Posts Tagged ‘Hong Kong’

Hong Kong é no Ocidente

20/04/2009

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Um mês e pouco atrás, quando meus olhos pisaram pela primeira vez em Hong Kong, eles acharam as letras, as línguas, os gestos, os códigos, as comidas e os cheiros bem esquisitos e diferentes de todas as referências passadas. Sim, eu estava na Ásia e todas aquelas coisas desfamiliares me diziam isso. Agora, depois de ter andado um pouco por aí (um pouquinho que não é quase nada para o tamanho e a variedade da Ásia), meus olhos voltaram novamente a pisar em Hong Kong ontem a noite.

Eu sabia onde era a fila da imigração, que para chegar na Nathan Road era só pegar o ônibus A21 que custa 33 hkd, sabia até onde era a bilheteria e mais ou menos onde o ônibus ia parar. Acertei até o ponto que eu tinha que descer.

Ainda não me acostumei totalmente com os carros vindo na mão errada, mas já não pareço tão idiota atravessando a rua, já não me assusto mais que o albergue fica num prédio que tem escritórios baratos, putas, gatos passeando, encanamentos vazando, camelôs, as placas dizem um nome mas os nomes verdadeiros são outros. Já também nem me impressiono mais com a enxurrada de indianos e árabes que colam atrás de você te oferecendo suits, copy rolex, cheap hostel, já sei que é tudo bem comer no restaurante que tem patos e galinhas sem pele pendurados na entrada, já não fico mais tão confusa quando as pessoas furam a fila ou correm para pegar o assento do metrô porque sei que aqui é assim mesmo, é gente demais. Já sei comprar tiquetes de metrô com moedinhas, também sei que tem que guardar o ticket para liberar a catraca na saída e que quando não tem troco é só ir numa cabine que um funcionário troca o dinheiro pra vc, mas nao vende a passagem. Sei também que as roupas aqui são todas de marcas, lindas e caríssimas.

Em Hong Kong não preciso comer só soup noodles, pois tem queijo feta ou outros queijos, massa e um starbucks em cada esquina. Não preciso fazer mímica igual louca. Não preciso comer na rua e nem sentar em mini bancos e nem ir em restaurantes que são também salões de beleza ou a casa das pessoas. Em Hong Kong quando eu saio de havaianas na rua me sinto maloqueira. Em HK as pessoas não param para tirar foto de mim e as placas são te ensinam a fazer tudo sem dificuldade.

Nossa, tudo está muito familiar aqui para mim. Hoje, Hong Kong para mim está no Ocidente.

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O segundo ano novo do ano

06/04/2009

Aterrisei em Bangkok sem saber direito que vai acabar o ano taildandes e comecar o proximo.  Sem querr, vim parar no periodo mais festeiro do pais. Eu tava mesmo precisando de um ano novo, pois nesse que comecou ja aconteceu tanta coisa que ja ta na hora de acabar.

Bangkok para minha irma, que vive na linda, loura e desenvolvida Perth, na Austrlia, foi um choque cultural. Para mim, que vim de Angola, Africa do Sul, Hong Kong e China, mudaram as letras do alfabetos e os cheiros das ruas, mas tudo parece familiar.

To a sentir saudade do meu computador, que ficou la na china. Agora tenho que blogar do cyber cafe, snif snif. Amanha vamos para praias paradisiacas no sul do pais e depois iremos para cambodja e vietnan. Ainda nao sabemos onde o ano vai virar. So sei que tirarei uns dias de ferias desses computadores de cyber caf e fofocarei por muitas e muitas horas com minha irma. see you later.

As roupas e os cabelos

24/03/2009

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Os chineses entraram muito recentemente no mundo capitalista. Assim como em outros lugares urbanos, comprar parece ser a diversão mais frequente das pessoas aqui. Elas agora têm se esforçado muito pra se diferenciar uns dos outros com roupas modernas, enormes óculos escuros, novos celulares, acessórios descolados, carros enormes.

Só que a  impressão que eu fiquei é que tudo ainda é muito recente e eles ainda não sabem muito combinar tantos acessórios de um jeito que fique estiloso. Ao contrário de Hong Kong, em que todo mundo é fashion, descolado, hype, moderno e cosmopolita, aqui na China as pessoas estão sempre com um ar meio brega. Salvo raras exceções, as roupas todas parecem ser meio vagabundas e mal costuradas, as calças parecem sempre estar um número maior ou menor, a meia calça não combina com a bermuda, o óculos não combina com o chachecol, a estampa é terrível e a tentativa de ser moderno não funcionou.

A grande exceção desse ar meio cafona são os cabelos das pessoas. Os cabelos, na maioria das vezes, são lindos, originais, modernos, autênticos, diferentes uns dos outros, estilosos. Os chineses e as chinesas se preocupam demais em cuidar bem dos cabelos. Estão sempre pintados, encaracolados, amarrados, repicados, renovados, globalizados.

Mais Hong Kong by night

19/03/2009

Não parece Luanda?

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Referências

19/03/2009

Não entendo nenhum gesto, nenhuma símbolo, nenhuma palavra. Tem umas esculturas bonitas e um senhor que passa vagarosamente na frente de cada uma delas e se apoia, melancolico, sobre cada uma, como se estivesse fazendo uma reverência. Bem ao lado tem um senhor de camisa, gravata e calça social arriada fazendo esses movimentos lentos de tai chi chuan. Imediatamente me lembro quando jogava volei no clube Pinheiros no ginásio polesportivo e, junto com minhas amigas ricas que hoje devem estar todas casadas ou bem empregadas ou com filhos, ficava morrendo de rir dessas pessoas que de descolavam do tempo e faziam esses gestos lentos na frente de todo mundo.

Um senhor de terno e gravata fazendo alongamento no meio do parque não tem muito a ver com minhas referências. Nada tem a ver com minhas referências e talvez seja por isso que minha referências da infância ficam aparecendo tanto na minha frente.

Abri um chocolate que me lembrou o formato do chocolate Supresa, esses que vinham com um cartão com um pássaro ou um mamífero e as crianças podiam colecionar.

Vi um casal bem velhinho com uma filha louca sentados num banco e imediatamente pensei na minha avó, meu avô e minha tia Eliana. A dinâmica da família parecia exatamente a mesma, só que com outros códigos. O casal, mesmo já bem idoso, queria cuidar da filha que não tinha juízo na cabeça. E a filha tentava usar todo o seu juízo para cuidar de seus pais idosos. Ela ajudava seu pai a levantar e sua mãe a andar. Nesse equilíbrio instável e carinhoso eles brigavam, gritavam, se beijavam. Depois foram embora.

Esse lugar é triste. Ou eu entendo tão pouco desse lugar que o acho triste. De noite, com tantas luzes e gente nas ruas, parei de achar esse lugar triste.

Boa noite!

18/03/2009

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Passei o começo da noite num mercado a céu aberto perto dessa foto comendo arroz com camarões com um africano e um neozelandes que vende painéis solares. Tomorrow, China!

Boa noite.

Passeio no parque

18/03/2009

Passei horas aqui hoje tentando entender essas esculturas, as pessoas de gravata praticando tai chi chuan e esses olhares tristes e difusos das pessoas.

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De África para Hong Kong

18/03/2009

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Nem aqui do outro lado do mundo a África se distancia de mim – ou eu me distancio dela. Eu não tenho cara de africana, mas venho de um país em que as pessoas estão acostumadas a olhar para as outras e a sorrir e a olhar pro outro lado e a pegar puxar uma conversa a toa com um completo estranho. Por isso aquele homem vestido exoticamente com um macacão verde de nailon, um cachecol vermelho do Manchester, uma cartola e um par de botas de couro e de bico fino dessas de caubói deve ter se sentindo meio em casa ao ver alguém que, assim como ele, olha para os lados. Então ele veio falar comigo. Eu estava sentadinha num banco de um parque pensando como aquele lugar era bonito e triste e que eu nunca ia entender nada sobre essa cultura que começava a aparecer diante de mim.

Foi assim que conheci W., o braço direito do candidato à presidência derrotado nas eleições de um país africanoexilado político em Honk Kong desde então. Para continuar vivo, W. teve que deixar sua terra do dia para a noite para viver em outra que não entende e nem conhece.

Ele agora vive numa terra em que muita gente pensa que a África é um país só e que lá só há pessoas que moram em tribos, andam seminuas e tocam tambores. Ele vive numa terra em que as pessoas não entendem muito bem que um africano pode ser um engenheiro, um político, um antropólogo, pois estão condicionadas a pensar que todos os africanos que não são presidentes ou assessores dos presidentes são retirantes miseráveis. (Na verdade, quase todas as pessoas do mundo pensam isso).

Como W. é refugiado político, ele não pode exercer nenhuma atividade remunerada, o que tornam as coisas ainda mais difíceis. Ele vive com uma mesada que o governo de HK paga a todos os refugiados. Seu passaporte fica retido e ele não pode sair daqui. Para não ficar louco, lê muito e frequenta aulas em uma universidade chinesa aqui em Hong Kong. Depois de três anos, já se diz mais acostumado com a vida aqui.

Mas tudo é temporário. W. quer morar em qualquer outro país e está fazendo de tudo para que a ONU aceite. Mas a ONU só vai aceitar se ele se casar com alguém de outra nacionalidade ou então se alguém de outra nacionalidade se responsabilizar financeiramente e juridicamente por ele. Sozinho, com as suas próprias pernas, não lhe deixam. Obviamente, W. quer voltar para seu país. Mas isso só pode acontecer quando o atual presidente, que está há 23 anos no poder, não for mais presidente.

Em Hong Kong, W. vive num apartamento alugado em que, para passar do quarto para o outro cômodo que é a cozinha e o banheiro ao mesmo tempo, precisa afastar a cadeira e passar de lado. Sua casa é milimetricamente organizada. A cama ocupa mais ou menos 80% do espaço. É coberta por um pano estampado africano. Ao longo da janela, por cima da cortina, estão penduradas gravatas, gravatas, bonés, ternos, camisas e chapéus. Em frente da cama há um guarda-roupas e um móvel com computador, uma televisão pequena, internet de banda larga e um som. No móvel que fica ao lado da sua cama há fotos da sua ex-mulher e dos seus filhos, muitos Cds e livros de política e antropologia. A cozinha tem uma pia, um fogageiro embaixo e, do lado esquerdo, uma privada e um chuveirinho.

W. já escreveu um livro sobre sua história e atualiza notícias, comentários e vídeos no seu blog. Lá em Kampala ele tem uma escola. Foi toda construída durante seu período de exílio. O projeto já estava pronto e ele conseguiu apoio de uma ONG sediada em Hong Kong, que mandou de contêiner tudo que a escola precisava. O contêiner chegou lá e seu irmão está cuidando de tudo. As aulas vão começar este ano. W. acompanha tudo pelas fotos e fica emocionado em perceber, mais uma vez, como tudo sempre está em movimento, não importa onde as pessoas estejam.

Ele tem um irmão que vive nos Estados Unidos. É piloto, tem greencard. Nas penúltimas eleições presidenciais dos Estados Unidos, ele era o piloto de John Carry.

W. conta que não queria se meter na política, mas não teve jeito. Sua mãe morreu assassinada por causa de política. Ele e seus irmãos foram criados por uma tia que eles chamam de mãe. Ele não achava certo ver as coisas indo muito erradas e ver gente do seu povo a viver mal e a passar fome e ter um presidente que resolve seus problemas matando seus adversários políticos.

W. tem certeza de que, em breve, a situação vai melhorar. Aí, ele vai, finalmente, poder voltar à terra que nunca desejou ter saído. Ele acredita tanto nisso que todos os dias carrega a passagem aérea – de ida e de volta – que lhe trouxe até aqui.

Wo ia tsi (ou as primeiras impressões de Hong Kong)

17/03/2009

Nas ruas só existem lojas, vitrines e letreiros, tudo muito moderno. Os carros andam na mão errada. As pessoas falam em línguas estranhas e eu fico sem saber se é só uma língua ou são dezenas. Nas vitrines dos restaurantes tem uns patos, gansos e porcos girando inteiros naquelas grelhas e nas calçadas tem uns chinesinhos com cara de pobres descascando cebolas. As pessoas têm cara de bravas e não são simpáticas, ainda mais para quem estava morando em Angola e se acostumou a puxar papo a toa com todo mundo. Duas notas com o mesmo valor têm cores e aparências diferentes e eu fico sem entender nada. Eu compro as coisas com esses dinheiros de cores diferentes e não sei se estou gastando um ou dez dólares, pois não aprendi e em vou aprender a fazer o câmbio. Tudo isso dá um sentimento de solidão.

A internet sem fio do albergue funciona sempre e rápido. Ao desembarcar do avião, minha mala estava numa esteira que servia só para aquele vôo e ela já havia chegado antes mesmo de mim. Saí do aeroporto e havia placas informando como pegar o ônibus A21, que me levou até o albergue. O albergue custa 15 dólares. Aqui tem verduras. O visto para a China sai de um dia para o outro. Precisa só do passaporte, foto e pagar a taxa. Tudo é eficiente, e nesse ponto, sair de Angola dá até um certo alívio. Mas dá saudade.

O albergue da Mrs Lee fica num prédio comercial que tem outros albergues, consultórios, escritórios, lojas e outras coisas que eu não sei dizer muito bem o que são. Cada elevador leva para um grupo de andar diferente e as pessoas ficam alinhadinhas na fila esperando o seu chegar. O que eu tenho que pegar vai pro 5, 7, 13. Até às 20h30. Depois das 20h30 tem que pegar um outro que eu não entendi bem qual é. O quarto é tão pequenino que as duas caminhas ficam quase juntas. O fuso me deixa meio desorientada. Não deu pra dormir no aivão. Eu bem que tentei ocupar uma cadeira da primeira classe que estava vazia, mas a aeromoça me expulsou depois de menos de uma hora de sono. Mas tudo bem. Agora estou de férias.

Tchau, Ju!

16/03/2009

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Não tive tempo de ficar me programando para comer abacate todas as tardes para acumular energia e gordura para a viagem.

Não tive tempo de programar direito o que vou fazer daqui pra frente, muito menos de fazer um roteiro de viagem no Google maps.

Não tive tempo de visitar o Huambo, cidade que se transformou toda desde a primeira vez que eu a visitei, há quatro anos, quando ela ainda estava toda furada de balas da guerra.

Não tive tempo de fazer uma festona de despedida, dessas com comida e bebida a vontade, para reunir todos os tantos amigos que eu fiz em cada canto da cidade.

Não tive nem tempo de despedir de pessoas queridas.

Tive menos de 48 horas com a saúde se recuperando de uma crise de amidalite, com o estômago todo embrulhado por causa do antibiótico e com o coração totalmente despedaçado por ir embora tão de repente de um país que me acolheu tão bem para colocar minhas coisas na mala, dar tchau para alguns amigos mais próximos e entrar num avião para sair do país.

Não estou mais em Angola. Agora, vou perambular um pouco pelo mundo para tentar encontrar o caminho de casa. Estou em Hong Kong. Vou ficar vários dias na China na casa de uma amiga que é tão amiga que já é da família. Vou tomar vitamina, assistir tv largada no sofá, dormir um monte, jogar muita conversa fora, falar um monte de besteira, andar a toa na rua por um lugar em que não vou entender nada que ninguém diz, come ou faz. Depois vou andar pela Ásia na companhia da minha irmã que está construindo a vida dela na Austrália.

Esse blog vai continuar falando de mim, de Angola, da China, dos outros países que eu vou visitar e que ainda nem sei quais são, das dificuldades e facilidades e aprendizados que eu for tendo pelo caminho.

Assim que o susto passar eu conto um pouco sobre o que aconteceu lá em Angola. Não foi nada tão terrível assim. Foi só conturbado. Mas ninguém precisa ficar preocupado.