detalhe

07/09/2010

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Luanda doce e silenciosa

04/09/2010

Luanda doce e silenciosa. É assim que hoje eu sinto essa cidade. Não sei se tem a ver com o lado de dentro ou com o lado de fora, pois tanto um quanto o outro se metamorfoseiam.

Eu ando na rua e só escuto o silêncio.

O silêncio das zungueiras. O silêncio das calçadas. O silêncio das motas que se multiplicam. O silêncio das gruas que verticalizam a cidade. O silêncio da brisa boa do fim do cacimbo. O silêncio do hotel Globo. O silêncio do tempo passando no tempo certo. O silêncio e a doçura.

Missão: amar

27/08/2010

O director geral, por ser director geral (ou general director), deve estar acostumado a ser bajulado. Deve estar acostumado a impor sua autoridade pelo cargo que vem após o seu nome, e não pelo que ele é. Deve estar acostumado a pensar que as damas, por não serem directoras gerais, vão querer sair com o director geral. Então, quando ele senta-se para almoçar e vê uma miúda sorridente na mesa ao lado almoçando com um kota amigo, acha-se no direito de mandar este singelo bilhete de amor.  Pura poesia.

Uma viagem com outra viagem

21/08/2010

Foram 15 dias quase ininterruptos de lágrimas, uma espécie de funeral antecipado. Um enterro de uma vida que já não me cabia mais, mas que, até então, vinha sendo minha vida. E era boa a vida, por isso foi complexo e doloroso fácil me livrar dela.

Foi assim que, quase dois anos atrás, eu coloquei umas roupas, uns remédios e uns livros na mala e fui para Angola trabalhar, viver, me divertir, conhecer, me apaixonar, me transformar, me desconstruir.

Não foi fácil viver essa vida com dois chips que não conseguiam conversar. Era um eterno e doído cabo de guerra interno. E é em horas como essas que acontecem os rompimentos. Rompimentos de pessoas, de chips, de vidas passadas e presentes, de comportamentos, de sentimentos. O rompimento é difícil, pois somos acostumados aos padrões.

Mas depois dos rompimentos há as reconciliações. Elas podem demorar a aparecer, mas uma hora elas vêm e fazem os oceanos diminuírem, os opostos serem relativizados, as arestas serem aparadas.

***

E agora chega a hora de uma nova viagem, uma viagem importante, para esse mesmo lugar que eu fui depois do funeral antecipado, mas agora com um projeto que nasceu da minha própria cabeça e cresceu com minhas próprias mãos.

As lágrimas não existem, nem o funeral, nem a terapia, nem eu acho que vou ter que escolher entre uma coisa e o seu contrário, pois, dessa vez, me parece que está mais fácil conversar com todas essas julianas opostas que habitam meu coração.

Hoje, sinto que há apenas esse nervosismo bom que antecede uma partida e o cansaço de uma vida que anda agitada: o mudo infectado, a moto amarela circulando pelos ônibus e avenidas e fumaças da cidade, as pessoas novas, projetos virando gente grande, o retorno de saturno, o inferno astral.

E aí o melhor jeito que eu encontrei para me preparar para essa viagem foi fazendo uma outra viagenzinha lá para aquela ilha que tem cheiro de casa. Porque eu acho mais fácil de desligar me religando com a natureza, e lá na ilha dá para fazer isso.

Tentarei ficar um pouco quieta, concentrando as energias que dentro em breve serão ativadas com força máxima na cidade mais suave e frenética que eu conheço.

luanda geografias emocionais

14/08/2010

Luanda Geografias Emocionais – Teaser from tasaver on Vimeo.

Teaser do documentário Luanda Geografias Emocionais, que o tás a ver? está produzindo em Angola. É por causa desse projeto, nascido na minha cabeça e criado por várias mãos junto com as minhas, que eu estou arrumando as malas mais uma vez.

Para saber mais sobre o tás a ver? e sobre o projeto do doc é só espiar o site do tás a ver?

buala

14/08/2010

O Buala é um portal de cultura conteporânea africana muito fixe.

Buala (em quimbundo Bwala) significa casa, aldeia, a comunidade onde se dá o encontro. A geografia do projecto responde ao desenho da proveniência das contribuições, certamente mais nómada que estanque. A língua portuguesa, celebrada na diversidade de Portugal, Brasil e Áfricas, dialoga com o mundo.

Eu agora, de tempos em tempos, vou escrever para o Buala. Esse é o primeiro texto que eu escrevi.

Luanda e Salvador rediscutem seus laços por meio da arte

Salvador, na Bahia, e Luanda, em Angola, são cidades primas. Mas são como primas distantes: elas têm uma forte ligação familiar, mas perderam o contato uma com a outra com o passar dos anos. Por meio dessa imagem, o artista plástico e curador angolano Fernando Alvim sintetiza sua visão sobre as relações entre a capital de Angola e a capital da Bahia, o estado com maior presença negra no Brasil.

Para ele, é impossível não perceber a semelhança entre ambas. “Há algo na estética, na arquitetura, na maneira como as pessoas se movimentam, no som, no clima, nas cores, que deixa os dois lados do Atlântico muito familiares”. Mas, ao mesmo, tempo, é notável o desconhecimento de um lado sobre o outro – principalmente dos baianos em relação a Angola e à África contemporânea.

… continua…

Infectado

09/08/2010

Você que está lendo isso provavelmente já está infectado. O hospital está infectado. O chão, as paredes, o alimento, a escova de dentes, os dentes, a mente. Está tudo infectado. Os micróbios são superiores aos macacos e aos humanos, eles devoram tudo com seus tamanhos invisíveis e seus eternos poderes de reprodução em massa.

Não há mais saída. É possível tentar amenizar os efeitos da infecção lavando as mãos compulsivamente com água, sabão, álcool em gel. Ou ainda beber o álcool diluído na cerveja, na cachaça na vodca. Mas de que adianta? O álcool também provavelmente também já está infectado.

Mas o importante é não acabar com os rituais, com as rotinas. São eles que preenchem a nossa vida.

Então, é preciso desinfetar a boca três vezes ao dia. Funciona assim: primeiro tem que pegar a escova de dentes com a pasta colgate tripla ação, uma bacia com água morna e um copo com água mineral. Em seguida, um novo copo com água mineral, o fio dental e a escova de dentes com periogard, aquela com gosto salgado para dentes sensíveis. Depois de usada, a bacia precisa ser lavada com água, sabão e, depois, enxuta. Mas não com a toalha de pano, que está contaminada, tem que ser com a de papel esterilizado. Pronto. A boca está pronta para receber a próxima infecção, que vem pelas mãos de uma sorridente enfermeira em forma de bolacha, sopa, purê de batata em forma de coração ou frango.

Desinfectar o corpo de uma parte de si mesmo é um processo complexo, agressivo. Para desinfectar um pulmão infectado pelo álcool, pelo cigarro, pela mente que divaga pelo passado, pelos gregos, romanos, por Homero, pelo mar Egeu, por Molière, pela ideia de que hipocondríaco não é a mesma coisa que malade imaginaire e por centenas de livros devorados pelas traças não há outra forma: tem que abrir o peito com o bisturi, virar o corpo que dorme com anestesia geral para frente, para o lado para trás e chegar até o pulmão, esse pulmão frágil com enfisema. É um corpo frágil, um corpo que doi com tudo, até quando não há dor física. Porque a dor psicológica não passa nunca.

Para terminar de sarar a cirurgia que desinfectou o pulmão, garrafas de plástico presas ao corpo ficam recebendo sangue, urina, células mortas o que mais o corpo rejeitar. Os dutos que carregam esse líquido avermelhado de dentro de um organismo para as inanimadas garrafas provavelmente serão foco de uma nova infecção.

Para o pulmão não se desacostumar de funcionar, fisioterapia três vezes por dia. Primeiro, finja que você está desembaçando um espelho. Aperte o travesseiro contra você mesmo. Depois, tente tossir, tossir com a vontade lá do fundo, para expectorar um catarro com sangue, que é cuspido na bacia ou nos lenços de papel desinfectados.

Para não se infectar com as infecções dos outros infectados do hospital o que é preciso fazer? Isso eu já não sei. Só sei que esse lugar de amontoar pessoas com infecções de todos os tipos infectam a lógica e o pensamento também. Infectaram o pensamento da minha mãe, pelo menos, que arruma uma lógica completamente ilógica que envolve cachorros, aluguel de uma casa entre dois rios, umas australianas de são bernardo e um patrão que nunca acorda antes do meio dia para justificar – ou não justificar – as suas escolhas. Os micróbios infectaram também o pensamento do meu outro tio, o tio santo, que dedica sua vida aos outros, dedica tanto aos outros que todos os seus instintos são reprimidos, e aí suas costas são sempre tensas. O tio santo agora acha que é logico que o tio infectado com o câncer, que tem um quarto infectado pelos micróbios devido às pilhas de livros, velharias, recortes de jornais velhos e às ordens expressas de que nenhuma das marias pode entrar para limpar, ocupe o seu quarto. O tio santo, mais uma vez, vai ceder.

Bom, eu, pelo pessimismo, pela angústia que acabou de tomar conta daqui de dentro de mim, também devo ter sido infectada pelos micróbios que moram nesse pesado hospital.

Barrados no baile

29/07/2010

Nossa, nesse meu mundo que eu ando vivendo, se desse para somar todas as pessoas que existem certamente daria menos gente do que os personagens que existem num seriado. E mesmo com tão poucas pessoas que existem no mundo ainda dá para acontecer desencontros continentais potencializados pela lua cheia. No meio de tudo isso o celular comprado na China – um modelo tão antigo, mas tão antigo que já está na moda de novo, igual a disco de vinil – de repente voa da minha mão e para de funcionar, bem no dia em que ele precisava funcionar. Aí eu entro num carro com dois arquitetos, um publiciteiro com DDA grau máximo e uma estagiária e começo a contar a história esquisita de amor que aconteceu com uma amiga minha lá do outro lado do mar. Uma história que vai virar novela daqui a uns 20 anos, quando ela caducar igual caducam débitos com a prefeitura, determinadas dívidas ou promessas antigas ou mesmo pena de prisão. No meio da história, um desses arquitetos que estavam no carro – que, como todo bom roteiro de seriado, acabou de se mudar para o prédio vizinho ao meu – comenta que essa parece a história do ex namorado da atual namorada.

E como nesse mundo que eu ando vivendo não há personagens suficientes para viver duas histórias tão parecidas, concluímos que minha amiga namorou o ex namorado da atual namorada dele. Só que o pior é que essa é apenas uma das histórias estranhas de encontros, desencontros, coincidências e repetições. É como se todos os dias aparecesse uma nova, mas sempre com as mesmas pessoas se alternando nos papeis. Ah, e tudo isso com essa coisa estranha chamada facebook sempre estabelecendo novas conexões que não estavam visíveis a olho nu.

Ave, acho que já tá na hora de ir dar uma volta por aí.

Essa lua cheia

27/07/2010

Essa lua cheia deixa a noite mais linda, os ânimos mais exaltados e o ar meio estranho.

A moto amarela

21/07/2010

– Vai andar de moto agora!
– To com medo.
– Aproveita então. Daqui a pouco você perde o medo e perde a graça.

Já fazia tempos que eu a queria lá na garagem. Desde os tempos da outra vida, daquela em que tudo estava no lugar, tão no lugar que havia uma pessoa dormindo no lugar ao lado da mesma cama dizendo que eu era maluca de ter uma ideia dessas. Imagina, uma moto. Que perigo. E eu dizia que perigoso é perder a paciência porque as ruas estão engarrafadas, é viver numa cidade com tantos carros, é ficar procurando lugar para estacionar, perigoso é ter carros caros e muito dinheiro, perigoso são esses motoboys malucos que, coitados, ganham mal e por hora e aí ficam andando desse jeito. Perigoso é morrer de tédio. Perigoso é não ter medo, é se sentir presa, é não viver. Perigoso é abandonar o namorado e ir morar do outro lado do mar. Perigoso é tudo, eu dizia, meio sem paciência com aquela imobilidade toda.

Aí o tempo passou, o namorado passou, a juliana voltou – e foi e voltou e foi e voltou e se perdeu e se encontrou e se desentendeu e se reentendeu e passou a entender melhor essa fluidez toda – e a ideia de tê-la na garagem não passou.

Fiz as aulas com o instrutor bombado que me chamava de bebê e não me ensinou nada, vesti aquele capacete fedido que sempre me fazia voltar para casa correndo para tomar banho, acordei as 5h da manhã para fazer aquele circuitinho imbecil e passei na prova de primeira, sem fazer todas as aulas, sem precisar engatar segunda marcha e sem ter a menor ideia de como se pilota uma moto.

Aí um dia eu fui na loja, fiquei na dúvida entre o amarelo e o preto, decidi pelo amarelo e comprei uma daquelas motos de mulherzinha, que põe o pé na frente, não tem embreagem e pode andar de saia.

Aí de repente ela estacionou na minha garagem. Em vez de ficar feliz, fiquei petrificada de medo. No primeiro dia nem consegui ir lá embaixo olhar pra ela. Meu deus, que ideia infeliz que eu fui ter, onde estava com a cabeça, isso é muito perigoso.

No segundo dia, decidi que era perigoso demais ir até o posto em cima da moto e fui a pé comprar combustível dentro de um saco plástico pra eu ficar dando volta no quarteirão. Quando voltei com aquela sacola molenga que não dá para apoiar, percebi que não sabia abrir o tanque, que havia esquecido o farol aceso e que a bateria havia descarregado. Chamei o zelador, o porteiro, o motoboy da loja da frente, o vizinho. Todos deram seus palpites e, como sempre, ficaram felizes por desempenharem suas funções masculinas.

E saí para a primeira volta no quarteirão. Na falta de um pai, que não mora aqui, de um irmão mais velho, que não existe, ou de uma pessoa mais ajuizada, acionei a amiga C. para ficar me dando apoio moral e dando risada comigo. O porteiro ficou todo orgulhoso, parecia meu pai. Disse que com o tempo eu pego a prática – prática que ele não tem, pois nunca pilotou uma moto na vida.

Amanhã quero dar mais umas voltinhas no quarteirão. Quem sabe depois de amanhã eu já me arrisco a ir até a Vila Madalena? É, tá decidido: bem mais perigoso que ter uma moto é não se divertir.