa se deu mal naquele tempo do collor em que todas as empresas se davam mal, o casamento acabou e ele foi trabalhar por outros, abriu umas franquias e tocou alguns negócios que fizeram a gente sobreviver, mas o dinheiro minguar. Conheceu a Vera. Brigou com a vera, a Vera brigou com a gente, a gente brigou com ele. Terminou com a Vera. Voltou com a Vera. Muitas vezes. Depois abriu uma agência de turismo para quem tem carrões quatro por quatro e essa coisa de criar filhos. Essa coisa de não ter dinheiro com filhos pra criar e recomeçar um negócio era tão estressante, mas tão estressante que ele virou uma bomba atômica. Aí a bomba explodiu. Um mês e meio na UTI e o mundo virou de cabeça pra baixo. Essa coisa de nascer de novo faz isso. Tempos difíceis, recuperação milagrosa, falta de dinheiro, falta de perspectivas, depressão, medo, 60 anos sem dinheiro, sem empresa, sem trabalho e sem concentração, que foi levada pelo AVC. Mas com uma mulher incrível, uma ex-mulher incrível e quatro filhos incríveis. Aí ele casou, de papel passado, com uma festa deliciosa e com a sábia decisão de ir o marido pra uma casa e a esposa para outra. Ele resolveu diminuir o tamanho da sua vida: trocou a casona por um apartamento, comprou um taxi, um alvará e virou taxista por São Paulo. Sem dar a mínima pra quem disse que isso era decadência. Decadência nada. Isso é decência. Decência por entender que o importante na vida é fazer o que gosta: tocar saxofone, estudar música, ir pro clube fazer spinning, ficar com sua mulher, fazer uns almoços com os filhos em casa, tomar banho de cachoeira e não ter grandes preocupações. Ele recomeçou tudo de novo. Recomeçou melhor – menor, mais calmo, mais feliz, se importando com as coisas mais certas. Entendendo de uma forma definitiva que as coisas pequenas são as que mais importam. E aí quando tá tudo calminho e nos eixos ele muda tudo de novo. Comprou uma casa em Delfinópolis, 5 mil habitantes, lá na Serra da Canastra, com planos de se mudar daqui a 3 anos. E de repente vendeu o taxi, o alugou o alvará, comprou um 4×4, fez um camping pra não dar certo, estendeu uma rede na varanda e pronto. Os três anos viraram três meses. Ele agora está lá no interior, feliz da vida, todo sem pressa, sem barulho, sem estresse, completamente realizado com tudo o que ele construiu – e desconstruiu na vida.

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16 Respostas to “Uma breve história do meu pai”

  1. cati Says:

    tal pai, tal filha……

  2. Vera Says:

    JU!!!
    que belo texto! rapidinho, concentradinho e o próprio! a foto ta demais, pra ilustrar o cara… pernona aberta, sorrisão e na água da cachoeira.
    adorei!

  3. Paulo Levi Says:

    Ju, muito bacana essa história do teu pai e o teu jeito de contá-la. Parabéns!

  4. Chantal Says:

    Ju,

    que texto mais gostoso e lindo. Conheci seu pai por causa da Vera, que conheço desde a adolescência do clube, e tive o prazer de conversar com ele e escrever um pouco sobre essa sábia história na revista 29Horas (aliás no primeiro número da revista, que circula em Congonhas). Fiquei admirada com a coragem e a autenticidade dele, e também com a vontade de ser fiel ao que acredita. Pode crer que isso também tem a ver com vocês, filhos, que o ajudam, e com a presença da Vera. beijos, tudo de bom! Chantal

    • juborges Says:

      Chantal, eu vi a matéria! Super banca! Passe por aqui de vez em quando. bjs

    • zé mauro Says:

      Chantal, aqui é o zé Mauro. Quando li esse depoimento da Ju, fiquei muito lisonjeado, e me lembrei de você, que conseguiu pescar muito bem o meu espírito, e fez uma reportagem tão legal, que passei pra todo mundo. E tenho ainda tres revistas guardadas com muito carinho. Um beijão pra você. Zé Mauro

  5. luis Says:

    morro de vontade de passar por delfinópolis, terra das cachoeiras. quem sabe em junho…

    • zé mauro Says:

      Luis, aqui é o Zé Mauro, o pai da ju, que leu o seu comentário. Vem mesmo pra Delfinópolis. Tenho um camping aqui, bem legal, mas você fica onde quiser. Tenho um carro 4×4 pra levar o pessoal pras cachoeiras e passeeios lindos por aqui. Está convidado. Um grande abraço – Zé Mauro

  6. zé mauro Says:

    Ju, sou eu, o protagonista do último texto. Fiquei muito lisonjeado pelo que você escreveu sobre mim. E muito honrado.
    E o mais legal de tudo isso é que passei para vocês, meus queridos filhos um pouco da minha natureza, daquilo que, um dia que estiver debaixo de sete palmos de terra, vocês possam se lembrar de mim com orgulho.
    Com carinho – Papi

  7. Tato Says:

    Jú e Zé Mauro.

    Fiquei emocionado com a forma que a Jú vê o pai. è muito bom viver para ter o reconhecimento dos filhos. Sejam felizes em Delfinópolis

  8. Beta Says:

    LINDA!

  9. Deise Says:

    Ju,
    amei o texto. Acompanhei parte desta trajetória que vc soube retratar de maneira tão poética. Amo a Veroca, que é minha amiga de longa data, e amo seu pai, que se tornou parte de nosso coração. Que Delfinópolis traga muita sorte, mais amigos, muita saúde e de quebra bastante dinheiro…
    Bjs.

  10. Hilcelia Falcão Says:

    Amei, Ju. Bjo Hilcelia

  11. Oga Mendonça Says:

    Parabéns Ju, este texto é uma belíssima homenagem ao seu pa. Me identifiquei com o texto, pois de certa forma meu pai está tendo uma trajetória ao mesmo tempo parecida de vida, de ter que perceber uma nova ordem das coisas, de valores e prioridades, vou encaminhar este texto pra ele se emocionar também.

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