A hora da luz bonita

Era hora daquela luz linda que no fim de todas as tardes deixa as cores de Luanda ainda mais bonitas. Era a hora em que todos os dias descíamos aquelas escadas de mármore desgastado cheirando a mofo e ganhávamos a rua. Cruzávamos as vendedoras de milho, as moças que trocam dinheiro, desviávamos das gotas sujas que caíam lá de cima feito chuva dos aparelhos ar condicionado, dobrávamos a esquerda e chegávamos até a pastelaria Nilo. Todos os dias esse passeio se repetia, menos menos pela vontade de tomar café do que pelo prazer mais simples e sincero de ver aquela luz linda a bater nas janelas, nas zungueiras, nas conversas das crianças de aventais brancos, nos carros estacionados de qualquer maneira e na poeira que aquelas moças pobres levantavam ao tentar juntar um pouco do pó.

A hora era a mesma desse outro tempo da pastelaria Nilo que me traz as melhores e piores lembranças. Mas a Juliana já é outra. E já não há mais aquela camisa de força que me queria controlar tudo e privar das coisas. Eu posso simplesmente demorar o tempo que quiser nessa caminhada na hora da luz bonita. Posso me despedir devidamente das coisas e das pessoas, como deve ser feito. Posso resolver mudar de caminho só porque resolvi seguir o som de uma música em vez de pegar o trajeto mais curto até minha casa. Posso decidir não ir embora, inclusive. Ou então voltar antes do previsto pra antecipar um reencontro. Mudo o bilhete e pronto. Já está.

Mas ir embora também é bom. Porque os laços que criamos com as pessoas e com os lugares são intemporais e se navegamos no rumo natural da nossa vida sempre haverá reencontros e retomadas e novos encontros e de repente estamos de volta como se estivéssemos estado ali na véspera, como se a distância do tempo nunca tivesse existido.

Enquanto eu andava na hora da luz bonita na minha última tarde de uma curta estadia em Luanda era como se eu sempre estivesse tido lá. Deixando meus pés comandarem o caminho, cheguei aos pés do prédio da Cuca, no Kinaxixi. Comecei a subir, bem devagar, meus passos queriam demorar para chegar no topo do prédio que deve ter uma vista linda e que meus olhos ainda desconheciam. Foi um lindo jeito de me despedir da cidade. Sozinha. Vendo-a do alto, do alto de um prédio que faz parte da história da cidade, que talvez em breve não exista mais, pois está comprometido, será partido. Por alguns instantes, fiquei a olhar a baía de Luanda, os chineses a trabalhar no buraco que virará um shopping, as gruas, os prédios baixos, as parabólicas, o trânsito e o som da cidade bem ao fundo. Desci todos aqueles degraus como que flutuando, e flutuando também cheguei até a casa em que estava hospedava, e com as lembranças mais doces peguei o avião de volta para minha casa, essa que eu moro, e pra qual eu gosto tanto de voltar.

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5 Respostas to “A hora da luz bonita”

  1. Marco Says:

    olá Ju, o teu blog, e muito bom, ya gostei… a sério continua, força, bjos

  2. Belén Macedo Says:

    Ju, que lindo!
    Quanta emoção…
    Por alguns minutos você me levou pra Luanda, era como se eu estivesse com vc lá…
    Bjs

  3. francisco Says:

    Ju, sou de luanda. nao sei se a coheco, mas conheci uma ju brasileira e jornalista de profissao. Nasci e vivo em luanda. E bom saber que luanda nao ‘e apenas o lixo, o transito caotico, ou qualquer outra maldicencia q estamos acostumados a ouvir dos estrangeiro.
    Fico feliz q tenha gotado da minha cidade, certamente q em sitio aparentemente desagradaveis exista coisas maravilhosas, como as pessoa boas q conhecemos.

    Abracos, espero conhecer a sua cidade (qual ‘e mesmo?)

    • juborges Says:

      Francisco Inácio! Claro que vc me conhece. Eu sou a Ju que vc conhece, sim! E vc sabe como eu sempre gostei dessa cidade! Estive na redação, mas nao te encontrei. Vi os outros kambas! abraços! Ah, minha cidade é SP

  4. Hilcelia Falcão Says:

    Luanda é assim: um paradoxo fascinante. E Ju, bem, sem comentarios: é de uma delicadeza comovente. Textos belos, sensíveis e um olhar aguçado para as questões humanas. O blog tá lindo. Espero um dia também voltar. Beijo

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