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Reação em cadeia

26/09/2010

Juliana me lembra montanha russa.

Montanha russa me lembra roda gigante.

Roda gigante me lembra a ilha de Luanda.

Ilha de Luanda me lembra peixe.

Peixe me lembra próxima encarnação.

Próxima encarnação me lembra viajar.

Viajar me lembra viver.

Viver me lembra ação.

Ação me lembra intuição.

Intuição me lembra mudar de ideia.

Mudar de ideia me lembra adaptação.

Adaptação me lembra desadaptação.

Desadaptação me lembra viver.

Viver me lembra acelerador de emoções.

Acelerador de emoções me lembra o sol.

O sol me lembra Juliana.

Juliana me lembra Luanda.

Luanda me lembra morar.

Morar me lembra ficar.

Ficar me lembra montanha russa.

Montanha russa me lembra desadaptação.

Desadaptação me lembra impulso.

Impulso me lembra coração.

Coração me lembra amor.

Amor me lembra acreditar.

Acreditar no amor eu já não me lembro o que é.

Missão: amar

27/08/2010

O director geral, por ser director geral (ou general director), deve estar acostumado a ser bajulado. Deve estar acostumado a impor sua autoridade pelo cargo que vem após o seu nome, e não pelo que ele é. Deve estar acostumado a pensar que as damas, por não serem directoras gerais, vão querer sair com o director geral. Então, quando ele senta-se para almoçar e vê uma miúda sorridente na mesa ao lado almoçando com um kota amigo, acha-se no direito de mandar este singelo bilhete de amor.  Pura poesia.

Tudo de novo

03/04/2010

Quando me dei conta eu já estava lá, reabrindo com umas chavinhas uns compartimentos da cabeça que foram fechados em algum lugar do passado. Efeito de assistir um filme francês em uma noite de tpm-ressaca-e-bué-de-trabalho que me fez chorar do início ao fim. Era um filme bonito, sobre o recomeço, sobre o amor, sobre a dor. E de repente o filme acaba e quando aquela música francesa bem melancólica no piano ainda está tocando me pego lendo palavras que já não pertencem mais a esse tempo, escritas por homens que já estiveram, por mais ou menos tempo, no compartimento do tempo presente. Palavras doces, palavras duras, palavras de amor e desamor, palavras que eu não entendi, palavras que me enganaram, que me fizeram amar mais ou sofrer mais. Ingênuas, desencontradas, mentirosas, separadas por um oceano, por um bairro ou por uma fração de segundo. Palavras que faziam planos a dois quando outros planos a dois já haviam sido traçados. Palavras ultrapassadas. Mortas. Mas que machucam, orgulham ou aborrecem quando as caixinhas em que elas moram são reabertas. Reabrindo essas caixinhas dá vontade de dizer o que não foi dito, de fazer diferente, de repetir tudo mais uma vez. Mas, principalmente, dá vontade de recomeçar a amar tudo de novo, antes que eu me esqueça como é que se faz.

Amar

27/01/2010

Bom dia. Essa poesia do Drummond é bonita.

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita