A moto amarela

– Vai andar de moto agora!
– To com medo.
– Aproveita então. Daqui a pouco você perde o medo e perde a graça.

Já fazia tempos que eu a queria lá na garagem. Desde os tempos da outra vida, daquela em que tudo estava no lugar, tão no lugar que havia uma pessoa dormindo no lugar ao lado da mesma cama dizendo que eu era maluca de ter uma ideia dessas. Imagina, uma moto. Que perigo. E eu dizia que perigoso é perder a paciência porque as ruas estão engarrafadas, é viver numa cidade com tantos carros, é ficar procurando lugar para estacionar, perigoso é ter carros caros e muito dinheiro, perigoso são esses motoboys malucos que, coitados, ganham mal e por hora e aí ficam andando desse jeito. Perigoso é morrer de tédio. Perigoso é não ter medo, é se sentir presa, é não viver. Perigoso é abandonar o namorado e ir morar do outro lado do mar. Perigoso é tudo, eu dizia, meio sem paciência com aquela imobilidade toda.

Aí o tempo passou, o namorado passou, a juliana voltou – e foi e voltou e foi e voltou e se perdeu e se encontrou e se desentendeu e se reentendeu e passou a entender melhor essa fluidez toda – e a ideia de tê-la na garagem não passou.

Fiz as aulas com o instrutor bombado que me chamava de bebê e não me ensinou nada, vesti aquele capacete fedido que sempre me fazia voltar para casa correndo para tomar banho, acordei as 5h da manhã para fazer aquele circuitinho imbecil e passei na prova de primeira, sem fazer todas as aulas, sem precisar engatar segunda marcha e sem ter a menor ideia de como se pilota uma moto.

Aí um dia eu fui na loja, fiquei na dúvida entre o amarelo e o preto, decidi pelo amarelo e comprei uma daquelas motos de mulherzinha, que põe o pé na frente, não tem embreagem e pode andar de saia.

Aí de repente ela estacionou na minha garagem. Em vez de ficar feliz, fiquei petrificada de medo. No primeiro dia nem consegui ir lá embaixo olhar pra ela. Meu deus, que ideia infeliz que eu fui ter, onde estava com a cabeça, isso é muito perigoso.

No segundo dia, decidi que era perigoso demais ir até o posto em cima da moto e fui a pé comprar combustível dentro de um saco plástico pra eu ficar dando volta no quarteirão. Quando voltei com aquela sacola molenga que não dá para apoiar, percebi que não sabia abrir o tanque, que havia esquecido o farol aceso e que a bateria havia descarregado. Chamei o zelador, o porteiro, o motoboy da loja da frente, o vizinho. Todos deram seus palpites e, como sempre, ficaram felizes por desempenharem suas funções masculinas.

E saí para a primeira volta no quarteirão. Na falta de um pai, que não mora aqui, de um irmão mais velho, que não existe, ou de uma pessoa mais ajuizada, acionei a amiga C. para ficar me dando apoio moral e dando risada comigo. O porteiro ficou todo orgulhoso, parecia meu pai. Disse que com o tempo eu pego a prática – prática que ele não tem, pois nunca pilotou uma moto na vida.

Amanhã quero dar mais umas voltinhas no quarteirão. Quem sabe depois de amanhã eu já me arrisco a ir até a Vila Madalena? É, tá decidido: bem mais perigoso que ter uma moto é não se divertir.

Anúncios

Tags: , , , , , ,

4 Respostas to “A moto amarela”

  1. animal oportunista Says:

    Eu tinha esquecido – tinha mesmo esquecido – como vocês funcionam, paulistas… que saudade esquisita. Olha, o medo vai mesmo passar! Aproveita, Ju!

  2. Menina de Angola Says:

    kkk menina mete as caras… Que texto gostoso me fez lembrar meu primeiro carro, rs… Peguei na concessionária e já na primeira esquina quase bate, cheguei apavorada em casa. Fui pro quarto e fiquei lá morrendo de medo dele. Mas decidi, não posso ter medo, ou eu vou lá e enfrento ele ou nunca mais vou entrar nele.. rs

    No dia seguinte, um domingo supostamente tranquilo fiz o caminho casa x trabalho que consistia em sair da Zona Norte e ir até a zona sul.

    Tudo seria perfeito se aquele domingo não fosse dia do jogo do corinthians, kkkk Eu petrificada e eles insandecidos pelas ruas…

    bj e boa sorte com a sua nova companheira

  3. Meu bem querer! « Gabby Says:

    […] […]

  4. nuno martinho Says:

    ya… ju fico feliz em saber, que que vc esta consciênte que teve uma acto inconsciênte. mas há uma coisa estou mas feliz ainda que a minha amiga comprou uma mota e que terei todo prazer em conduzila. bjs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: