Posts Tagged ‘Estados Unidos’

Isso não faz nenhum sentido

31/07/2009

Os bancos que se afundaram e ajudaram a afundar a economia do mundo e tiveram que pegar empréstimos bilionários do governo (e, portanto, da pessoas) pagaram mais de 1 milhão de dólares de bônus para não sei quantos mil. 1 milhão de dólares. De bônus. Fora o salário. Pensem em quanto dinheiro é isso. Qua safadeza. E, além disso, para que as pessoas precisam de tanto dinheiro assim?

Bancos socorridos gastam bilhões em bônus nos EUA

Mesmo Citi e Merrill Lynch, que tiveram enormes prejuízos, deram gratificações

Deputado democrata afirma que o controverso pagamento de bônus será debatido pela Câmara dos EUA em setembro

GREG FARRELL
DO “FINANCIAL TIMES”, EM NOVA YORK

O Citigroup e o Merrill Lynch, que somados tiveram prejuízo de US$ 55 bilhões em 2008, pagaram bonificações individuais de valor superior a US$ 1 milhão a 1.400 funcionários, segundo relatório do governo estadual de Nova York sobre os pagamentos de gratificações por bancos socorridos com dinheiro do contribuinte.
O estudo, compilado por Andrew Cuomo, o procurador-geral de Nova York, demonstrou que o JPMorgan Chase e o Goldman Sachs, que fecharam o ano passado com lucro, pagaram o maior número de bônus literalmente milionários: 1.626 e 953, respectivamente.
Mas os montantes totais pagos por um banco lucrativo como o Goldman Sachs foram acompanhados de perto por dois dos maiores perdedores de Wall Street. O Citigroup, que sofreu perdas de US$ 27,7 bilhões, pagou bonificações de valor superior a US$ 1 milhão a 738 funcionários. O Merrill Lynch, que perdeu US$ 27,5 bilhões, pagou 696 bonificações de US$ 1 milhão ou mais.
“Não existe motivo ou explicação claros para a maneira pela qual os bancos remuneram e recompensam seus funcionários”, disse Cuomo. “A remuneração de funcionários bancários se desvinculou completamente do desempenho financeiro das instituições.”

Três livros mais atuais do que todos os jornais

13/06/2009

Três coisas que eu li ou to lendo recentemente que me parecem mais atuais e úteis do que todo o bla bla bla que os jornais chatos escrevem todos os dias.

1) O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

2) O Vidiota, de Jerzi Kósinsky

3) Pesadelo refrigerado, de Henry Miller (esse eu to no começo ainda)

Acho que os três falam sobre como as pessoas andam a se preocupar com as coisas erradas e desimportantes na vida. O engraçado é que esses livros foram parar nas minhas mãos totalmente por acaso. Um eu ganhei no meio de uma viagem, o outro eu tive que devolver para uma pessoa e resolvi ler antes disso e o terceiro simplesmente apareceu na minha casa. Mas ler eles agora está fazendo bué de sentido.

Aí vai um pedacinho do Pesadelo Refrigerado. O Henry Miller é americano nascido no fim do século 19 e viveu um tempão na Europa. Depois ele voltou pros Estados Unidos pra viajar o país todo e tentar se rearmonizar com sua terra. Mas ele de desarmonizou e escreve coisas tristes e cheias de ódio sobre o próprio país.

Nas cidades grandes e pequenas encontra-se o americano típico por toda parte. Sua expressão é suave, branda, pseudo-séria e nitidamente vazia. Está sempre bem vestido, com um terno barato comprado pronto, sapatos engraxados, caneta e lápis no bolso do peito, uma pasta debaixo do braço – e, é claro, óculos, cujo modelo muda de acordo com a moda. Um se parece com o outro, da mesma forma que telefones, automóveis e rádios se parecem. É um indivíduo entre 25 e 40 anos. Depois dessa idade temos outro tipo – o homem de meia idade, que já está equipado com dentaduras postiças, que bufa e ofega, que insiste em usar cinto, embora devesse estar usando uma funda de hérnia. É o homem que come e bebe demais, fuma demais, fica sentado demais, fala demais e está sempre a beira de um colapso. Quase sempre morre de ataque de coração dentro de poucos anos. Numa cidade chamada Celveland, esse homem chega ao apogeu. Assim como os prédios, restaurantes, prédios, memoriais de guerra. É a cidade americana mais típica em que estive até agora. Vibrante, típica, limpa, espaçosa, sanitizada, vitalizada por generosa infusão de sangue estrangeiro e pelo ozônio do lago, ficou em minha mente como um compósito de muitas cidades americanas. Mesmo possuindo todas as virtudes, todos os pré-requisitos para a vida, o crescimento, a frutificação, ela permanece um lugar absolutamente morto – um lugar mortal, chato, morto. Eu gostaria de morrer em Richmond de alguma forma; Deus sabe que essa cidade tem pouco a oferecer. Mas em Richmond, ou em qualquer outra cidade sulina, você de vez em quando vê sujeitos que fogem à norma. O Sul é cheio de personagens excêntricos; ainda alimenta a individualidade. E os mais individualistas, são, é claro, da terra, de lugares fora de mão. Quando você atravessa um estado parcamente habitado como a Carolina do Sul, encontra homens, homens interessantes – criaturas joviais, ma-humoradas, competitivas, em princípio, mas fazem a vida encantadora, graciosa. (…) No Sul, é preciso pregar um homem no chão para poder falar de negócios com ele. E se, por acaso, for um bom homem de negócios, esse sujeito de Charleston, é muito possível que seja um fanático por alguma coisa de que nunca se ouviu falar. O rosto dele registra mudanças de expressão, os olhos se iluminam, o cabelo se arrepia, a voz se enche de paixão, a gravata sai do lugar, os suspensórios provavelmente serão tirados, ele cospe e fala palavrão, arrulha e se empina, de vez em quando dá uma pirueta. E há uma coisa que nunca esfrega no seu nariz – o relógio. Ele tem tempo, muito tempo. E realiza tudo o que quer realizar em seu devido tempo; o resultado é que o ar não fica cheio de poeira, de óleo de máquina, de tilintar de caixa registradora. Os grandes perdedores de tempo, eu acho, estão no Norte, entre os ocupados. Pode-se dizer que sua vida toda não passa de muito tempo perdido. O homem gordo, pretensioso, de cara amarrada, de quarenta e cinco anos, que ficou assexuado, é o maior monumento da futilidade que o homem criou.

Barcak Hussein Obama, o bom

05/06/2009

obama

Crédito: Chuck Kennedy/Flickr/whitehouse

Eu nunca escrevo aqui diretamente sobre política ou pessoas da política. Mas hoje quando acordei e fui ler as manchetes do jornal, fiquei sinceramente comovida em ler o lindo e marcante discurso que o Obama fez no Cairo. É muito forte, é emocionante, é respeitoso. Obviamente não vou ficar papagaiando o que ele disse, pois dá pra ver tudo no Youtube, na FSP, no Estado ou em qualquer lugar da internet.

Ele lembrou que tem no seu sobrenome Hussein e que Hussein significa o bom. Ele lembrou que a história huma tem sido um registro de nações e tribos subjugando uns aos outros para atender a seus próprios interesses. Ele lembrou que, com um mundo cada vez mais interdependente, isso não pode funcionar mais. Ele lembrou um monte de outras coisas que vale a pena ler.

No vôo da South African Airways, que em vez de tocar música clássica toca Miriam Makeba, Salif Keita  afins, eu vim um documentário do Obama quando ele foi pro Quênia, ainda na época de Senador. É muito comovente a capacidade que esse cara tem de falar com pessoas de mundos tão diferentes e a inteligência e a sensibilidade que ele tem para tratar de questões muitíssimo delicadas.

Eu estava em Angola quando o Obama foi eleito e também foi muito comovente ver a reação emocionada dos angolanos e, de uma certa maneira, ver mais de perto um pouco a reação dos outros africanos, que comemoraram muito que alguém mais perto deles estava no poder daquele país tão distante deles.

O excesso da Time

28/05/2009

Meu dia começou mais feliz porque eu comecei lendo uma revista Time que estava dando sopa por aqui. Quando a gente lê coisa boa dá até tristeza de pensar quanta coisa ruim é escrita no mundo. Espiem só como a Time começou essa matéria de capa sobre as transformações que a crise mundial está causando na economia americana:

Sometimes we change because we want to: lose weight, go veagan, find God, get sober. But sometimes we change bacause we have no choice, and since this violates our manifest destiny to do do as we please, it may take a while before we notice that those are often the changes we need to make de most. We rean a good long road test of the prmeisse that more is better: we built houses that could hold all our stuff but were too big to heatp; we bought cars that could ferry a soccer team but were too big to park; we tought we were embracing the simple life by squeezing in a yoga class between working and shopping and took an extra job to pay for it all. Now we’re stripping down and starting over.

E, depois, vejam como a matéria termina:

A consumer culture invites us to want more than we can ever have; a culture of thrift invites us to be grateful for whatever we can get. So we pass the time by tending our gardens and patching our safety nets and debating whether, years from now, this season will be remermbered for what we lost, or all that we found.

Além de ser um lindo texto jornalístico, essa matéria fala de um jeito muito delicado sobre como são importantes os momentos da vida em que a gente entra numa crise e é obrigado a mudar. Sempre acaba sendo melhor, por mais que na hora não seja nada divertido passar por aquilo tudo.

De África para Hong Kong

18/03/2009

wilson

Nem aqui do outro lado do mundo a África se distancia de mim – ou eu me distancio dela. Eu não tenho cara de africana, mas venho de um país em que as pessoas estão acostumadas a olhar para as outras e a sorrir e a olhar pro outro lado e a pegar puxar uma conversa a toa com um completo estranho. Por isso aquele homem vestido exoticamente com um macacão verde de nailon, um cachecol vermelho do Manchester, uma cartola e um par de botas de couro e de bico fino dessas de caubói deve ter se sentindo meio em casa ao ver alguém que, assim como ele, olha para os lados. Então ele veio falar comigo. Eu estava sentadinha num banco de um parque pensando como aquele lugar era bonito e triste e que eu nunca ia entender nada sobre essa cultura que começava a aparecer diante de mim.

Foi assim que conheci W., o braço direito do candidato à presidência derrotado nas eleições de um país africanoexilado político em Honk Kong desde então. Para continuar vivo, W. teve que deixar sua terra do dia para a noite para viver em outra que não entende e nem conhece.

Ele agora vive numa terra em que muita gente pensa que a África é um país só e que lá só há pessoas que moram em tribos, andam seminuas e tocam tambores. Ele vive numa terra em que as pessoas não entendem muito bem que um africano pode ser um engenheiro, um político, um antropólogo, pois estão condicionadas a pensar que todos os africanos que não são presidentes ou assessores dos presidentes são retirantes miseráveis. (Na verdade, quase todas as pessoas do mundo pensam isso).

Como W. é refugiado político, ele não pode exercer nenhuma atividade remunerada, o que tornam as coisas ainda mais difíceis. Ele vive com uma mesada que o governo de HK paga a todos os refugiados. Seu passaporte fica retido e ele não pode sair daqui. Para não ficar louco, lê muito e frequenta aulas em uma universidade chinesa aqui em Hong Kong. Depois de três anos, já se diz mais acostumado com a vida aqui.

Mas tudo é temporário. W. quer morar em qualquer outro país e está fazendo de tudo para que a ONU aceite. Mas a ONU só vai aceitar se ele se casar com alguém de outra nacionalidade ou então se alguém de outra nacionalidade se responsabilizar financeiramente e juridicamente por ele. Sozinho, com as suas próprias pernas, não lhe deixam. Obviamente, W. quer voltar para seu país. Mas isso só pode acontecer quando o atual presidente, que está há 23 anos no poder, não for mais presidente.

Em Hong Kong, W. vive num apartamento alugado em que, para passar do quarto para o outro cômodo que é a cozinha e o banheiro ao mesmo tempo, precisa afastar a cadeira e passar de lado. Sua casa é milimetricamente organizada. A cama ocupa mais ou menos 80% do espaço. É coberta por um pano estampado africano. Ao longo da janela, por cima da cortina, estão penduradas gravatas, gravatas, bonés, ternos, camisas e chapéus. Em frente da cama há um guarda-roupas e um móvel com computador, uma televisão pequena, internet de banda larga e um som. No móvel que fica ao lado da sua cama há fotos da sua ex-mulher e dos seus filhos, muitos Cds e livros de política e antropologia. A cozinha tem uma pia, um fogageiro embaixo e, do lado esquerdo, uma privada e um chuveirinho.

W. já escreveu um livro sobre sua história e atualiza notícias, comentários e vídeos no seu blog. Lá em Kampala ele tem uma escola. Foi toda construída durante seu período de exílio. O projeto já estava pronto e ele conseguiu apoio de uma ONG sediada em Hong Kong, que mandou de contêiner tudo que a escola precisava. O contêiner chegou lá e seu irmão está cuidando de tudo. As aulas vão começar este ano. W. acompanha tudo pelas fotos e fica emocionado em perceber, mais uma vez, como tudo sempre está em movimento, não importa onde as pessoas estejam.

Ele tem um irmão que vive nos Estados Unidos. É piloto, tem greencard. Nas penúltimas eleições presidenciais dos Estados Unidos, ele era o piloto de John Carry.

W. conta que não queria se meter na política, mas não teve jeito. Sua mãe morreu assassinada por causa de política. Ele e seus irmãos foram criados por uma tia que eles chamam de mãe. Ele não achava certo ver as coisas indo muito erradas e ver gente do seu povo a viver mal e a passar fome e ter um presidente que resolve seus problemas matando seus adversários políticos.

W. tem certeza de que, em breve, a situação vai melhorar. Aí, ele vai, finalmente, poder voltar à terra que nunca desejou ter saído. Ele acredita tanto nisso que todos os dias carrega a passagem aérea – de ida e de volta – que lhe trouxe até aqui.