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E.T. phone home

24/08/2009

Querido diário, hoje estou muito feliz porque tenho uma casa. Na minha casa tem tudo dentro: cama, plantas com flores, vinhos, quadros na parede, varanda, ingredientes, cubanita, sofá, mapa múndi, roomate, olga e até geladeira. E tem eu dentro. E essa foi a parte mais difícil. Ter eu dentro significa que eu moro numa cidade.  E eu morar numa cidade siginifica que eu escolhi morar, mesmo que seja pra desescolher no futuro longe ou próximo.

Coisas simples da vida

05/08/2009

Quem é criado no mato, quando vai para a cidade sente falta de bué de coisas. Coisas tão bobas que a pessoa até demora para entender quais são essas coisas.

O que eu mais sinto saudade é do silêncio que faz à noite, que não necessariamente é um silêncio total, mas é silêncio do barulho da cidade, da fumaça, do carro, do caminhão, do zunido baixinho que nunca cessa.

A segunda coisa que mais me dá saudade — e essa eu demorei bastante pra descobrir — foi pisar na terra. Em São Paulo, parece idiota, mas não dá pra pisar na terra, só da pra pisar no asfalto. E no Rio dá. Tem esse monte de areia da praia bem na sua frente. Em Luanda dava também e a coisa que eu mais gostava de sentir quando eu chegava na praia — na Ilha, no Mussulo ou no Kwanza — era a cosquinha e o quente que areia fazia nos meus pés. Eu ficava andando com os pés arrastados só para aumentar essa sensação boa do contato da areia com a pele. E depois enterrava meus pés para sentir a umidade e o frio da água do mar que fica debaixo da areia.

Minha terapeuta me conta que um povo de algum lugar do mundo, quando quer tratar uma pessoa enferma do corpo ou da cabeça, enterra a pessoa toda debaixo da terra, so deixa a cabeça, para as energias ruins se dissiparem para a terra. Quando eu piso na terra eu sinto isso na hora. Um descarrego.

Hoje, depois de correr 45 minutos, antes de voltar para casa, eu tirei o sapato e fui entregar os meus pés para a areia. E o barulho do mar para meus olhos e meus ouvidos. Essa cidade maravilhosa me faz um bem danado.

Tetris motobilistico

14/04/2009

transito

Um infografista-reporter-fotografo da Folha que visitou Luanda usou uma expressao mto engracada para descrever o transito da cidade: aquilo la parece um tetris automobilistico. Vou pegar a expressao emprestada e dizer que Hanoi parece um tetris motobilistico.

Todas as ruas sao estreitas e tomadas por motos andando na mao e na contramao, com gente velha e gente nova a bordo, motos com gente carregando baloes, galinhas, caixas ou passageiros em cima, motos buzinando de um jeito atordoante para outras motos ou carros ou biciletas darem passagem,  motos passando realmente muito perto de tudo e de todos, motos avancando no sinal verde ou no sinal vermelho, motos tentando estacionar ao lado de outras motos ou onde houver um espaco na calcada, motos tomando todos os espacos e sons possiveis dessa cidade tao incrivel que e Hanoi.

A parte boa e que vc pode fazer parte desse tetris motobilistico e se locomover rapidinho, loucamente e quase de graca na garupa de um motoqueiro-taxista.

A China nunca acaba

22/03/2009

É um pouco aflitivo começar a perceber a dimensão da China. Shenzhen é uma cidade qualquer do país. Não tem nada de especial, não é o centro do crescimento econômico, não é imponente, não tem graça nenhuma. E é justamente por ser um lugar tão normal que eu fico impressionada.

Shenzhen tem qualquer 10 milhões de pessoas, como dezenas de outras cidades chinesas. Tem uma avenida com dezenas de quilômetros e centenas de lojas e milhões de pessoas andando pelas ruas e comprando roupas baratas, celulares, sorvetes, óculos, celulares, acessórios. Tem centenas de novas pontes, avenidas, prédios, escolas sendo construídos ao mesmo tempo 24 horas por dia, 7 dias por semana, como em dezenas de outras cidades chinesas. Essa avenida de dezenas de quilômetros cruza vários bairros enormes e idênticos com centenas de prédios altíssimos que deixam até mesmo quem nasceu em São Paulo olhando pra cima de um jeito meio caipira. Cada bairro parece uma grande cidade que poderia estar em qualquer lugar do mundo, mas é só mais um bairro de mais uma cidade chinesa.

Eu fico um pouco angustiada em pensar que todo esse concreto e essa velocidade e esse monte de gente é só uma pecinha pequena e repetida de um país gigante chamado China.