Posts Tagged ‘amigos’

A saudade do dia

10/07/2009

kota50

Pois agora estou a escrever esse tal de livro. E aí quando eu pego umas horas para fazer isso a saudade das coisas bate bué. Hoje a saudade foi do Kota 50, um grande homem, um grande amigo.

Ela sabia que eu gostava de jinguba. Então sempre trazia um saquinho pra mim e pros outros cambas na redação. E sabia também que eu gostava de manga. Então, quando era época de mangas, muitos dias eu encontrava uma manga bem linda mesmo ao lado do meu computador. Ele comia manga com casca e tudo. Ele descobriu que eu gostava de cuidar das plantas e queria deixar aquela guest house com mais cara de casa e menos com cara de guest house. Então começou a andar na rua atento para mudas de cactos, temperos ou babosas ou outros pés de coisas que ele pudesse tirar e me presentear. Deixava sempre em cima da minha mesa, embrulhadinha, e eu levava as plantas para casa e colocava no vaso, que era um balde ou a parte de cima de um vaso sanitário abandonado, toda feliz.

Ele sabia também que eu gostava de desbundar e tinha sede de conhecer tudo o que meus olhos alcançavam ou ouviam falar ou nem sabiam que existia. E por isso foi com o Kota 50 que eu passei muitos dos momentos mais alegres da minha vida em Angola. Foi por causa dele que eu sempre tinha companhia para fazer os programas que para mim eram os mais incríveis, mas para quase toda outra gente não fazia muito sentido. Ir ao Roque, ficar 2 horas no trânsito em Viana depois de uma chuvarada, atravessar uma rua tão alagada que esconde o farol para poder chegar num alembamento, a cerimônia de pedido de casamento, ver putos a dançar kuduro, ir comer peixe ou funge na Mutamba, ver exposições de arte, fazer degustações de vinhos e ir em funeral.

O Kota foi lá no aeroporto só para me dar um último abraço de tchau. Chorei bué. Ele sempre me pergunta quando eu vou voltar. Um dia eu volto, Kota.

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No filial

26/06/2009

amizade

Nossa, Ju, mas parece que a gente já é amigo há muito tempo, me disse meu irmão Marcelo depois que deixamos a Miriam, o Iranildo e o Waldemar no hotel deles, lá na avenida Ibirapuera, com o corsinha que tem rodas tortas e chacoalha igual boxer correndo alegre na direção do dono.

Os três são angolanos, a Miriam eu conheci em Luanda, eles vieram pra São Paulo trabalhar e me ligaram pra gente tomar uns finos, comer umas comidas e dançar um bocado.

Sim, Marcelo, vc entendeu direitinho. É a ssim que geralmente a gente se sente do lado dos angolanos. Conhece uma pessoa num dia, sente que é amigo há anos, no dia seguinte vai na festa do irmão do primo do cunhado, come funge, calulu, kizaka, feijão de óleo de palma, conhece todos os kotas da família, ganha abraços, dança bué de kizomba e de semba, mesmo sem saber como é que se faz e pisa nos pés dos parceiros, dá risada, empresta o telemóvel porque o amigo está sem saldo e vai embora só de madrugada, com a promessa de voltar no dia seguinte, para a continuação da festa.

Eu to bem, e você?

17/06/2009

Eu não tenho carteira assinada, não tenho Ipod, nem tapete no chão gelado de cimento queimado, nem a mesa legal que compramos juntos. E nem outras coisas mais. E, a partir de hoje, nem som no carro, pois alguém fez o favor de entortar a porta do pobre do corsinha e levar o som, alguns cds e o controle remoto do portão. Mas tudo bem. O mecânico colocou a porta de volta igual médico coloca de volta braço de criança quebrado, assim no tranco, de uma vez.

Eu não tenho essas coisas e tenho pouco dinheiro, mas tenho uns frilas, tenho tempo livre, tenho minha casa de volta, assim meio transformada, tenho uma roomate e tenho a Olga, que dorme em cima de mim. Se bem que ultimamente ela decidiu que quer acordar às 3h da manhã e fica me chamando para acordar com a patinha toda delicada no meu ombro. Aí eu coloco ela pra fora do quarto e fecho a porta, só que às vezes o sono se perde no meio dos pensamentos que acordam. Eu também virei dona do meu tempo e posso ir ao mercado às 11h30, quando só existem velhinhas desocupadas que gastam horas na fila do açougue fazendo um monte de exigências ao pobre do açougueiro, como o tamanho dos pedaços dos cubos, o número de vezes que tem que moer a carne e o tipo de bandeja e de plástico que envolvem a carne, e ficam me dando dicas das marcas que elas gostam, das que são caras e das novidades. Eu continuo indo na terapia e tendo sonhos auto-explicativos. E agora gosto de correr, além de fazer yoga. Também posso viajar durante uma semana inteira.

E a minha amiga C. voltou da China ontem e, além dela, por aqui tem bué de amigos que me divertem sempre e me fazem ter sempre certeza de que ter amigos é umas das coisas mais legais que existem na vida. Quando eu penso isso fico com saudade de um monte de amigos de Angola.

Agora que eu to fazendo todas essas coisas normais que eu acabei de contar, voltei a ter vontade de ler e continuo com vontade de escrever. E, como tenho algum tempo livre, eu escrevo e me divirto com isso.

E agora que eu gosto de escrever e escrevo e gosto de ser dona do meu tempo e sou e gosto de Angola e fui morar lá, parece que só dá mais vontade de ficar fazendo as coisas que eu gosto mesmo, mas gosto de verdade. E as coisas que eu gosto ou foram mudando ou foram ficando mais claras nos últimos tempos. E as que eu não gosto também. Por isso está me dando uma vontade de trabalhar com outras coisas que não sejam as redações, essas que existem por aí e que tanto sugam e envelhecem e emburrecem as pessoas.

Que legal. Acho que estou feliz.

If you wanna feel

02/05/2009

No dia 22 de fevereiro, lá pelas 3 horas da manhã, umas pessoas meio bêbadas, muito felizes e com histórias, origens e pensamentos bem diferentes entre si estão reunidas numa casa que é uma república de brasileiros de uma empresa picareta e que daqui a alguns meses será uma república na frente e uma pizzaria atrás, graças à ideia genial da primeira dama do dono dessa empresa picareta.

A única regra que existe ali é que as pessoas podem fazer o que elas quiserem.

Elas podem tentar fazer uma direção de arte para ensinar o Filete a fechar o microondas de um jeito que a câmera vai fazer uma foto ótima. Elas podem cantar poesias com a voz mais linda que eu já vi enquanto uma música eletrônica toca no fundo ou então marcar o ritmo dos sintetizadores cantando de um jeito agudo, mas que combina bastante com todo o resto.

As pessoas podem ficar bem bravas porque estão bêbadas e não conseguem explicar o que elas querem dizer. Elas podem se apaixonar ou se desapaixonar quando quiserem. Elas podem chorar e não precisam ir dormir nunca porque o dia seguinte é domingo e suas famílias e pertences estão lá do outro lado do mar. Elas podem querer fazer uma festa de despedida sem chamar a namorada porque depois vai dar tempo de perceber como isso é uma estupidez.

Elas podem ir dormir a hora que quiserem. Elas podem dar um cochilo no sofá e dizer que não estão cochilando, mas ouvindo a música, ou podem também ir pensar na vida lá fora da sala e do ar condicionado, na escada que passa por cima de um monte de entulho. Elas podem filmar tudo aquilo, mesmo que não dê para ver direito, pois quem assistir aquelas coisas confusas vai entender que tem muita emoção enlatada naquela sala.

Todas elas podem dizer que o kuduro é o ritmo mais contemporâneo e completo e incrível que existe hoje no mundo porque todos os corpos de todas essas pessoas que estão nessa sala sentem e se enfeitiçam e vivem em Luanda e, mesmo que alguns corpos nunca vão conseguir se mexer naquela frequência linda e esquisita, eles não precisam dizer mais nada, só ouvir tudo aquilo tocando ao mesmo tempo. Elas podem desafinar porque as informações vêm de tantas direções que aquele caos todo se completa e tudo fica perfeitamente harmônico no conjunto.

Elas podem pensar que a sua vida do outro lado do mar ainda está como elas deixaram e que todas as pecinhas vão voltar a se encaixar quando elas voltarem para suas origens, porque elas ainda não estão no futuro e só no futuro elas vão perceber que as peças da vida se transformam toda hora e, quando se está longe e depois volta-se para perto, elas podem não se encaixar mais. A nossa vida não é como aqueles quebra-cabeças de mil ou duas mil peças que eu gostava de montar com minha mãe quando ela ainda morava na minha casa da infância que aparece nos meus sonhos. Naqueles lá, por mais que demore pra encaixar uma peça na outra, elas nunca mais saem dali. E ainda bem que nossa vida não é assim, porque se não iríamos morrer de tédio.

Pum pum tchi pum pum but i feel perhaps we’ll never now. we we we we, but i still pum pum pum pum but i’m stiiiiiiil. if you wanna feel if you wanna feel. Os sons dessa noite divertida que ficaram guardados no vídeo gravado bem amadoramente hoje ficaram me levando de volta para os lados de lá.

Agora tudo misturado

27/04/2009

macau1

BEM-VINDOS A MACAU. Na hora em que aquelas letras enormes da placa na saída do ferry boat me disseram aquilo, eu nem me dei conta elas falavam na mesma língua que eu. Foi só depois que eu comecei a ler outras placas em português explicando como as pessoas deveriam proceder na imigração que eu comecei a achar tudo aquilo engraçado. Continuei achando tudo muito engraçado quando peguei o autocarro público, desci na avenida almeida ribeiro, na frente do largo do Senado, que tem uma fonte, a santa casa de misericórdia e uma igrejinha católica, e aquele lugar era a China, e não São Luis do Maranhão, Luanda ou Cidade do Porto.

Não foi de caso pensado. Mas o último lugar que eu fui parar antes de voltar para casa dessa viagem incrível e desplanejada que começou há alguns meses foi como pegar todos os lugares em que eu pisei ultimamente e bater bem no liquidificador.

A mão é inglesa, o dinheiro é hong kong dollar, a língua oficial é o português, o cheiro é de pastel de belém, a arquitetura é a que meus olhos estão acostumados, a língua é o mandarim, e as pessoas, o ritmo, a quantidade de gente na rua, as lojas, todo o resto é é chinês. O dumplin é de bacalhau. A pastelaria vende pasteis de belém junto com um tipo de chiclete de linguiça que os chineses adoram. O seu artur tem barriga de português, jeito de português, sotaque de macau, tem olhos rasgados, morou no brasil e casou com uma filipina. As ruínas, que são de um santuário que faz homenagem aos desbravadores que colonizaram e catequizaram Macau, ficam bem ao lado de um templo budista chinês que tem sempre incensos acesos à porta muitos chineses rezando, assim como inúmeros outros que eu vi em Bangkok, Krabi, Xian ou Hanoi. A Pharmacia vende remédios do ocidente e camarões secos, poções, emplastos, folhas chás e outras coisas da medicina chinesa.

Sumol de laranja, sandes, tostas, prego no pão e outros nomes portugueses que no português do brasil soam todos estranhos para mim soaram familiares porque me levaram imediatamente para Luanda, onde íamos na pastelaria Nilo do Zé Pirão (que não é o nome de um restaurante, mas o nome de uma esquina) comer tostas de queijo ou no Amarelinho comer prego no pão. Prego no pão também me lembra o rep ráuor da redaçao do Jornal de Economia e Finanças, pois naquele dia comemos bué de prego no pão e éramos felizes e não sabíamos porque tínhamos um chefe mais ou menos normal, e não um senhor incompetente e autoritário de cabelos acajus que dá ordens burras e estúpidas a todo tempo e tem uma mania de perseguição tão ridícula que chega a ser engraçada.

A companhia, as risadas e as bochechas da C. que me acompanharam por aquele liquidificador de cidades que na verdade era uma cidade só me fizeram sentir mais uma vez como uma das coisas mais legais do mundo é estar ao lado dos amigos e como é reconfortante saber que os amigos estão por todas as partes do mundo.

Acho que não ia encontrar lugar melhor no mundo para passar o último dia antes de voltar para casa.

O ultimo capitulo

18/04/2009

Eu podia ficar horas contando sobre as coisas esquisitas das ruinhas de Hanoi, sobre as plantacoes de arroz de Sapa, sobre o trem, as pessoas incriveis que eu fui conhecendo no caminho ou sobre umas pessoas bem pequenas de etnias minoritarias das montanhas que nos levam ate suas casas e nos fazem almocar la e nos sentir super em casa. Eu podia ficar horas falando sobre muitas outras coisas que eu vi, vivi e senti aqui…

Mas eh que agora fica mais dificil porque o meu coracao ja nao ta mais por aqui. Os nossos coracoes se transportam no espaco e no tempo quando bem entendem, sem que seja necessario fazer uma maratona de voos e aeroportos. Entao o meu ja foi na frente e ja se reocupou todo de novo de pessoas, coisas e sentimentos imensos que eu deixei para tras ha seis meses e dois dias.

Hoje, no resto do sono que eu tive na cama confortavel de um hotel, depois de passar a noite chacoalhando no trem de volta para Hanoi, tive um sonho estranho que foi igual a ultimo capitulo de novela. Nao que ele teve um desfecho ou a solucao de um misterio, longe disso. Mas o meu sonho juntou, igual casamento de ultimo capitulo de novela, um monte de pessoas e lugares que sao ou foram muito importantes para mim nos ultimos tempos. Teve vovoh, amigos antigos e amigos novos, a Cacau e sua barriga de gravida, mae, pai, irmas e irmao, barcos e onibus, chuva, tia Ruth, tio Marcos, vietnamitas fantasiados de roupas angolanas, terapeuta, gente que outras gentes do sonho nao conhecem, vagoes de trem, comida boa, um enorme salao de festa.  

Agora que o coracao ja esta la, so falta o corpo chegar de volta.

26 horas

26/03/2009

O trem tinha caminha, edredon, travesseiro, vendedores de frutas e de noodles, vendedores de brinquedos eletrônicos made in china e de jornais e revista em chinês. Mas depois de 26 horas não há diversão que faça um ser humano dentro daquele trem pinga pinga que cortou mais de 2 mil quilômetros de China não ficar entendiado.

Ainda mais depois que os nosso amigos foram embora. Na nossa celinha tinha um triliche: C. e eu em cima, dois quarentões barrigudos e simpáticos no meio e um casal de velhinhos que vistam pantufa a noite embaixo. Ficamos super amigos, apesar de eles só saberem falar rm inglês what’s your name, sit down, how old are you e eu só aquelas cinco palavras em chinês (a C. sabe umas 10). Conversamos longamente, cada um no seu idioma. Tiramos fotos, fizemos escambo de alimentos, descobrimos a cidade em que cada um morava e demos muitas risadas desses diáologos malucos, sem pé nem cabeça. Descobri que um dos barrigudos vendia e comprava ouro de Gana e descobri também que ele queria fazer abdominal à noite quando meu estrado começou a dar uns pulos.

Do lado de fora vi muitas plantações de cebolinhas ou chás e muitas árvores sem folhas mostravam que essas terras do norte são frias. Vi umas montahnas bonitas, umas casas de camponeses e vez ou outra cruzávamos uma cidadezinha chinesa, que aqui tem 2 ou 3 miulhões de habitantes. Também vi umas cavernas cavadas para dentro dessas montanhas arenosas e fiquei pensando que deve haver gente que mora aí dentro.

Quando saí do trem vi que aqui faz mesmo frio. Garoa, ventinho, tipo SP no inverno. Estou com roupas de frio emprestadas, eu allstar oliginal de 7 dólares e 2 calças jeans, uma doada e outra comprada por 5 dólares. Os vestidos e sandálias e fatos de banho e sainhas que eu usava em Luanda ficaram lá guardados em Shenzhen.

Amanhã vou fazer passeio de turista e visitar o exército de terracotas. A cidade parece lindíssima. Mas o frio e a chuvinha não nos deu coragem de botar o nariz pra fora.

Free internet, vou postar umas fotos engraçadas depois pra vcs sentirem o clima do trem. Ah, o albergue custa 4 dólares. Recém-saída de Luanda, onde 5 bananas custavam 4 dólares, ainda fico meio boba com o preço das coisas. E, por falar em Luanda e também por falar em São Paulo, tenho que dizer que a saudade anda rondando.

Os amigos

29/01/2009

amigos1

Essa coisa de rechegar em Luanda, de sentir novamente todas as angústias de ter de interromper coisas muitíssimo importantes no Brasil, ter de se readaptar aos horários, ao sentimento de saudade, aos barulhos, às ruas e calçadas sempre tão cheias de movimentos e cheiros e a todas as outras coisas que uma mudança tão brusca te obrigam a se readaptar não é muito fácil. Os primeios dias são meio atordoantes para mim. Da outra vez foi assim e dessa está sendo também. Fico nervosa, sem apetite, como mal, minha cabeça dói, fico agitada, triste, sofrendo, querendo parar com essa história de ficar na África e pensando em qual é a melhor maneira de conseguir embarcar no primeiro voo pro Brasil. Depois de uns dias isso passa e eu volto a ser a Juliana de sempre (que não é assim tãaao calma nem tão serena nem tão orientada nem tão centrada, como vcs bem sabem).

Só que dessa vez está sendo um pouco mais fácil lidar com isso por causa dos amigos daqui. O Kota 50 me liga umas oito vezes por dia pra saber onde estou, se estou bem, se quero almoçar com ele, se quero companhia. Ele me paga cafés e tostas e traz  jinguba da rua. O chefe peixe ficou meio assustado porque eu tava a chorar no almoço e fica a me dizer coisas doces e alegres a todo o tempo. Ele e a Graciete vão me levar para uma festa de família no sábado à tarde pra eu não ficar sozinha nessa casa enorme. A Fina fala pra eu dormir esses dias na casa dela. Eu passo lá depois do trabalho e fico horas falando besteira com ela, o namorado e a prima, que é a mais noveleira que eu já vi. P. já esta combinando o que faremos na sexta-feira. V., meu vizinho de baixo, trouxe um vinho e presunto cru outro dia pra gente comer com minha macarronada. Na redação eles me fazem rir o dia inteiro. J. e eu vamos tomar nosso sagrado café na pastelaria Nilo e é sempre muito divertido. Nossa, isso ajuda demais.