Posts Tagged ‘Brasil’

tás a ver?

19/07/2010

Apresento o resultado de muito tempo de trabalho, de reflexão, de discussão, de paixão e de vontade de fazer algo mais interessante, visceral e divertido do que antes. tás a ver?

Visite, frequente, comente, participe. Eu provavelmente estarei muito mais lá do que aqui agora.

Reunião de trabalho

17/03/2010

porque eu acredito que o trabalho pode ser interesante

porque eu acredito que trabalhar tem a ver com se divertir

porque eu acredito que só podemos fazer o que gostamos, mesmo que isso não seja prazeroso em tempo integral

porque eu acredito que a liberdade de ir e vir na hora que eu quero é uma das premissas de um trabalho prazeroso

porque eu acredito que temos que adorar fazer a coisa que passamos a maior parte do nosso tempo fazendo

porque eu acredito que estarmos com quem gostamos é essencial ao trabalho e que se desentender é normal

porque eu aprendi a conviver com a ideia de que segurança é algo totalmente ilusório

porque eu adoro trabalhar

é assim que eu venho trabalhando

tás a ver?

Raul

24/02/2010

O Raul ainda não sabe andar, tem só quatro dentes e parece gente grande viajando de barco no calor derretente do Paraná do carnaval. Quase não chorou, passou calor, passou de colo em colo, sorriu, dormiu, acordou, brincou e foi o centro das atenções com esse exagero de olhos azuis.

Escritura de compromisso de manutenção e circunstância

14/12/2009

SAIBAM quantos esta pública  escritura virem que aos cinco dias do mês de novembro do ano de mil novecentos e oitenta e cinco (1985), nesta cidade e Capital do Estado de São Paulo, em cartório, compareceu como outorgante ……………. brasileiro, solteiro, maior, bancário (…). E, pelo outorgante, me foi dito que é boa a sua situação financeira no Brasil e desejando a permanência por mais 02 (dois) anos, neste País de sua amiga, ………….. boliviana, solteira, maior, nascida aos …… em La Paz-Bolívia (…). QUe pela presente escritura e nos melhores termos de direito, ele outorgante declara que se responsabiliza pelo provimento da manutenção e subsistência de sua amiga (…)

Declara ainda o outorgante que sua amiga não professa ideologias contrárias às instituições vigentes neste País e se obriga a satisfazer todas e quaisquer exigências do Ministério das Relações Exteriores (…)

O outorgante sou eu. E dizem que minha situação financeira é boa.

A boliviana é um italiano.

Eu não vou casar com um italiano. Nem tampouco sustentá-lo.

Esse formulário-padrão do ano de 1985 e usado até o corrente ano é incrível.

As leis não fazem sentido.

Super Vila Madalena

15/09/2009

O Xuxis morava comigo n’Angola e vivia sempre a usar o o adjetivo “super vila madalena”  para se referir a pessoas ou atitudes meio hippies, meio descoladas, gente que gosta de fazer yoga, comer folhas, ouvir batuques e usar colares longos de sementes.

Ele usava de maneira sistemática esse adjetivo para falar de mim, principalmente quando entrava no meu quarto e via aquele monte colar pendurado num fio improvisado que eu peguei da obra do andar debaixo. A essa altura a casa da Maianga deve ser uma guest house em cima e uma pizzaria da primeira dama embaixo e eu fico aliviada de não estar lá naquela confusão da casa, apesar de ter saudade daquela confusão de cidade.

Pois hoje eu fui fazer um programa super vila madalena na vila madalena. Dança africana. Batuques, mocinhas brancas com trancinhas nos cabelos e saias de chitas nos quadris e rebolando, negonas lindas, altas e com cabelos black power, um japonês com roupa de pijama divertido, umas senhoras mas velhas desocupadas que querem sentir a vibração das danças africanas e coreografias sobre a caça, o semear das árvores, o arco e a flecha.  Isso sim é a coisa mais vila madalena que eu fiz nos últimos tempos. Foi super divertido, eu adorei!!!!

O patinho feio

11/09/2009

O cerrado é o primo feio e a Amazônia é a prima bonita. Então todo mundo só fala da Amazônia e esquecem do pobre do cerrado, só porque lá tem árvores retorcidas, campos nem sempre tão verdinhos e os gringos não querem visitar.  Aí o que acontece é que o patinho feio está sendo depenado e morto e só falam da prima bonita. Maior injustiça.

Ritmo de desmate do cerrado é maior que o da Amazônia

Medido em emissões de CO2, o impacto da destruição do bioma supera o da indústria brasileira e o do setor de transportes juntos
Estudo do Meio Ambiente mostra que o cerrado perdeu 48,2% de sua vegetação; pasta diz que vai monitorar desmate como na Amazônia

Enquanto as atenções do governo estavam voltadas a combater o desmatamento na Amazônia, o cerrado perdeu nos últimos anos uma área de vegetação nativa ainda maior: a diferença registrada pelos satélites entre 2002 e 2008 é proporcional a 12 vezes a cidade de São Paulo, mostra levantamento divulgado ontem pelo Ministério do Meio Ambiente.
Por ano, o cerrado perdeu, em média, 21.260 quilômetros quadrados de vegetação original, abrindo mais espaço para a plantação de grãos ou servindo à produção de carvão. O ritmo do desmatamento equivale a mais que o dobro da previsão de abate de árvores na Amazônia em 2009.
Medido em emissões de gás carbônico -o vilão do aquecimento global-, o impacto do desmatamento do cerrado é equivalente ao da devastação na floresta e supera as emissões da indústria brasileira e de todo o setor de transportes juntos: 350 milhões de toneladas de carbono por ano, em média, segundo o ministério.
“Nós não estamos preocupados só com os bichinhos”, disse o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente). “Se as bacias continuarem sendo desmatadas nesse ritmo, vai faltar água para a agricultura e a produção de energia”, completou. O cerrado abriga metade do potencial hidrelétrico do país.
Minc anunciou que o desmatamento no cerrado será monitorado como na Amazônia. Ontem, o ministério lançou à consulta pública proposta de plano de prevenção e controle do desmatamento no bioma, que tem cerca de metade da extensão do bioma amazônico.
De acordo com o levantamento, o cerrado já perdeu quase metade (48,2%) da sua vegetação original. A maior parte da devastação ocorreu entre as décadas de 70 e 90, quando o bioma era visto como principal fronteira agrícola do país, e sua ocupação foi estimulada pelo governo.
Mas o ritmo continua acelerado e, em apenas seis anos, o cerrado perdeu o equivalente a metade do Estado de São Paulo de sua vegetação nativa.
O Maranhão liderou o ranking dos Estados que mais desmataram entre 2002 e 2008. Foi seguido por Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e Bahia.
Segundo Minc, o combate ao desmatamento no bioma enfrentará uma dificuldade extra. A legislação só exige dos proprietários de terras do bioma a preservação de 20% da vegetação nativa. A área de cerrado localizada nos limites da Amazônia Legal tem um percentual de preservação maior exigido em lei, de 35%.
Ou seja, a maior parte do desmatamento observou os limites da lei e não poderá ser punido. A solução proposta pelo Ministério do Meio Ambiente é aumentar as áreas de proteção integral ou de uso sustentável, nas quais o desmatamento é proibido, dos atuais 7,5% para 10% do bioma.

Folha de São Paulo, 11/9/09

Tás a ver?

02/09/2009

Existe um projecto. E este projecto é legal porque o tema é legal e as pessoas envolvidas nele são legais e o formato é legal. Trabalhamos bué esses últimos dias para que ele deixe de existir só nas nossas cabeças e sonhos e comece a existir de verdade. Essas aí são algumas imagens da nossa produção.

projeto1

projeto2

projeto3

projeto4

brainstorm.doc

24/08/2009

Akatu, confirmar os dados, pautar infografistas, revisar as ilustras, reencontrar o rafi, cumprir o cronograma. Fazer um cronograma. Ônibus lotado até o centro. Soso galeria de arte contemporânea africana. Chuva, claro. Pra divertir. Ou molhar. Ou nenhum dois dois, talvez para demorar.

Amigos, jantares, jantar, eu escolho o restaurante, os vinhos, faço pose de gente chique que entende de vinho, dou sete voltas na taça para liberar o aroma e todos dão risada. Risoto. Na chuva até tarde.

A maka do carro. Chaparia ta bala, mas motor tá a babar óleo. Kuduro é o futuro.

Proposta de trabalho, proposta de destrabalho, arrumar roomate, falar italiano, desalugar a garagem, esvaziar a cômoda, fazer faxina. Preguiça.

Semana mangolê, Jean Rouch, projetos megalomaníacos, projetos dos sonhos, projeto de vida, saudade. Vontade. Muita vontade. Ainda bem, pois é normal ter vontade, ainda mais agora, nessa etapa da vida, em que as opções que existem não nos servem mais. Mas tem gente que não tem vontade e fica sentado numa cadeira na frente do computador fazendo as mesmas coisas idiotas até todos os cabelos ficarem brancos ou o cérebro atrofiar de vez. Aí tudo o que resta é realizar o sonho da casa própria e esperar os dias passarem.

Brasil – Angola, tás a ver? Ou não tás a ver? Eu to a ver. E dá jogo. Jogo de futebol? Jogo de interesses? Dá jogo, simplesmente. Tenho certeza.

Documentários, novas mídias, velhas mídias, velhas pessoas a falar coisas novas, novas pessoas a falar coisas velhas. Jacaré iemanjá. Três pontes. Três documentários. Quantas pontes? Dois caminhos que atravessam um oceano, um num caminho curvilíneo e lento, que nem o movimento dos navios. Outros muito rápido e em linha reta, que é o tempo do agora, do ontem, do amanhã. Mas e a terceira ponte? Essa ficou perdida em algum lugar. Talvez tenha sido levada pela enchente do rio, pois esse fim de semana choveu bué.

De roupa nova e linda!

13/08/2009

Ei, gente! Não ficou o máximo o novo leiáute do meu blog?

E esse texto aí debaixo, da Marina Silva, nossa futura presidenta? Não é demais?

Um avião quase parado no céu

Marina Silva (publicado na revista S/N)

Quando penso em velocidade, e acho que com a maioria das pessoas é assim, tenho a idéia de algo acontecendo muito rapidamente, de um tempo e um espaço a serem vencidos. Embora velocidade também tenha a ver com lentidão, raramente pensamos nela com esse sentido.

Para mim, ela só é perceptível numa relação comparativa. Minha primeira percepção a esse respeito foi por volta dos seis anos, quando vi os primeiros tratores e caminhões na BR-364, então recém aberta, que passava perto da colocação Breu Velho do seringal Bagaço, no Acre, onde nasci.

Colocação é o espaço de vida e trabalho de cada família seringueira. Um seringal se compõe de várias colocações. Numa parte da colocação fica a clareira com a casa, a pequena roça de subsistência, árvores frutíferas, local para a criação de alguns animais e um terreiro. Em torno, numa certa faixa da floresta, identificam-se as árvores para o corte e retirada do latex que vai virar borracha. Anda-se diariamente cerca de 14 quilômetros, o que corresponde a fazer duas vezes o percurso que sai da casa e vai serpenteando por todas as árvores selecionadas, retornando ao ponto inicial. Na primeira passada faz-se o corte, na segunda a coleta. É o que se chama estrada de seringa.

Esse era o nosso universo espacial e temporal. De certa forma ele se transferia para dentro de nós e estabelecia formas de conhecimento do mundo.

A existência de carros rápidos, de que meu pai falava, só ficou palpável com a BR 364. Primeiro, meu pai abriu um caminho até a estrada. Depois mudou a casa para perto dela, num lugar ao qual demos o nome de Breu Novo.

Aí comecei a prestar atenção também nos aviões que passavam de vez em quando. Olhava para o céu e parecia que eles iam tão devagarzinho, de uma maneira tão suave, chegava a imaginá-los quase parados. O avião, o trator, os caminhões passaram a ser referências novas, diferentes do cavalo, da bicicleta. O caminhão, para mim, era de longe o mais rápido.

Passei também a associar velocidade a perigo. Minha mãe e minha avó diziam o tempo todo que era preciso ter muito cuidado. Aparecia um caminhão hoje, outro lá pela semana seguinte ou até mais, mas a criançada tinha que estar sempre atenta “pra atravessar a BR”. Mesmo naquele ermo, tinha-se que olhar para um lado, depois para o outro e só depois atravessar. E, ainda assim, com certo medo.

Mas o impacto maior de conhecer experiências e coisas diferentes de nossas práticas cotidianas, aconteceu quando vi pela primeira vez um fogão.

Desde uns dez anos de idade, eu acordava todo dia por volta de quatro da manhã para preparar a comida que meu pai levava para a estrada de seringa. A rotina era imutável e demorada: levantar, pegar gravetos no monte de lenha, colocar sernambi – pedacinhos de latex coalhado – para queimar no fogão de lenha, jogar nos gravetos por cima. Com lenha molhada, então, fazer o fogo era uma verdadeira batalha.

Todo dia preparava farofa. Às vezes com carne, mas quase sempre com ovo e um pouquinho de cebola de palha, acompanhada de macaxeira frita. Aí botava dentro de uma lata vazia de manteiga, com tampa.

Manteiga era comprada só quando minha mãe ganhava bebê. Meu pai encomendava no barracão – o entreposto de mercadorias mantido pelo dono do seringal – uma lata, pra fazer caldo d’água durante o período de resguardo. Por incrível que pareça, a manteiga vinha da Europa para as casas aviadoras de Manaus e Belém e dali chegava aos seringais do Acre. A lata era uma coisa preciosa. De bom tamanho, muito útil, tinha tampa e desenhos lindos e elegantes.

O ritual de fazer fogo, preparar o café e a farofa e entregar a lata a meu pai levava uns 45 minutos. O que eu sabia de cozinhar se resumia àquilo. Até que vi pela primeira vez um fogão a gás, em Rio Branco, quando tinha uns doze anos. Estava muito doente e fui com minha mãe. Ficamos na casa do meu tio, na periferia da cidade. Fiquei encantada com o fogão. Como era rápido! Subia de repente um fogo azul e era só botar a panela em cima!

Muito mais tarde, morando já em Brasília, estava atrasadíssima para uma votação no Senado e precisava comer alguma coisa antes de sair de casa. Programei o microondas para 45 segundos e fiquei na frente, estalando os dedos, agoniada, como se pudesse apressar ainda mais a máquina: vamos, vamos, vamos! E enquanto estava ali, nessa coisa meio maluca e ridícula, me veio de uma vez à mente a rotina do seringal. Me vi queimando o sernambi, a lenha, fazendo a farofa, preparando a lata de manteiga. O fogo vermelho e barulhento dos gravetos, a descoberta da chama azul do gás.

Acho que a vida toda fui manejando as coisas do tempo e da velocidade, sem perder o meu tempo e a minha velocidade internos. No meu aprendizado de vida, as coisas velozes sempre se associavam à cidade, e as mais vagarosas à floresta. De nossa colocação até o Piratinim, um dos barracões do Bagaço, eram onze horas de caminhada. Dali até a margem do rio, era mais uma hora. E da margem do rio para Rio Branco, em torno de dois dias e meio. Hoje se leva menos de uma hora, por asfalto, para vencer os 75 quilômetros daquele ponto até Rio Branco.

Em geral as pessoas me acham muito calma. Talvez isso tenha a ver com a minha conformação emocional, mas é também um jeito de me relacionar com as dimensões do cosmos, de tal modo que vou internalizando e conciliando a frequência tecnológica e o ritmo frenético da vida urbana e da política com a potência do rudimentar que faz parte de mim e sempre fará.

Na floresta, onde todo deslocamento demandava muito tempo, paradoxalmente recorríamos à velocidade do som para nossas necessidades de comunicação mais urgentes. Quando se queria avisar do nascimento de uma criança, sem ter que andar horas ou até dias pela mata, usava-se um código: dois tiros de espingarda significavam que nascera uma menina; três tiros, um menino. Se alguém morresse, eram sete tiros. E no último dia do ano, doze tiros para compartilhar a comemoração do ano novo.

Nosso totem tecnológico era o rádio a pilhas, um bem quase mitificado. Podia faltar tudo, menos pilha para o rádio. O nosso era da marca Canadian. Meu pai, minha mãe e minha irmã mais velha eram os que sabiam manejá-lo. Ficava bem alto, numa pequena plataforma na parede. Minha irmã tinha que subir no banco para alcançar e meu pai e minha mãe ficavam na ponta dos pés.

E ninguém mais podia mexer, para não prejudicar o ajuste e não dar chiado. Para meu pai, era sagrado ouvir a Voz do Brasil e os noticiários em português da BBC de Londres e da Voz da América. Minha mãe e minha irmã mais velha gostavam das novelas.

O rádio em si atraía muito minha curiosidade e mesmo com todas as advertências, algumas vezes não resisti e mexi. Levava cada carão, pois, é claro, desajustava as faixas e lá vinha o odiado chiado. Uma vez consegui desparafusar a tampa traseira para ver se havia gente dentro da caixa.

Meu pai gostava muito de informação. Minha mãe sempre pedia ao noteiro – o homem que fazia as contas do saldo dos seringueiros e anotava as encomendas de cada família – revistas velhas porventura descartadas pelos patrões, em Belém.  De quando em vez, vinham revistas Manchete. Minha mãe separava as páginas mais bonitas ou com muitas fotos para forrar as paredes da casa, um costume dos seringueiros. Mas antes que ela recortasse tudo, meu pai lia tudo avidamente, mesmo sendo notícias velhas.

Nunca esqueci as fotos da morte do presidente Kennedy. Meu pai sentado no chão, com a Manchete aberta no colo, rodeado de crianças, lia em voz alta e explicava o acontecido. Ele já sabia, como fiel ouvinte da Voz da América, mas agora era diferente, tinha o peso das imagens. Ele dizia “presidente da América do Norte”, e não Estados Unidos. Das coisas que meu pai contou, o que mais me impressionou foi que, ao prenderem o suposto assassino, alguém teria gritado: “quebrem-lhe os polegares!”.

Só que, quando olhávamos fascinados as fotos de Kennedy na Manchete de novembro de 1963, já estávamos em 1968, cinco anos depois da tragédia de Dallas. Entre o acontecimento, a informação e a imagem, a completa percepção se arrastara por vários anos. É como se o fato tivesse viajado intacto pelo espaço, em cada detalhe: o estado de choque das multidões, o sangue do presidente, seus filhos tão pequenos, o corpo caído no carro. E de repente tudo isso aterrissou em nosso seringal, sem quebrar a emoção e o impacto, como se fosse uma época invadindo o domínio de outra.

Mas, afinal, o tempo que valia mesmo era o nosso, o das nossas circunstâncias. Não nos incomodamos de saber, com cinco anos de atraso, algo que já era História no restante do mundo. Nossa velocidade, vejo agora, não era veloz. E isso não tinha a menor importância.

Quando penso em velocidade, e acho que com a maioria das pessoas é assim, tenho a idéia de algo acontecendo muito rapidamente, de um tempo e um espaço a serem vencidos. Embora velocidade também tenha a ver com lentidão, raramente pensamos nela com esse sentido.

Para mim, ela só é perceptível numa relação comparativa. Minha primeira percepção a esse respeito foi por volta dos seis anos, quando vi os primeiros tratores e caminhões na BR-364, então recém aberta, que passava perto da colocação Breu Velho do seringal Bagaço, no Acre, onde nasci.

Colocação é o espaço de vida e trabalho de cada família seringueira. Um seringal se compõe de várias colocações. Numa parte da colocação fica a clareira com a casa, a pequena roça de subsistência, árvores frutíferas, local para a criação de alguns animais e um terreiro. Em torno, numa certa faixa da floresta, identificam-se as árvores para o corte e retirada do latex que vai virar borracha. Anda-se diariamente cerca de 14 quilômetros, o que corresponde a fazer duas vezes o percurso que sai da casa e vai serpenteando por todas as árvores selecionadas, retornando ao ponto inicial. Na primeira passada faz-se o corte, na segunda a coleta. É o que se chama estrada de seringa.

Esse era o nosso universo espacial e temporal. De certa forma ele se transferia para dentro de nós e estabelecia formas de conhecimento do mundo.

A existência de carros rápidos, de que meu pai falava, só ficou palpável com a BR 364. Primeiro, meu pai abriu um caminho até a estrada. Depois mudou a casa para perto dela, num lugar ao qual demos o nome de Breu Novo.

Aí comecei a prestar atenção também nos aviões que passavam de vez em quando. Olhava para o céu e parecia que eles iam tão devagarzinho, de uma maneira tão suave, chegava a imaginá-los quase parados. O avião, o trator, os caminhões passaram a ser referências novas, diferentes do cavalo, da bicicleta. O caminhão, para mim, era de longe o mais rápido.

Passei também a associar velocidade a perigo. Minha mãe e minha avó diziam o tempo todo que era preciso ter muito cuidado. Aparecia um caminhão hoje, outro lá pela semana seguinte ou até mais, mas a criançada tinha que estar sempre atenta “pra atravessar a BR”. Mesmo naquele ermo, tinha-se que olhar para um lado, depois para o outro e só depois atravessar. E, ainda assim, com certo medo.

Mas o impacto maior de conhecer experiências e coisas diferentes de nossas práticas cotidianas, aconteceu quando vi pela primeira vez um fogão.

Desde uns dez anos de idade, eu acordava todo dia por volta de quatro da manhã para preparar a comida que meu pai levava para a estrada de seringa. A rotina era imutável e demorada: levantar, pegar gravetos no monte de lenha, colocar sernambi – pedacinhos de latex coalhado – para queimar no fogão de lenha, jogar nos gravetos por cima. Com lenha molhada, então, fazer o fogo era uma verdadeira batalha.

Todo dia preparava farofa. Às vezes com carne, mas quase sempre com ovo e um pouquinho de cebola de palha, acompanhada de macaxeira frita. Aí botava dentro de uma lata vazia de manteiga, com tampa.

Manteiga era comprada só quando minha mãe ganhava bebê. Meu pai encomendava no barracão – o entreposto de mercadorias mantido pelo dono do seringal – uma lata, pra fazer caldo d’água durante o período de resguardo. Por incrível que pareça, a manteiga vinha da Europa para as casas aviadoras de Manaus e Belém e dali chegava aos seringais do Acre. A lata era uma coisa preciosa. De bom tamanho, muito útil, tinha tampa e desenhos lindos e elegantes.

O ritual de fazer fogo, preparar o café e a farofa e entregar a lata a meu pai levava uns 45 minutos. O que eu sabia de cozinhar se resumia àquilo. Até que vi pela primeira vez um fogão a gás, em Rio Branco, quando tinha uns doze anos. Estava muito doente e fui com minha mãe. Ficamos na casa do meu tio, na periferia da cidade. Fiquei encantada com o fogão. Como era rápido! Subia de repente um fogo azul e era só botar a panela em cima!

Muito mais tarde, morando já em Brasília, estava atrasadíssima para uma votação no Senado e precisava comer alguma coisa antes de sair de casa. Programei o microondas para 45 segundos e fiquei na frente, estalando os dedos, agoniada, como se pudesse apressar ainda mais a máquina: vamos, vamos, vamos! E enquanto estava ali, nessa coisa meio maluca e ridícula, me veio de uma vez à mente a rotina do seringal. Me vi queimando o sernambi, a lenha, fazendo a farofa, preparando a lata de manteiga. O fogo vermelho e barulhento dos gravetos, a descoberta da chama azul do gás.

Acho que a vida toda fui manejando as coisas do tempo e da velocidade, sem perder o meu tempo e a minha velocidade internos. No meu aprendizado de vida, as coisas velozes sempre se associavam à cidade, e as mais vagarosas à floresta. De nossa colocação até o Piratinim, um dos barracões do Bagaço, eram onze horas de caminhada. Dali até a margem do rio, era mais uma hora. E da margem do rio para Rio Branco, em torno de dois dias e meio. Hoje se leva menos de uma hora, por asfalto, para vencer os 75 quilômetros daquele ponto até Rio Branco.

Em geral as pessoas me acham muito calma. Talvez isso tenha a ver com a minha conformação emocional, mas é também um jeito de me relacionar com as dimensões do cosmos, de tal modo que vou internalizando e conciliando a frequência tecnológica e o ritmo frenético da vida urbana e da política com a potência do rudimentar que faz parte de mim e sempre fará.

Na floresta, onde todo deslocamento demandava muito tempo, paradoxalmente recorríamos à velocidade do som para nossas necessidades de comunicação mais urgentes. Quando se queria avisar do nascimento de uma criança, sem ter que andar horas ou até dias pela mata, usava-se um código: dois tiros de espingarda significavam que nascera uma menina; três tiros, um menino. Se alguém morresse, eram sete tiros. E no último dia do ano, doze tiros para compartilhar a comemoração do ano novo.

Nosso totem tecnológico era o rádio a pilhas, um bem quase mitificado. Podia faltar tudo, menos pilha para o rádio. O nosso era da marca Canadian. Meu pai, minha mãe e minha irmã mais velha eram os que sabiam manejá-lo. Ficava bem alto, numa pequena plataforma na parede. Minha irmã tinha que subir no banco para alcançar e meu pai e minha mãe ficavam na ponta dos pés.

E ninguém mais podia mexer, para não prejudicar o ajuste e não dar chiado. Para meu pai, era sagrado ouvir a Voz do Brasil e os noticiários em português da BBC de Londres e da Voz da América. Minha mãe e minha irmã mais velha gostavam das novelas.

O rádio em si atraía muito minha curiosidade e mesmo com todas as advertências, algumas vezes não resisti e mexi. Levava cada carão, pois, é claro, desajustava as faixas e lá vinha o odiado chiado. Uma vez consegui desparafusar a tampa traseira para ver se havia gente dentro da caixa.

Meu pai gostava muito de informação. Minha mãe sempre pedia ao noteiro – o homem que fazia as contas do saldo dos seringueiros e anotava as encomendas de cada família – revistas velhas porventura descartadas pelos patrões, em Belém.  De quando em vez, vinham revistas Manchete. Minha mãe separava as páginas mais bonitas ou com muitas fotos para forrar as paredes da casa, um costume dos seringueiros. Mas antes que ela recortasse tudo, meu pai lia tudo avidamente, mesmo sendo notícias velhas.

Nunca esqueci as fotos da morte do presidente Kennedy. Meu pai sentado no chão, com a Manchete aberta no colo, rodeado de crianças, lia em voz alta e explicava o acontecido. Ele já sabia, como fiel ouvinte da Voz da América, mas agora era diferente, tinha o peso das imagens. Ele dizia “presidente da América do Norte”, e não Estados Unidos. Das coisas que meu pai contou, o que mais me impressionou foi que, ao prenderem o suposto assassino, alguém teria gritado: “quebrem-lhe os polegares!”.

Só que, quando olhávamos fascinados as fotos de Kennedy na Manchete de novembro de 1963, já estávamos em 1968, cinco anos depois da tragédia de Dallas. Entre o acontecimento, a informação e a imagem, a completa percepção se arrastara por vários anos. É como se o fato tivesse viajado intacto pelo espaço, em cada detalhe: o estado de choque das multidões, o sangue do presidente, seus filhos tão pequenos, o corpo caído no carro. E de repente tudo isso aterrissou em nosso seringal, sem quebrar a emoção e o impacto, como se fosse uma época invadindo o domínio de outra.

Mas, afinal, o tempo que valia mesmo era o nosso, o das nossas circunstâncias. Não nos incomodamos de saber, com cinco anos de atraso, algo que já era História no restante do mundo. Nossa velocidade, vejo agora, não era veloz. E isso não tinha a menor importância.

Nóis no morro

07/08/2009

Os batuques que hipnotizam, a ginga despreocupada que esnoba os olhos dos outros, a música, a cor das pessoas, os cheiros de coisas boas e coisas estragadas, os sorrisos, a organização pelo caos, o peso do ar, e principalmente, esse jeito de abraçar, de beijar e de ficar a vontade com os outros. Tudo isso me levou para outro tempo, o tempo que eu vivi lá do outro lado do mar. Mas o lugar era desse lado de cá, era Vigário Geral. Mas é tudo parecido, é tudo irmão, ou primo, ou descendente ou sei lá o que.

Um lado se inspira no outro, mesmo que as pessoas nem saibam disso; as energias vão e voltam sem cessar; e quando elas fazem esse percurso natural de ir e vir, elas se transformam, têm outra feição, se reinterpretaram. E quando elas fazem isso elas ganham mais força a ainda para continuar indo e vindo e emocionando e contagiando as pessoas.

Os meninos que dançam e tocam e sincronizam seus movimentos e dão risada enquanto fazem essas coisas todas numa certa altura gritam kuduro. Kuduro é o futuro. Kuduro nasceu lá do outro lado, mas é primo do funk. E quando ele viaja dos Combatentes ou do Sambizanga para Vigário Geral ou Rocinha ou Parada de Lucas ele já não é mais kuduro, é outra coisa. E aqueles meninos sabem de tudo isso.

Esse Waly Salomão fica pintado quadra da entrada de Vigário Geral

Esse Waly Salomão fica pintado quadra da entrada de Vigário Geral