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O céu rosa, a chuva e o deserto

10/10/2010

Ontem o céu de Luanda estava rosa, exatamente como o céu de São Paulo. Cidade estranha essa que eu nasci, que não dorme nunca e tem céu cor de rosa, não negro. Aqui do outro lado do mar caíram pesadas gotas do céu rosa e os passos das pessoas inebriadas dançaram sensuais e molhados numa esplanada do Alvalade.

A chuva.

A chuva tem cheiro bom.

A chuva quando vem forte me lembra da minha casa da infância. Ela vinha e levava a energia embora e aí o grande acontecimento da noite era a família reunida em torno do acender do lampião que ficava guardado no alto da dispensa e desse jeito de andar devagar com a vela equilibrada no castiçal improvisado para não apagar o fogo. Íamos dormir mais cedo e mais felizes.

No deserto do Namibe, onde eu estava ontem, a chuva quase não vem. Lá a chuva é a areia, que também cai do céu também e deixa tudo monocromaticamente amarelado: os sorrisos, os telhados, as casas, as ruas, as frutas, as folhas das árvores, o peixe, até o próprio céu. O amarelo só acaba quando começa o azul das águas imensas e geladas do mar. O amarelo, o azul e o silêncio.

No deserto os olhos podem repousar e as ideias podem momentaneamente decantar entre um céu rosa e outro. Entre uma etapa e outra. Entre um e outro lado do mar. É, eu to com saudade de casa.

A chuva

20/01/2010

Tem dia que eu sinto meu coração apertado, o mundo grande demais e vontade de ficar quietinha em casa, bem encolhida e de luz apagada. Hoje é um desses dias. Eu acho bom quando bem nesses dias tem a chuva, pois a música da água caindo embala os sentimentos de um jeito gostoso.

Os despachantes e os corredores do Detran

31/07/2009

Peguei trânsito, comprei zona azul, atravessei a passarela debaixo de um chuvisco fiiino, desses que desanimam qualquer um, e entrei naquele lugar horroroso, escuro e sujo, o Detran. Também, quem mandou levar multa com o carro da mãe e enviar pelo correio aquele papel assinado pra passar a multa pro nome de outro sem anexar a copia da carteira de habilitação? Tem que pagar penitência e ir mesmo no Detran. Já tinha ido lá outra vez resolver umas makas de licenciamento. Não sei se eu achei pior aquela fila imensa, com senha e tudo, do balcão de informações — a pessoa pega fila pra pedir informações sobre qual fila pegar — ou se foi aquele formigueiro de despachantes, de todas as idades, todas as caras, todas as alturas. Achei pior mesmo a fila, na verdade, pois os despachantes não achei pior ou melhor, eu achei mesmo triste, pois eles todos são diferentes um do outro, mas, de alguma forma, todos têm a mesma cara de burocracia. Não sei se são os envelopes nas mãos, o jeito de se vestirem ou a forma natural como eles se locomovem por aqueles corredores todos. O chefe do DSV tá no quinto ainda ou mudou pro sétimo? A repartição da CNH é lá no terceiro? Já fui lá na sala do Controle de Recursos e Outras Zoonoses resolver aquela apreensão, mas me mandaram ir pro Ciretran. Quem não é despachante e nem sabe as salas e os andares das coisas fica igual tonto andando por aqueles corredores sujos de papel picado e tentando entender o que significam aquelas siglas todas. Depois de subir ao quarto andar, voltar ao segundo, sair do prédio, entrar em outro, encontrei a minha fila. Até que não demorou tanto. E a confusão que eu armei para conseguir passar a tal multa pro meu nome mesmo fora de prazo deu resultado, pelo menos. Não quero voltar ali tão cedo. Faz mal. Talvez seja por isso que os despachantes ficam com essas caras tristes e parecidas.

As fotos da chuva

19/02/2009

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Esse aí é o meu carro depois de passar por ruas tão alagadas que até o farol ficou coberto de lama. Quem não tem carro (isto é, quase todo mundo) tem mesmo é que meter o pé na lama.

Efeitos da chuva

17/02/2009

Eu queria mostrar os efeitos de uma chuva na cidade Luanda. As fotos já estão escolhidas. Só que eu acho que um dos efeitos da chuva é piorar a qualidade já sem qualidade da internet e não há meios dessas fotos subirem.
Mas depois de sexta e de ontem eu entendi porque em Luanda todos têm pânico da chuva. E entendi porque me meti lá em Viana no alembamento. Nosso carrinho pequeno, tipo um corsa ou celta, andou por ruas tão alagadas que o farol vez ou outra parava de iluminar porque ficava submerso.
Entendi como as ruas asfaltadas recebem uma camada de lama e esgoto. Vi que os bueiros inexistem e quando existem não prestam e qualquer aguinha que cai do céu empoça que nem os dias de sol rachando secam as poças. As ruas que não são asfaltadas, que são muitas, principalmente mais longe do centro, ficam como rios. O esgoto que com o tempo seco se transforma em pó com a chuva volta a virar líquido e se mistura com o barro, a água e o lixo.
É triste que todo mundo sofre com a chuva numa terra tão seca, em que ela deveria ser bem-vinda.

Até choveu

14/02/2009

Passei hidratante de maracujá e vesti pulseira, colar, brinco, vestido novo e sandálias prateadas. Saí toda mulherzinha por ter a mala de volta para tomar cerveja na  ilha e comer choco grelhado. Choco é uma lula gigante que não tem no Brasil. É mesmo bom.

Estava tão esquisito eu assim, com tantas vaidades penduradas, que até o tempo estranhou. De repente, quando já estávamos lá nos caboverdianos, que é um grande salão em que caboverdianos jovens, velhos, casados, avulsos e namorados se encontram para tocar, dançar e ter saudade da música da terra deles, começou a bater um vento gelado, que trouxe consigo uns pingões de chuva. Os pingões se transformaram numa tempestade, dessas que caem sempre em São Paulo, mas que eu nunca tinha visto em Luanda. Em minutos, a água se empoçou pelas ruas de tal forma que comecei a achar que era melhor embora porque a Chicala iria afundar.

Dá um certo alívio quando chove, pois aqui o tempo é seco, empoeirado, a garganta estranha e os narizes sangram às vezes. Mas sempre quando eu fico feliz quando umas gotas caem do céu, as pessoas de Luanda me falam pra eu não dizerm isso, porque a cidade sempre fica um caos quando chove. Morre gente, doenças aumentam, ruas se estragam, famílias perdem seus pertences.

Com a chuva, minha sandália sujou um pouco com lama e esgoto, meu vestido molhou. Mas tudo bem. Tenho uma mala inteira de opções.

Choveu

05/12/2008

Choveu à noite e continuou chovendo de manhã. O pó que as probres moças magrinhas levantam no ar ao tentar varrer a cidade se tornou lama. Os buracos que existem nas calçadas (ou as calçadas que existem nos buracos?) na se encheram de água e esgoto. As minhas sapatilhas roxas ficaram sujas e sujaram o carro que estava limpo. A cidade ficou melada, congestionada, mas refrescada.

O problema de quando chove é que aumentam os mosquitos e, quando aumentam os mosquitos, aumentam os casos de paludismo (malária). Aí quem tem saúde frágil, almoça bolacha e não tem ar condicionado ou mosquiteiro no quarto e tem de dormir de janela aberta logo fica doente. Nos últimos dias na redação, tivemos destaques dos designers A. e P., do repórter I., do motorista C. e talvez do motorista L, que está com paludismo e febre tifóide ou arrumou outro emprego. É muita gente doente de uma doença que nem deveria existir mais.