Posts Tagged ‘futuro’

o grito

17/09/2010

Outro dia sonhei que era uma mochila, acordei chorando e senti saudade do que está por vir. No hotel globo, minha nova provisória casa, na rua rainha ginga, número 100, baixa de luanda, tudo está tão fora do lugar que de repente tudo se encaixou. E fez-se a paz dentro do caos. Não dá para explicar nem pra entender. O Mia Couto tem mesmo razão: a vida a gente só sucede quando a gente não entende.

Águas da Ilha

07/12/2009

Essas águas são as mesmas que banharam as terras que minha bisavó nasceu, que minha avó e seus nove irmãos nadaram enquanto na terra não havia estrada nem carros e quase não havia casas, apenas a delegacia, a igreja, o pontão e uma ou outa coisa. Eles comiam pão quente com manteiga no pontão e as águas eram bem pouco iluminadas, pois a cidade que ficava do outro lado do canal era ainda pequenina. São as águas que meus avós olharam quando namoravam, que meu pai brincou com seus montes de primos na praia que antes do porto tinha uma areia comprida na frente, que meus pais que meus avós olharam quando namoravam.

São as mesmas águas calmas que eu aprendi a nadar, que meus irmãos aprenderam a nadar e que à noite ficam brilhantes por causa dos plânctons.

São essas águas que me revitalizam carregam as baterias pelo menos uma vez em cada mês, sobre as quais eu me deito e olho o céu e os morros. Os morros têm cada vez mais casas.

Essa é a água mais familiar que eu conheço. É a água que eu poderia chamar de casa, se desse para chamar alguma água de casa. Ou de mãe.

Feliz aniversário

16/10/2009

eu cega

No mesmo dia de hoje, mas no ano passado, eu vestia uma calça laranja e uma blusa azul de bolinhas brancas com um laço nos ombros, arrastava uma mala com umas roupas e uns pertences e uma rodinha a menos e me preparava para ir para esse lugar sem volta chamado Angola. Não dava nem para chorar, só dava para ter pressa, pois eu estava bué atrasada e tive mesmo que correr.

De repente eu estava lá, dentro daquele avião, entre um consertador de ônibus evangélico e um menino estranho com cabelos encaracolados com uns óculos enormes. Eles também haviam deixado tudo para trás.

Deixar tudo para trás é difícil.

O que será que eles estavam sentindo? Será que tinham esposas? Filhos? Havia uma separação anunciada? Iriam virar sócios de uma empresa? Tinham medo de se apaixonar por alguém? De apanhar paludismo? De fazer um filho? Será que eles iriam odiar tudo aquilo? Ou se atirar lá do alto e fazer com que cada instante daquela existência longínqua e inexplicável os marcasse para sempre? Será que eles achavam que tudo ia voltar para o mesmo lugar quando eles voltassem, como eu achava?

Nada voltou pro seu lugar depois desse dia.

Ainda bem.

Por muito tempo, eu fiquei tentando caber num lugar que não era meu. Era um esforço danado ter que ficar se encaixando nos planos que eu mesma fazia para mim. Um dia, quando eu achava que estava tudo encaixadinho, apareceu uma dor de cabeça que não parava nunca. E aí eu pifei. No começo eu não entendi muito bem por que. Demorou para eu descobrir que o que estava errado eram os planos que eu fazia para mim mesma, que atropelavam meus sentimentos, meus instintos e minha essência. Essas coisas todas que existem dentro do nosso peito e que a gente nem sabe dar nome direito têm uma potência mais avassaladora do que conseguimos imaginar ou controlar.

Deixar coisas importantes para trás e embarcar nesse avião sem volta foi a materialização de uma mudança profunda em mim, que começou a ganhar corpo talvez um ano antes.

Decidir embarcar nesse avião foi difícil, talvez a coisa mais difícil que eu já tenha decidido. Só que, ao mesmo tempo, também era como se nem fosse uma decisão. Eu sentia que era o único caminho possível. Era o meu caminho. Embarcar nesse avião era apenas se apropriar do que já era meu. E eu me apropriei da forma mais sincera e intensa que eu pude.

Nunca vivi tanto, chorei tanto, senti tanta saudade, me desiludi tanto, aprendi tanto, mudei tanto, me diverti tanto, dancei tanto, visitei tantos lugares, conheci tanta gente, me apaixonei tanto pela vida. Nunca escrevi tanto. Nunca tive tanta sede. E nem tantos projetos. Meus projetos. Apesar de ter ficado tanto e tantas vezes sem rumo, nunca me senti tão no rumo certo e nem tão preparada lidar com todas as coisas monstras que vão aparecendo pela frente.

Hoje, consigo aceitar melhor que, para mim, talvez tudo esteja no lugar quando está fora do lugar. Que alguns lugares marcados não me servem. Tenho medo? Um monte deles. Mas, quando vou dormir, não sinto aquela dor de cabeça enlouquecedora. E me divirto bem mais.

Feliz aniversário, Ju.

Se desse

22/09/2009

Se desse, eu iria agora mesmo para fora de mim ou para o futuro para saber se continuo fazendo tudo isso ou se tá tudo muito errado.

Mas como não dá, eu vou seguindo em frente fazendo essas coisas que minha intuição acha que são as certas.

Porque eu já fiz demais o que o senso comum dizia que era certo e, de repente, estava tudo muito distante do que eu acreditava e eu fiquei infeliz.

Mas é que esses dias eu ando muito sensível e o que as pessoas dizem estão me fazendo refletir. E algumas me disseram que nunca me viram assim e, apesar de eu não ter entendido tão bem como é o assim, eu fiquei preocupada comigo mesma.

Mais velha

04/09/2009

Bolo, macarronada, vinho, família vazia, amigos imaginários, chuva, festa, amigos reais, macarronada, roupa nova, flores, caipirinha, mojito, ano novo, risadas.

Eu hoje sou mais velha do que eu era ontem. E tenho ressaca por causa disso. E por isso ainda não vou conseguir escrever sobre todas as ideias bonitas que eu refleti na terapia (e depois dela) sobre o aniversário, o últim ano que parece última década, o próximo ano e a vida.

Festa de criança

30/08/2009

festa criança

Essa tarde fui transportada para o futuro. Um futuro que eu não sei dizer muito bem a quanto espaço está de mim.

Nesse tempo que eu fui parar só se fala de um único assunto, a todo o tempo, sem parar. E esse assunto deve mesmo ser uma delícia de falar, pois os adultos me parecem sempre sorridentes, orgulhosos, harmônicos e bem dispostos, a despeito de tanto trabalho. Só que me parece também que os adultos, nessa fase da vida, começam a usar roupas de adultos e também ganham barrigas e penteados de adultos que eu acho bué estranho.

Nesse tempo não da para sair andando sem olhar para o chão, pois ou tem comida esmagada em cantos que você nem entende como elas foram parar lá, ou brinquedos que os pais compraram e os filhos nem entendem o que são ou crianças se embrenhando feito gato pelos cantos.

Tem também aqueles passos fofos descoordenados com aquelas pernas roliças que dá vontade de morder, aquelas roupas lindinhas em miniaturas que em frações de segundo se sujam de papa de manga, areia, canetinha barata de um real comprada na 25 de março, tinta guache e baba. Por falar em baba, não sei se quem baba mais são os bebês ou os pais dos bebês.

E nesse tempo também tem essa decoração engraçada: balões de gás hélio pregados com fita crepe no teto, docinhos deliciosos espalhados por vários cantos diferentes nos quais é proibido tocar até o parabéns pra você autorizar e um bolo enorme que fica bem no centro da mesa desde o começo da festa.

E tem esse ar gostoso de família se formando, de coisas começando, de sonhos acumulados de várias gerações, de esperança de que tudo vai ser sempre inocente, cheirosinho e cativante como esses serzinhos que saem dos nossos ventres.

Isso não é nada fácil

25/07/2009

Ser mulher é muito difícil. Tem esse negócio de tpm, de depilação, de querer ser mãe e dona de casa e ao mesmo tempo e ter que provar pra ela mesmo e pro mundo como ela pode ganhar o mundo, tem essa coisa da idade biológica, tem esse sonho de casar e ser feliz para sempre e bué de outras coisas difíceis. E tem também essa coisa que sempre acontece na hora que uma mulher ficar com raiva ou triste que, em vez de ela dizer o que ela gostaria de dizer, ela diz exatamente o oposto — e espera que o outro entenda a mensagem oposta, e não a que ela disse. Aí o outro não entende ou faz que não entende e ela fica frustrada — primeiro com o outro, que é um insensível, depois consigo mesma, porque mais uma vez ela se embaralhou toda.

O canto e o tempo de cada um

19/07/2009

Os planos são novos, foram moldados à força porque a vida é imprevisível e os caminhos mais certos podem ruir totalmente em minutos. Ou em um segundo. Porque isso acontece todos os instantes com alguém em algum lugar do mundo.

Com planos novos (ainda que bem incertos e confusos), a vida parece ser nova também. Mas a casa ainda é a antiga e a vista ainda é essa mesma aí de cima. E, para ela virar uma nova casa no mesmo endereço, isso demora um pouco. É uma transformação lenta, como a transformação das pessoas. A casa nova tem que nascer, as coisas que estão dentro precisam encontrar os seus novos lugares. A casa é uma metáfora de nós mesmos. Ela precisa de tempo para que os móveis e as energias entendam onde têm que ficar.

O escritório não é mais escritório, virou um quarto. E a TV de repente ficou sem quarto. E a casa ficou sem TV, porque a fonte queimou. Aí a TV voltou e ela não sabia muito bem se devia morar no novo escritório ou na nova sala, que na verdade quase nem é nova, só tem o chão mais gelado porque sente falta de um tapete, também não tem ipod e nem som e nem uma mesa bem descolada que ficava ali. Também tem um ou dois quadros a menos, mas em compensação ganhou uns apetrechos do mundo — uma máscara africana a mais, um pano lindo de Côte de Ivoire, uma mulher do Vietnã desenhada num fundo vermelho e uns pôsteres da China que ainda estão enrolados, mas um dia ficarão emoldurados e pendurados na parede.

A TV inicialmente queria ir para o escritório novo, afinal, ela sempre tinha morado no escritório. O escritório novo, por enquanto, não tem um tampo legal, apenas os cavaletes. O tampo é de compensado, mas vai virar uma obra de arte e vai ficar tão legal quanto o lagarto de madeira e colagens que fica também na sala.

Mas a TV não se mudou para o novo escritório nunca. Porque eu ainda estou me reacostumando com a rotina e com os espaços e com os vazios na casa. Aí entendi que, agora que muitas vezes estou sozinha, talvez ela me faça mais companhia na sala do que no escritório. Pronto, isso mesmo. Arrumei uma mesinha para ela morar, mudei a cubana e o cacto de lugar, empurrei o sofá e as coisas reencontraram seu novo lugar. Aos poucos as coisas vão se renovando.

Incapaz

11/07/2009

Hoje saí de casa para ir comprar um Nextel. Fui convencida de que o custo benefício de um nextel, no meu caso, é melhor do que ter um celular das outras operadoras. Mas aí saí da loja sem o raio do telefone. O motivo? O vendedor me falou que eu teria que assinar um contrato de um ano e que, se rescindisse antes disso, teria que pagar uma multa que começa em 700 reais e depois vai decrescendo.

Pode parecer idiota, mas eu me senti totalmente incapaz de assumir um compromisso de ter de ficar no mínimo um ano em São Paulo. Simplesmente não consegui, travei.

Ai, meu santo deus, na próxima encarnação eu quero nascer com uma mente mais equilibrada e/ou com os planetas dispostos de um jeito mais harmônico no meu mapa astral. Ninguém merece tanto conflito numa única cabecinha.

O tempo dentro e fora das pessoas

24/05/2009

Quando eu vi uma amiga que eu não vejo faz uns meses dentro de umas fotos, mais uma vez eu percebi uma coisa que eu adoro perceber: que o tempo que existe nos relógios e nos calendários tem pouca ou quase nenhuma ligação com o tempo de cada pessoa.

Para mim, era como se aquelas fotos estivessem no futuro. Não soube dizer muito bem o que estava diferente: se eram seus olhos, suas expressões, seu semblante ou um pouco de tudo. Mas o fato é que estava nítido que nesses poucos meses do tempo dos calendários e relógios minha amiga havia envelhecido vários anos. Ela estava diferente e eu soube disso mesmo sem enxergá-la ao vivo. Quando fui falar sobre isso com ela, ela me disse que via a mesma coisa quando se olhava no espelho.

Aí eu não sei se cheguei a comentar para ela ou não que eu também tinha exatamente essa mesma sensação de ter envelhecido anos em meses. Olho para o espelho e vejo isso. Minha terapeuta me disse isso no primeiro instante, só de me olhar sentada na frente dela. As pessoas me encontram e me falam como estou mais magra e mais cabeluda. Mas a verdade é que estou mais magra, mais cabeluda e mais velha. Sei que se eu reaumentar meus quadris e minhas coxas e voltar o cabelo para como era antes, não serei mais a mesma Juliana. Meu tempo de dentro avançou vários anos.