Posts Tagged ‘amor’

Reação em cadeia

26/09/2010

Juliana me lembra montanha russa.

Montanha russa me lembra roda gigante.

Roda gigante me lembra a ilha de Luanda.

Ilha de Luanda me lembra peixe.

Peixe me lembra próxima encarnação.

Próxima encarnação me lembra viajar.

Viajar me lembra viver.

Viver me lembra ação.

Ação me lembra intuição.

Intuição me lembra mudar de ideia.

Mudar de ideia me lembra adaptação.

Adaptação me lembra desadaptação.

Desadaptação me lembra viver.

Viver me lembra acelerador de emoções.

Acelerador de emoções me lembra o sol.

O sol me lembra Juliana.

Juliana me lembra Luanda.

Luanda me lembra morar.

Morar me lembra ficar.

Ficar me lembra montanha russa.

Montanha russa me lembra desadaptação.

Desadaptação me lembra impulso.

Impulso me lembra coração.

Coração me lembra amor.

Amor me lembra acreditar.

Acreditar no amor eu já não me lembro o que é.

Amar

27/01/2010

Bom dia. Essa poesia do Drummond é bonita.

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita

Como morre um amor

26/08/2009

o fim

No dia anterior, ela podia ter escolhido qualquer bar, desses tantos que existem espalhados pelas esquinas. E ele também. Ela podia escolher qualquer dia para ir até qualquer bar, assim como ele. Só que ela e ele escolheram aquele mesmo bar apertado e aquele dia de chuva fina e frio. Ela não sabia da escolha dele e nem ele da dela. Claro que não. Os tempos em que eles compartilhavam coisas morreu sufocado algum tempo atrás.

Ela e ele teriam chegado no mesmo horário, se não fosse o interesse sem fim dela por aquele que tomou mais tempo do que devia e ela se atrasou. E aí, como ela se atrasou, ainda deu tempo de um telefone sair correndo do bar até a casa dela e avisá-la para nem aparecer. Por isso, ainda deu tempo de desfazer a brincadeira que o destino ou deus ou os astros ou alguma dessas entidades superiores que regem as vidas das pessoas nesses momentos imprevisíveis tinha aprontado.

Mas quando essas brincadeiras já foram planejadas, parece que não dá para desfazer. Ou dá? Ela não conseguiu, pelo menos. Nem ele.

No dia seguinte, ela podia escolher qualquer horário para ter andado por aquelas ruas tão familiares para ela e para ele até chegar àquele prédio que ela tanto já chegou, mas que agora ela evita ir. Não por causa ele (talvez também), mas por todas as outras 5 mil pessoas que deixam aquilo com cara de formigueiro. Bastava entregar um envelope. Não era preciso nem sorrir para agradar, nem tomar aquele café amargo que ela detestava, nem pegar crachá. Não precisava nem passar do saguão, era coisa para um minuto, ou dois, no máximo. Ela escolheu um horário qualquer e foi. Passou pelo centro cultural bonito, pela floricultura decadente, admirou o lusco-fusco e gostou de ter escolhido passar por ali na hora em que as pessoas saem do trabalho e a rua tem aquele burburinho gostoso.

Ele podia escolher qualquer horário para descer aquelas escadas bem sinalizadas, passar pela catraca, depois pela outra e ir tomar um chá. Há quase quatro anos, ele faz isso todos os dias. Sempre igual. Ele escolheu um horário qualquer e foi.

Durante o minuto que ela esteve dentro daquele saguão, ele passou pela frente dela.

E o coração dela não bateu. Ou melhor, continuou a bater, sem se desritmar ou querer saltar pra fora. Tum. Tum. Tum. O dele bateu bem, ela sabe. Dava para ver naqueles olhos verdes. Mas não era mais de amor, pois ele já não bate de amor há muito tempo. Bateu porque se assustou com aquela presença que hoje é tão fora do contexto. De tão sem graça que o coração dele ficou, ele nem conseguiu dizer nada, só oi e eu tenho que subir. E subiu.

O coração dela continuou nesse ritmo de sempre. Continuou um pouco ferido ainda, isso demora. Continuou sentindo saudade de quando o coração dele estava sempre por perto, saudade de um tempo bonito que já não existe mais. Ela sentiu saudade de um tempo que ela não quer mais resgatar, nem se pudesse.

Separação

02/08/2009

separação

Era no meio da noite e a menina não entendeu nada quando aquele som de rádio dessintonizado invadiu o quarto com volume máximo e atordoou os seus sentidos. Não, infelizmente, aquilo não era um sonho. Ela ainda era uma criança e dormia na casa da sua infância junto com uma das irmãs naquele quarto do qual ela ainda hoje se lembra de cada detalhe: o barulho da gaveta dos armários abrindo, o cheiro da janela, a cor do preto da escrivaninha, os lugares em que os pés passavam demais e gastavam o tapete, a estampa do edredon, o barulho dos latidos e dos grilos e dos sapos.

O som de rádio dessintonizado vinha do quarto ao lado. As duas vozes que um dia já foram um casal se desentenderam e uma das vozes, a mais esquentadinha, ligou aquele som todo para chamar atenção, sem se importar que quatro crianças eram apenas crianças e não precisavam entender e nem se envolver em problemas de adultos. Os dois adultos das vozes do quarto ao lado, assim como eles iriam fazer tantas vezes daqui para diante, mesmo sem a menina saber disso naquela época ou entender o que isso significava, não se portaram como adultos e não se importaram com aquele volume todo.

O som só parou quando a menina se levantou sem se questionar muito se essa era a coisa correta a se fazer – ela só sabia que aquele som que doía os tímpanos precisava silenciar –, andou pelas partes gastas do tapete, abriu a porta do quarto, foi até o quarto ao lado, abriu a porta sem bater, caminhou até a escrivaninha e desligou aquele barulho. Não falou com ninguém, não perguntou nada, apenas saiu através do silêncio, como se fosse um fantasma, como se nunca estivesse estado ali. Nessa noite a menina tentou dormir e não conseguiu.

Era uma terça-feira de carnaval e a mulher que achou difícil virar adulta não entendeu nada quando quando uma voz irritantemente calma percorreu milhares de quilômetros de cabos subterrâneos e enterrou, numa conversa telefônica semi-telegráfica, muitos planos e um futuro. Naquele momento, ela teve saudade de quando era uma menina e ainda não entendia quanta dor, solidão e sofrimento podia causar uma separação, mesmo se ela já está anunciada ou se é a melhor coisa a se fazer, mesmo se já não há mais amor, ou se ainda há, mesmo quando uma das pessoas nunca quer falar a respeito e, em vez de fazer isso, fica repetindo mecanicamente que ela está ótima e que deseja tudo de bom para a outra. Naquele momento ela pensou também que, a despeito de tudo, ela quer continuar se envolvendo em historias de amor até o fim dos seus dias. Porque sempre vale a pena. No momento seguinte ela não pensou mais nisso, pois foi rebocada para ir dançar, filmar e se impressionar com o carnaval na marginal.

Família globalizada

22/07/2009

familia2

Meu irmão vai morar fora do brasil amanhã. Vai encontrar uma irmã que já mora lá. O apelido dele é Cuzão e todo mundo na família ocasionalmente chama ele assim. Mas hoje em dia ele cresceu e nem é mais cuzão. Minha mãe não mora em São Paulo e se hospeda na casa do meu pai, que é casado com a madrasta. Eles namoraram uns dez anos e casaram de papel passado há dois. Mas meu pai mora na casa dele e a madrasta na dela e eles durante a semana ficam nas suas respectivas casas e no fim de semana reunem as escovas de dentes. Meu pai também tem uma casa na Ilhabela, que é onde minha mãe mora junto com outra irmã. Mas quando meu pai e a madrasta vão para lá, preferem ficar na casa da minha mãe, que é confortável, silenciosa, tem cachoeira, tucanos, abacates, tem boa comida e todo mundo se dá bem. Quando meu pai ficou muito doente e teve que ficar 2 meses no hospital entre a vida e a morte, minha mãe veio morar na casa do meu pai para cuidar dos filhos e do meu pai. Mas a madrasta, que na época ainda não era madrasta de papel passado, também cuidava dele e meu pai era conhecido no hospital como o homem das duas esposas.

A filha da madrasta mora da europa há muitos anos. Ela veio para o Brasil no ano passado e também ficou na casa da minha mãe na Ilhabela junto com a sua esposa. As três ficaram muito amigas porque trabalham com coisas parecidas — minha mãe restaura moveis e a esposa da filha da minha madrasta é marcineira.

No Natal, quando os filhos moravam todos no mesmo país, a gente reunia a família do meu pai com a da minha mãe e todos passavam o natal juntos. Durante dois natais, além das duas famílias, havia também uns dez filhotes de boxer espalhados pelo jardim, porque a Maia sempre pulava a cerca e cruzava com o Pancho.

Hoje somos todos amigos, as duas famílias são uma só. Quer dizer, as três: a do meu pai, a da minha mãe e a da minha madrasta. Mas nem sempre foi assim. Houve brigas, confusões, desentendimentos, rompimentos, rancores. Mas isso foi sendo resolvido aos poucos, os filhos foram crescendo, as pessoas foram se adaptando e adaptando as suas expectativas e hoje todos convivem mais ou menos harmonicamente.

É claro que a historia não é só bonitinha assim. Família dá trabalho, dá dor de cabeça, tem um monte de gente maluca, faz a gente herdar coisas que não gostaria e parar na terapia. Mas, de uma maneira geral, acho que a nossa família é legal. E o que eu acho mais legal é que ela não veio pronta. Foi sendo construída, desconstruída, foi se moldando de acordo com o tempo e com as demandas de cada um, até ganhar essa cara que ela tem hoje.

Eu tenho orgulho da minha família e morro de saudade dos que moram longe, seja nesse país ou em outro. Mas também acho que a gente se dá bem melhor com a família quando cada um busca seu caminho e quebra esses laços de ter que obrigatoriamente ficar perto e falar todos os dias e saber de tudo da vida dos outros.

Cuzão, boa viagem! Abraça bastante a Marina!