Posts Tagged ‘casamento’

O silêncio de Luanda

03/05/2010

Não tem mais ninguém nessa casa linda de paredes de vidro, obras de arte, prateleiras brancas cheias de boas leituras, abajures nos lugares dos lustres que nessa altura são desnecessários porque no prédio chinês as obras não param e o refletor vira uma espécie de sol.

Só eu. E o silêncio. E é um silêncio bom, que vem de dentro da alma. Silêncio de quem se sente em casa, inteira, com um pouco de medo, é verdade, mas que sabe que agora não são mais duas vidas, uma de cada lado do atlântico. É só uma, que pode ir e vir nadando por esses oceanos enormes.

E chegar sem saber na véspera do pedido de casamento do chefe peixe à Graciete e só então descobrir um barrigão enorme de 8 meses lindo e precoce.

a noiva e o noivo

12/04/2010

Ela disse que ele vai dar cor para a vida em preto e branco dela. Ele é tímido e disse bem pouco, disse o fundamental. Eles parecem jovens demais. Ela sempre foi a prima mais nova com aquela voz bem fina e com tromba de elefante quando ficava brava. E de repente está lá, naquela noite fria, toda linda de noiva, de donzela, com um vestidão enorme que faz todo aquele movimento de onda quando ela pega a saia com as mãos. E ela e ele agora vão morar em Berlim, recomeçar uma vida cheia de sonhos, continuar uma vida a dois, levando na mala tudo de mais fascinante e de difícil que existe num relacionamento. Um monge que foi um segundo pai para ela conduziu a cerimônia de um jeito bem lindo e disse que quando eles precisassem a carta que cada um escreveu ao outro estava lá para lembrar de tudo o que eles muitas vezes ainda vão esquecer nessa trajetória imensa que é um casamento. Depois todos beberam, comeram, dançaram, abraçaram-se, beijaram-se e celebraram tanto que o frio desapareceu. E os olhos da minha câmera acompanharam tudo felizes da vida em perceber mais uma vez como os rituais são importantes e  em ter sido a fotógrafa oficial dessa linda festa.

aqui no flickr tem mais fotos da noiva.

Isso não é nada fácil

25/07/2009

Ser mulher é muito difícil. Tem esse negócio de tpm, de depilação, de querer ser mãe e dona de casa e ao mesmo tempo e ter que provar pra ela mesmo e pro mundo como ela pode ganhar o mundo, tem essa coisa da idade biológica, tem esse sonho de casar e ser feliz para sempre e bué de outras coisas difíceis. E tem também essa coisa que sempre acontece na hora que uma mulher ficar com raiva ou triste que, em vez de ela dizer o que ela gostaria de dizer, ela diz exatamente o oposto — e espera que o outro entenda a mensagem oposta, e não a que ela disse. Aí o outro não entende ou faz que não entende e ela fica frustrada — primeiro com o outro, que é um insensível, depois consigo mesma, porque mais uma vez ela se embaralhou toda.

Matias Damásio

20/07/2009

Essa música do Matias Damásio estava a bater uns meses atrás la nangola. O amigo Xuxis mandou por email hoje. Eu acho ela ótima.

Um post subjetivo sobre o alembamento

16/02/2009

O alembamento é uma cerimônia angolana de pedido de casamento. O ritual da família do noivo fazer o pedido formal de casamento à família da noiva é tão importante que, pra muita gente, importa mais do que o casamento em si.

Pra explicar tudo ao pormenor é muito difícil, longo e complexo. E eu acho que nem conheço suficientemente bem do assunto pra falar de um jeito fiel.

Mas nesse fim de semana eu estive num alembamento lá em Viana. Meus olhos, minha curiosidade e minha câmera acompanharam tudinho. Vi a preparação da festa, com mesas muitíssimo arrumadas, DJ, bebidas e comidas, muitas comidas. Vi a expectativa eufórica da noiva no quarto cheio de maquiagens, perfumes, alvoroço e de outras mulheres igualmente eufóricas. Vi a tensa negociação entre a família da noiva e do noivo numa salinha reservada da casa. Ouvi o noivo ler a carta de pedido, a intervenção do mais velho, o discurso do pai da noiva. Vi a família no noivo entrar com as caixas de cerveja, de gasosa, as garrafas de whisky, os fatos e as outras coisas da lista de pedidos da família da noiva. Vi a aliança chegar e vi também o dinheiro que a família do noivo deixou em cima dos presentes. Vi a noiva entrando toda arrumada, emocionada e com o corpo e a cabeça cobertos por um tecido. Vi a tensão ir embora da salinha quente e apertada depois que entrou-se num consenso e as duas famílias brindando com champagne, depois de um beijo dos noivos. Senti toda a atenção que aquelas duas famílias me deram e me senti acolhida de eu, tão intrusa, poder estar ali naquele momento tão íntimo e especial. Vi as pessoas começarem a comer aquele exagero de comida, o fungi, a kizaka, o calulu, a mandioca, o arroz de mariscos, o feijão com óleo de palma, a carne de porco, o peixe, a batata. Vi a música aumentar com Roberto Carlos, depois kizombas e sembas. Só não vi a festa terminar, provavelmente já no outro dia, pois foi tanta informação nova, mais tanta, que meu corpo começou a sentir um cansaço enorme e Viana fica distante de Luanda, principalmente depois da chuva.

Não sei se alguém entendeu como funciona um alembamento. Não sei nem se eu entendi. Quem sabe um dia eu consiga fazer um post mais objetivo sobre o assunto. Ou talvez isso nem seja importante. O que importa é que as pessoas se amam, se juntam, se procriam, cumprem os seus rituais, não importa quais sejam eles.

Compra-me saldo 2

02/02/2009

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Hoje na redação tivemos uma conversa ótima e divertida sobre a questão do hábito (ou obrigação) dos homens angolanos de comprarem saldos de telemóvel e vários outros presentes para as amigas e namoradas. No Brasil é meio impensável uma namorada chegar para seu namorado e pedir assim, na cara dura, para lhe comprar saldo. Ou então fazer uma lista de presentes que ela gostaria de ganhar. Aqui é a coisa mais normal de mundo e tanto os homens quanto as mulheres já esperam por isso.

O ponto polêmico da conversa foi se o homem que compra saldo para uma amiga está realmente interessado nela ou pode simplesmente ofertar-lhe pela amizade. Uns diziam que é claro que o homem que compra saldo para uma amiga tem segundas ou terceiras intenções. Mas outros já achavam que esse gesto de dar saldo podia ser mero cavalheirismo ou demonstração de uma amizade mesmo sincera, sem outros objectivos. Eu sinceramente não sei bem o que achar….

Só tenho uma certeza: namorar uma angolana é beeeeem mais caro do que namorar uma brasileira, sejam quais forem as origens das diferenças culturais.

Já tinha falado um pouco sobre esse assunto num outro post. Quem quiser se lembrar é só clicar aqui. Hoje nem sei mais se concordo com aqueles julgamentos que eu fiz…. mas, enfim.


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Compra-me saldo

30/11/2008

As relações angolanas entre homem e mulher são ainda um pouco à moda antiga. À moda antiga significa que há coisas boas e coisas ruins e outras coisas curiosas, não sei direito se são boas ou ruins.

casalAs coisas boas : o homem chama sua namorada ou mulher de minha dama, faz questão de andar do lado da calçada mais próximo da rua para a sua dama ficar protegida, faz galanteios e faz essas coisas de cavalheiro meio fora de moda que as mulheres geralmente adoram.

As coisas ruins: muitos homens (e muitas mulheres) acham que lugar de mulher ainda é só na cozinha e na cama e que quem tem que decidir tudo é o homem e que a mulher deve servir o homem e pegar cerveja e lavar toda a louça e carregar todas as bacias na cabeça. Aqui, sexta-feira é “o dia do homem”. Nesse dia, é o homem que decide o programa que mais lhe agrada. Os africanos são polígamos por natureza, dizem os homens, e eles podem ter várias mulheres. Mas a mulher que quer ser polígama tb não é muito bem vista.

As coisas curiosas: quando um homem está investindo numa mulher, é normal que ela peça-lhe, assim, na lata, para comprar saldo para o telemóvel. Assim ela não pode ter como desculpa que não telefonou porque o saldo tinha acabado. Outra coisa curiosa e fantástica, é o ritual de casamento. Ele é longuíssimo e sagrado para as famílias, dura e custa muito. Inclui que homem faça um pedido formal, gaste fortunas pagando dote e depois faça uma festa cheia de comidas e bebida que dura dois ou três dias. Há a cerimônia religiosa, a festa e a continuação da festa, nos dias seguintes.

Eu ainda hei de ir a um casamento, toda semana há sempre alguém conhecido de um conhecido casando. Aí vai dar pra eu contar mais detalhes.

Ah, outra coisa triste desse jeito meio à moda antiga é que vários pulas (gringos) acham que podem comprar angolanas com saldos como se fossem putas.