O filme da lua no cinema longe

Quando a cabeça e o corpo não precisam se ocupar de nada que é necessário, sobra todo o resto das coisas para se fazer. Esse todo resto das coisas de ontem foi ver o filme da lua no cinema longe.

A lua nasce sempre uma hora depois do dia anterior. Então, como antes de ontem ela nasceu às vinte uma e tal, bem na hora da quermesse, significa que ontem ela apareceria umas vinte e duas e tal.

Antes do filme da lua começar, teve o filme das estrelas. No mundo do Mwanito, Jerusalém, inventado pelo Mia Couto, as estrelas foram furadas pela espingarda do Zacarias Kalash. Mas e aqueles borrões brancos que não são um único furo, mas um conjunto de milhões deles, que formam um tecido que só enxergamos quando não tem luz da lua nem luz da cidade? Não sei bem o que eles são, se são os furos da espingarda ou se foram os estragos de uma granada. Mas são bonitos.

Por quase uma hora, o carro subiu a serra, guiado por aqueles farois que iluminavam dramaticamente as árvores retorcidas, as corujas, o condomínio de pedras, os mata-burros, as porteiras. Lindo mesmo era quando os farois eram colocados para dormir no meio da estrada. E aí ficávamos só nós dois, meu pai e eu, escutando o silêncio.

O cinema é a casa do Creuso e da Aline, lá no alto, no meio do nada. É uma tela gigante, 3D, acho que deve ser até 4D. Dá para ver a imensa Delfinópolis lá embaixo e, pela ausência de luzes, dá para imaginar onde está a represa. Dá para ver também como o céu é preto, e não rosa, como a gente enxerga em São Paulo. E como o vento é frio. Dá para ver um chuveiro que nunca desliga com uma botina tomando banho. Lá por detrás dos morros, do outro lado, começa a ficar claro igual o dia raiando. Mas ainda não é o sol do dia. É o sol da noite. Esse sol da noite deixa visível as silhuetas dos morros e das árvores, mas não os detalhes das coisas. Ver à noite é um jeito diferente de ver de dia: existe só o escuro e o claro, nada mais. Depois que as silhuetas aparecem, vem a lua, toda brilhosa, meio cor de caramelo, ofuscando o brilho das estrelas furadas pelas espingardas. O filme foi tão bonito que eu desci a serra na companhia do meu pai e da Billie Holliday já dormindo, com aquele sacolejo bom das estradas de terra.

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5 Respostas to “O filme da lua no cinema longe”

  1. Vera Says:

    que inveja, Juju… sei direitinho como é isso tudo. E estou aqui… trabalhando duro, e longe disso tudo – que é a vida, afinal. Pelo menos sei que aí é a minha casa. E que o Zé é o meu marido. E que você estando aí, faz companhia pra ele, e deixa ele feliz. Feliz é tudo que podemos ser…

  2. Renata Says:

    Oi Ju! Quanto tempo!!!
    Tive notícias do seu pai pelo Marcelo Gaia… me disse sobre a morada em Delfinopolis.
    Como eu saí daquele escritório em que eu trabalhei a vida toda, deixei alguns endereços de emails perdidos lá. Aí lembrei do super facebook e te achei. Temos um montão de coisas pra conversar, hein?
    Amei o seu texto! Tbm sou fã do Mia Couto!
    Beijos,
    Re

  3. Danidoneda Says:

    que lindo, Ju.😉

  4. Renata C Says:

    Oi Ju, que privilégio, que gostoso, que sentimento, que delícia de texto, de lua, de pai.

  5. Marcelo Says:

    E pensar que eu tenho a celestial sorte de poder assistir esse filme toda noite.
    Aqui da varanda de casa em Delfinópolis vejo uma imensidão que sequer sonhava existir em tempos de São Paulo, e ali fico embasbacado com tantas novas estrelas furadas no céu e a luz de uma Lua que pra mim tornou-se uma nova e silenciosa companheira, dessas que não precisam de palavras enquanto me aquece em sua confortável colcha de retalhos negros, azuis e brancos…
    Gostei do seu estilo.

    Beijos meus.

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