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Infectado

09/08/2010

Você que está lendo isso provavelmente já está infectado. O hospital está infectado. O chão, as paredes, o alimento, a escova de dentes, os dentes, a mente. Está tudo infectado. Os micróbios são superiores aos macacos e aos humanos, eles devoram tudo com seus tamanhos invisíveis e seus eternos poderes de reprodução em massa.

Não há mais saída. É possível tentar amenizar os efeitos da infecção lavando as mãos compulsivamente com água, sabão, álcool em gel. Ou ainda beber o álcool diluído na cerveja, na cachaça na vodca. Mas de que adianta? O álcool também provavelmente também já está infectado.

Mas o importante é não acabar com os rituais, com as rotinas. São eles que preenchem a nossa vida.

Então, é preciso desinfetar a boca três vezes ao dia. Funciona assim: primeiro tem que pegar a escova de dentes com a pasta colgate tripla ação, uma bacia com água morna e um copo com água mineral. Em seguida, um novo copo com água mineral, o fio dental e a escova de dentes com periogard, aquela com gosto salgado para dentes sensíveis. Depois de usada, a bacia precisa ser lavada com água, sabão e, depois, enxuta. Mas não com a toalha de pano, que está contaminada, tem que ser com a de papel esterilizado. Pronto. A boca está pronta para receber a próxima infecção, que vem pelas mãos de uma sorridente enfermeira em forma de bolacha, sopa, purê de batata em forma de coração ou frango.

Desinfectar o corpo de uma parte de si mesmo é um processo complexo, agressivo. Para desinfectar um pulmão infectado pelo álcool, pelo cigarro, pela mente que divaga pelo passado, pelos gregos, romanos, por Homero, pelo mar Egeu, por Molière, pela ideia de que hipocondríaco não é a mesma coisa que malade imaginaire e por centenas de livros devorados pelas traças não há outra forma: tem que abrir o peito com o bisturi, virar o corpo que dorme com anestesia geral para frente, para o lado para trás e chegar até o pulmão, esse pulmão frágil com enfisema. É um corpo frágil, um corpo que doi com tudo, até quando não há dor física. Porque a dor psicológica não passa nunca.

Para terminar de sarar a cirurgia que desinfectou o pulmão, garrafas de plástico presas ao corpo ficam recebendo sangue, urina, células mortas o que mais o corpo rejeitar. Os dutos que carregam esse líquido avermelhado de dentro de um organismo para as inanimadas garrafas provavelmente serão foco de uma nova infecção.

Para o pulmão não se desacostumar de funcionar, fisioterapia três vezes por dia. Primeiro, finja que você está desembaçando um espelho. Aperte o travesseiro contra você mesmo. Depois, tente tossir, tossir com a vontade lá do fundo, para expectorar um catarro com sangue, que é cuspido na bacia ou nos lenços de papel desinfectados.

Para não se infectar com as infecções dos outros infectados do hospital o que é preciso fazer? Isso eu já não sei. Só sei que esse lugar de amontoar pessoas com infecções de todos os tipos infectam a lógica e o pensamento também. Infectaram o pensamento da minha mãe, pelo menos, que arruma uma lógica completamente ilógica que envolve cachorros, aluguel de uma casa entre dois rios, umas australianas de são bernardo e um patrão que nunca acorda antes do meio dia para justificar – ou não justificar – as suas escolhas. Os micróbios infectaram também o pensamento do meu outro tio, o tio santo, que dedica sua vida aos outros, dedica tanto aos outros que todos os seus instintos são reprimidos, e aí suas costas são sempre tensas. O tio santo agora acha que é logico que o tio infectado com o câncer, que tem um quarto infectado pelos micróbios devido às pilhas de livros, velharias, recortes de jornais velhos e às ordens expressas de que nenhuma das marias pode entrar para limpar, ocupe o seu quarto. O tio santo, mais uma vez, vai ceder.

Bom, eu, pelo pessimismo, pela angústia que acabou de tomar conta daqui de dentro de mim, também devo ter sido infectada pelos micróbios que moram nesse pesado hospital.

Ai, o trânsito

11/12/2008

Esse trânsito atrapalha mesmo nossa vida. Graças a ele, na curta distância entre a casa e o trabalho, uma pessoa consegue reclamar de, no mínimo, 12 coisas.  

Ele reclama da falta de descência do homem que faz xixi na roda de um carro.
Da repórter Y., que não consegue nem formular uma pergunta.
Do repórter F., que faz a brilhante pergunta qual a importância de Angola para o Japão e que não consegue identificar qual a parte mais importante de uma entrevista longa com o embaixador de um país.
Da comida vagabunda que ele comeu em Ingombota na noite anterior, depois do fecho.
Da garçonete ladra que não anotou a última cerveja no caixa e depois cobrou-a mesmo assim, só para poder embolsar o dinheiro.
Da matéria de capa.
Da capa.
Da gala que vai haver no Cais Quatro em comemoração do aniversário da revista Chocolate. Que breguice.
Da comida do Cais de Quatro.
Do artigo brilhante que será enviado directamente de França.
Das árvores de Natal vendidas nas ruas pelos ambulantes.
Pela forma agressiva que o sr. seu motorista conduz a viatura.

Não reclamou do paludismo, mas poderia, pois esse é uma das reclamações de todos os dias. Afinal, não se pode ficar doente em África.