Posts Tagged ‘felicidade’

O filme da lua no cinema longe

01/07/2010

Quando a cabeça e o corpo não precisam se ocupar de nada que é necessário, sobra todo o resto das coisas para se fazer. Esse todo resto das coisas de ontem foi ver o filme da lua no cinema longe.

A lua nasce sempre uma hora depois do dia anterior. Então, como antes de ontem ela nasceu às vinte uma e tal, bem na hora da quermesse, significa que ontem ela apareceria umas vinte e duas e tal.

Antes do filme da lua começar, teve o filme das estrelas. No mundo do Mwanito, Jerusalém, inventado pelo Mia Couto, as estrelas foram furadas pela espingarda do Zacarias Kalash. Mas e aqueles borrões brancos que não são um único furo, mas um conjunto de milhões deles, que formam um tecido que só enxergamos quando não tem luz da lua nem luz da cidade? Não sei bem o que eles são, se são os furos da espingarda ou se foram os estragos de uma granada. Mas são bonitos.

Por quase uma hora, o carro subiu a serra, guiado por aqueles farois que iluminavam dramaticamente as árvores retorcidas, as corujas, o condomínio de pedras, os mata-burros, as porteiras. Lindo mesmo era quando os farois eram colocados para dormir no meio da estrada. E aí ficávamos só nós dois, meu pai e eu, escutando o silêncio.

O cinema é a casa do Creuso e da Aline, lá no alto, no meio do nada. É uma tela gigante, 3D, acho que deve ser até 4D. Dá para ver a imensa Delfinópolis lá embaixo e, pela ausência de luzes, dá para imaginar onde está a represa. Dá para ver também como o céu é preto, e não rosa, como a gente enxerga em São Paulo. E como o vento é frio. Dá para ver um chuveiro que nunca desliga com uma botina tomando banho. Lá por detrás dos morros, do outro lado, começa a ficar claro igual o dia raiando. Mas ainda não é o sol do dia. É o sol da noite. Esse sol da noite deixa visível as silhuetas dos morros e das árvores, mas não os detalhes das coisas. Ver à noite é um jeito diferente de ver de dia: existe só o escuro e o claro, nada mais. Depois que as silhuetas aparecem, vem a lua, toda brilhosa, meio cor de caramelo, ofuscando o brilho das estrelas furadas pelas espingardas. O filme foi tão bonito que eu desci a serra na companhia do meu pai e da Billie Holliday já dormindo, com aquele sacolejo bom das estradas de terra.

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Doutor da alegria

18/09/2009

Era uma vez um cara que queria ser ator e que passava os dias tentando convencer os diretores de elenco de que ele era bom no que ele fazia. Um belo dia, ele foi morar nos Estados Unidos, conheceu umas coisas novas e voltou com a ideia fixa de que palhaços e hospitais tinham tudo a ver e que juntar esses dois elementos podia fazer as pessoas mais felizes.

No começo ninguém entendia nada daquilo. Nem ele. Ele não conseguia explicar muito bem porque aquilo seria bom para todo mundo. Ele tinha apenas uma certeza muito grande de que aquilo era a coisa certa a se fazer e continuou seguindo adiante. Começou a bater à porta dos hospitais para tentar convencê-los de que isso seria bom para todo mundo e começou a bater à porta das empresas pra tentar convencê-las a dar dinheiro para um ator que queria fazer umas palhaçadas nuns hospitais. Todos eles faziam muitas perguntas. Em vez de tentar explicar, ele começou a fazer. E todo mundo foi entendendo melhor.

Todo mundo entendeu tão bem como isso faz sentido que hoje o Doutores da Alegria é uma instituição mega conhecida que faz um trabalho bem lindo e que faz a vida de muita gente melhor por meio do riso.

Imagina se esse cara, o Wellington Nogueira, tivesse deixado pra lá essa sua vontade de juntar palhaços com hospitais e tivesse continuado a ser ator, que era o caminho normal que as outras pessoas faziam. Ele talvez tivesse alcançado algum sucesso. Ou então sua carreira poderia ter sido um fiasco e ele tivesse decidido abrir uma pastelaria. Talvez tivesse virado um astro da televisão. Não dá para saber. Provavelmente teria sido um ator como tantos outros. Meu palpite é que, se ele não tivesse seguido sua intuição, não teria feito tanta coisa legal na vida assim.

É por isso que eu quero continuar fazendo as coisas que eu acredito que são as certas para mim. Pode não dar certo. Mas também pode dar. E provavelmente vai ser bem mais divertido.

Eu to bem, e você?

17/06/2009

Eu não tenho carteira assinada, não tenho Ipod, nem tapete no chão gelado de cimento queimado, nem a mesa legal que compramos juntos. E nem outras coisas mais. E, a partir de hoje, nem som no carro, pois alguém fez o favor de entortar a porta do pobre do corsinha e levar o som, alguns cds e o controle remoto do portão. Mas tudo bem. O mecânico colocou a porta de volta igual médico coloca de volta braço de criança quebrado, assim no tranco, de uma vez.

Eu não tenho essas coisas e tenho pouco dinheiro, mas tenho uns frilas, tenho tempo livre, tenho minha casa de volta, assim meio transformada, tenho uma roomate e tenho a Olga, que dorme em cima de mim. Se bem que ultimamente ela decidiu que quer acordar às 3h da manhã e fica me chamando para acordar com a patinha toda delicada no meu ombro. Aí eu coloco ela pra fora do quarto e fecho a porta, só que às vezes o sono se perde no meio dos pensamentos que acordam. Eu também virei dona do meu tempo e posso ir ao mercado às 11h30, quando só existem velhinhas desocupadas que gastam horas na fila do açougue fazendo um monte de exigências ao pobre do açougueiro, como o tamanho dos pedaços dos cubos, o número de vezes que tem que moer a carne e o tipo de bandeja e de plástico que envolvem a carne, e ficam me dando dicas das marcas que elas gostam, das que são caras e das novidades. Eu continuo indo na terapia e tendo sonhos auto-explicativos. E agora gosto de correr, além de fazer yoga. Também posso viajar durante uma semana inteira.

E a minha amiga C. voltou da China ontem e, além dela, por aqui tem bué de amigos que me divertem sempre e me fazem ter sempre certeza de que ter amigos é umas das coisas mais legais que existem na vida. Quando eu penso isso fico com saudade de um monte de amigos de Angola.

Agora que eu to fazendo todas essas coisas normais que eu acabei de contar, voltei a ter vontade de ler e continuo com vontade de escrever. E, como tenho algum tempo livre, eu escrevo e me divirto com isso.

E agora que eu gosto de escrever e escrevo e gosto de ser dona do meu tempo e sou e gosto de Angola e fui morar lá, parece que só dá mais vontade de ficar fazendo as coisas que eu gosto mesmo, mas gosto de verdade. E as coisas que eu gosto ou foram mudando ou foram ficando mais claras nos últimos tempos. E as que eu não gosto também. Por isso está me dando uma vontade de trabalhar com outras coisas que não sejam as redações, essas que existem por aí e que tanto sugam e envelhecem e emburrecem as pessoas.

Que legal. Acho que estou feliz.