Posts Tagged ‘Brás’

Eu e meus botões

05/09/2009

botões

Lá nesses outros países que eu visito ou moro às vezes, eu me enfio nos buracos, ando a pé quilômetros pelas cidades e bairros, quero sentir os cheiros e experimentar as gororobas, eu tomo banho de mar à noite, quero ficar amiga das pessoas, fotografo tudo.

Aqui na minha cidade, que parece um emaranhado de vários países misturados, eu não faço nada disso. Vou nos mesmos bares, falo com as pessoas iguais que fazem coisas iguais, bebo cerveja cara, como comidas parecidas, vejo coisas iguais, falo coisas iguais, tudo é essa mesmície.

Aí hoje o Filete e eu, depois de vermos aquelas pinturas e desenhos lindos do Matisse na Pinacoteca, pegamos o trem da CPTM, descemos no Brás, andamos sem muitos planos, tomamos cerveja no boteco mangolê, ficamos de papo com um vendedor ambulante de água, ganhamos dez centavos emprestado de um outro vendedor pra inteirar a passagem do trem, compramos jabuticaba no largo da concórdia, ficamos com vontade de descer em todas essas estações de trem que nossa vida média de paulistano nem faz ideia de que existe só para conhecer os lugares e conversar com as pessoas, tiramos fotos de vitrines de lojas fechadas só porque achamos os nomes dos lugares interessantes, comemos comida árabe num restaurante no Pari que chegamos caminhando por ruas vazias de lojas fechadas e ainda marcamos com uns semi-kambas de ir numa balada que toca kuduro na Bela Vista.

Eu voltei para casa feliz da vida, cheia de jabuticabas e com a certeza de que eu não conheço nem 5% do que é a minha cidade.

Anúncios

Lá no Brás

03/06/2009

bras

O Novo Jornal

29/05/2009

Eu já contei aqui que dia desses um amigo angolano veio pra SP e fomos lá passear no Brás, onde centenas de angolanas que atravessam o Atlântico vão comprar roupas para vender lá n’Angola, sobretudo no Roque.

Aí esse amigo trabalha no Novo Jornal, que é meu preferido lá de Angola. Assim como todos os outros  jornais privados, ele é semanal e sai às sextas-feiras (os dois únicos jornais diários são o Jornal de Angola e o Jornal de Desportos, ambos do governo).

Esse meu amigo fez uma matéria muito bacana e divertida sobre esse comércio Brás – Luanda. As fotos são minhas. Teve até chamada de capa. Agora a ideia é que periodicamente eu colabore com eles. Quem se interessar em ler, aí está a matéria.

A Taag e o Brás

16/05/2009

A Taag, a empresa aérea falida do governo angolano que perdeu minha mala e depois reencontrou e que perde a mala de um monte de gente todos os dias, agora vai voar três vezes por semana para São Paulo. Antes ela só voava para o Rio, o que não estava fazendo sentido, pois é para cá que as pessoas de lá costumam vir e é daqui que as pessoas daqui costumam sair.

Aí como a Taag inaugurou esse vôo e o dinheiro dela sai da torneira feito água, ela resolveu chamar um monte de jornalistas e pessoas oficiais para fazer esse primeiro vôo. Foi assim que meu amigo Tugolano veio parar aqui por uns dias. Ele é da turma dos jornalistas, não das pessoas oficiais.

E aí eu disse para ele que ele tinha que ir fazer uma matéria no Brás, que é um grande pólo de roupas e calçados, e ele topou. No Brás está cheio de sacoleiras angolanas que atravessam o Atlântico para comprar havaianas, sapatos, calcinhas, cuecas, jeans, blusas, cabelo brasileiro, meias e outras coisas para revender lá em Angola, que ainda não teve tempo de desenvolver uma indústria consistente e tem que importar quase tudo.

Eu mesma já tinha feito essa matéria antes e então já soube indicar certinho os hoteis, as transportadoras, os restaurantes e as ruas para encontrar as pessoas e as informações. Fomos na transportadora palancas, no hotel que serve calulu, funge e muamba de galinha, ficamos sabendo da discoteca que toca kizomba e ficamos a ouvir bué de histórias engraçadas. Ah, também tinha um hotel com aqueles relógios que mostram os horários em várias cidades do mundo e as cidades eram São Paulo, Luanda, Johanesburgo e Lisboa.

Conhecemos um casal de coreanos que vende 90% da sua produção para angolanas. E clientela é tão fiel e a dona encontrou um nicho tão bom que ela mesma foi lá em angola em 2004 para visitar pessoalmente a terra e os hábitos dos seus parceiros comerciais. No balcão da loja tem uma foto dela no aeroporto 4 de fevereiro, um bolo com a bandeira de angola, bué de pessoas a dançar kizomba e uns comércios lá no Roque Santeiro. A dona está tendo tanto sucesso nos seus negócios que seu sotaque um pouco puxado para o coreano chama todo mundo de amigo ou amiga, como se faz lá do outro lado.

O que eu mais gosto desse comércio das sacoleiras é que praticamente um país inteiro se veste graças às viagens dessas moças. O mais natural para a nossa lógica seria que um ou alguns empresários montassem um negócio gigante que levasse contêineres e mais contêineres de roupas do Brás para Luanda. Seria mais simples, mais barato, mais direto, mais econômico. Mas o mais lógico nem sempre é mais lógico para todo mundo ou nem sempre as coisas funcionam da forma mais lógica. Então as mulheres pagam suas passagens, trazem seu kumbu em espécie, vão nas lojas que suas amigas indicaram ou que elas já conhecem, compram as quantidades e as qualidades que elas gostam, pagam a vista, carregam suas malas com o peso máximo permitido, pagam todo o excesso de bagagem permitido, levam suas mercadorias de volta e revendem no Roque, nas ruas, nas pequenas lojas ou na sua casa, tudo bem informalmente. Como é tudo bem caro por lá, essa empreitada compensa.