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Pode entrar

24/02/2010

Casa é uma das melhores coisas que existem. Dá um sentimento bom quando temos a nossa e quando a nossa está aberta para as pessoas queridas entrarem e se sentirem em casa. Também é bom quando vamos às casas das outras pessoas e percebemos como cada casa conta uma história.

Eu lembro bem da sensação de quando minha primeira casa surgiu, toda meio vazia, lá na rua são manoel, 264, há uns quatro anos e tal. Naquela época eu entendi que casa não é uma coisa objetiva, dessas que vc se muda e elas passam a existir. Ela é uma construção, ela vai nascendo com o tempo, é construída e desconstruída cada dia um pouco. Ela pode tanto mudar de endereço e continuar sendo a mesma quanto continuar no mesmo endereço e virar outra casa. Pois o que importa não é o nome da rua ou os números, é o que e quem se passa ali dentro.

Quando eu viajo, uma das minhas coisas preferidas é ficar na casa das pessoas. Acho que assim é bem mais fácil e gostoso de entender o que acontece ali naquele outro uiniverso. O que está na parede, como é a parede, o que está jogado pro escanteio, o que está faltando, o que está sobrando, o que se está escutando, como as toalhas são dobradas, como os objetos são guardados, tudo isso conta sobre um lugar, uma pessoa, uma família.

Nesse meu carnaval eu passei alguns dias na casa da Cely, que mora na comunidade de Barbados, que fica a 4 horas de barco de Paranaguá, tem 15 famílias e fica dentro do Parque Nacional do Superagui, no litoral do Paraná. Era uma casa de madeira, com dois quartos, duas lâmpadas iluminadas por um painel solar, um pôster do Leandro e Leonardo e muitas bonecas penduradas na parede, lençois fazendo as vezes de cortina, enormes caixas de som, escritos de crianças atrás dos móveis, dois gatos sempre espalhados pelos tapetes de crochê, a água da pia que não parava nunca de correr, pois vinha de um riacho, quase sempre irrigando uma bacia de camarões frescos, uma mesa de madeira na cozinha, um banheiro do lado de fora, vários boa-noite (que são aqueles espirais de espantar mosquistos) espalhados pelo chão e uma vista linda do mar, que sobe e desce tanto todos os dias que as crianças não dizem tomar banho de mar, mas sim, tomar banho de maré.

A casa da Cely me contou muito sobre ela, sua família, seu povo, sua história, suas dificuldades e suas aspirações. Acho que nem se ela tivesse ficado o carnaval inteiro me explicando eu teria entendido tão bem como entendi domrindo, acordando, comendo e participando da casa dela. Ficaria muito fleiz se, da próxima vez que eu fosse lá, além de todas essas coisas que eu encontrei penduradas na parede, eu visse também as fotos que eu tirei e que ela vai receber por correio.

Raul

24/02/2010

O Raul ainda não sabe andar, tem só quatro dentes e parece gente grande viajando de barco no calor derretente do Paraná do carnaval. Quase não chorou, passou calor, passou de colo em colo, sorriu, dormiu, acordou, brincou e foi o centro das atenções com esse exagero de olhos azuis.

A Oscar Freire no sábado é assim

07/06/2009

Vitrines lindas com preços impublicáveis, restaurantes, docerias e cafés de muitíssimo bom gosto com mesinhas na varanda e cardápios cheios de nomes de coisas de outros países, bancos impecáveis espalhados pelas calçadas impecáveis para o lazer de pessoas impecavelmente fantasiadas com o kit completo da estação: maquiagem, escova progressiva em cabelos longos com luzes, joias, botas de couro marrons ou pretas sobre jeans bem justos, sobretudos elegantésimos, echarpes todas amarradas do mesmo jeito, cachorros de porte pequeno ou médio transportados em coleiras high tech (há variações de cachorros transportados em bolsas brilhantes), marido e filhos com caras, roupas e modos de adultos.

A rua fica toda trancada de carros brilhantes das pessoas fantasiadas e eu tenho certeza de que muita gente nem precisaria do carro se não tivesse fantasiada. Mas andar a pé com aquela fantasia toda deve incomodar: estraga a maquiagem, faz doer o pé e pesar o corpo. A fantasia de andar, correr ou fazer yoga não é aquela, é outra, que é feita com tênis com amortecedor triplo, calça justa embaixo do joelho, camisetas high tech com tecidos gostosinhos que fazem suspirar sem cheirar mal e Ipod pregado no braço.

A Oscar Freire no sábado me lembra um baile de máscaras do carnaval. Só que é um baile meio desesperador, pois as máscaras são todas iguais e não dá para saber quem é quem.

Como foi o carnaval na Marginal

25/02/2009

Anunciação: dias antes do carnaval chegar, o trânsito fez eu parar na Samba para esperar uns amigos chegarem e, enquanto tomava uma Cuca bem fresca, comecei a bater papo com um jovem. Perguntei o que ele ia fazer no carnaval. Ele disse: andar sem camisa na rua.

 

Breve descrição: é fato que o carnaval existe para as pessoas extrapolarem seus limites. O carnaval e os limites variam de acordo com o lugar. Aqui, lugar em que já houve muita repressão, andar sem camisa é extrapolar os limites. Aqui, se vestir de mulher e ficar rebolando na frente do policial é extrapolar os limites. Aqui, o carnaval significa a Marginal cheia de pessoas nas ruas a dançar músicas de todos os tipos vindo de todas as direções, pequenos blocos desgovernados e desorganizados a passar pela avenida que os guardas tentam fazer as pessoas não atravessarem, famílias inteiras com fantasias estampadas idênticas na rua, as fantasias mais originais que eu já vi, barracas que vendem bebidas e pratos imensos de comida, como sempre tem numa boa festa angolana, e uma sensação de liberdade e rebeldia inocente no ar. Tudo isso com ar de anos 40.

 

Sensação: nesse dia, meu coração era tudo, menos sensação de carnaval. Me senti arremessada na marra naquele mundo de festa.

 

Conclusão: apesar do descompasso entre o que se passava dentro e fora, foi divertido.

Carnaval esquisito

23/02/2009

Assim como estava esquisitíssimo passar o Natal sem clima de Natal, está esquisito passar o carnaval sem clima de carnaval. Eu só me lembro que é carnaval quando abro o UOL e vejo aquelas mulheres todas parecidas e maquiadas com aquelas fantasias exageradas ou quando abro o gtalk e não tem quase ninguém online.

Sim, aqui tem carnaval. Mas é mais modesto do que o do Brasil. Amanhã é o único dia de feriado e lá na Marginal tem desfile de blocos e escolas. To super curiosa pra dar um pulo lá, mas não sei se o Sr. Padrão (ooops, Patrão) será generoso o suficiente. Ontem teve desfile das crianças. Tem umas pessoas vendendo umas fantasias na rua. Tem umas festas acontecendo nos bairros. Aqui na redação não tem confete e nem serpentina e quase não tem repórteres.