Posts Tagged ‘Ilhabela’

o mar que morre devagar

09/12/2011

 

Quem anda pela praia não vê mais concha. Quem vai pra Castelhanos encontra a praia cheia de lixo trazida pelo mar. Quem conversa com os pescadores escuta a reclamação de que não tem mais peixe no canal. Quem mergulha na praia do Julião vê que os corais estão doentes.
Nós deitamos nossos corpos saudáveis na areia cheia de cocô. Nadamos no mar em frente da placa vermelha denunciando “imprópria”. Pulamos um córrego que carrega esgoto como se ele não estivesse aí. Fingimos que está tudo bem. Afinal, queremos aproveitar nosso fim de semana, pois na segunda tudo recomeça. Não queremos enxergar que estamos matando, cada dia um pouco, o nosso mar.
Fantasiamos que o mar pode absorver todo o nosso lixo, o nosso descarte, o nosso descaso. Mas ele anda dizendo pra gente que não é bem assim. E a gente não tá escutando.

 

Está em andamento um projeto do governo do Estado São Paulo para ampliar o porto de São Sebastião, no litoral de São Paulo, e transformá-lo num movimentado terminal de navios de carga (leia mais aqui). Definitivamente, isso não está certo.

Uma viagem com outra viagem

21/08/2010

Foram 15 dias quase ininterruptos de lágrimas, uma espécie de funeral antecipado. Um enterro de uma vida que já não me cabia mais, mas que, até então, vinha sendo minha vida. E era boa a vida, por isso foi complexo e doloroso fácil me livrar dela.

Foi assim que, quase dois anos atrás, eu coloquei umas roupas, uns remédios e uns livros na mala e fui para Angola trabalhar, viver, me divertir, conhecer, me apaixonar, me transformar, me desconstruir.

Não foi fácil viver essa vida com dois chips que não conseguiam conversar. Era um eterno e doído cabo de guerra interno. E é em horas como essas que acontecem os rompimentos. Rompimentos de pessoas, de chips, de vidas passadas e presentes, de comportamentos, de sentimentos. O rompimento é difícil, pois somos acostumados aos padrões.

Mas depois dos rompimentos há as reconciliações. Elas podem demorar a aparecer, mas uma hora elas vêm e fazem os oceanos diminuírem, os opostos serem relativizados, as arestas serem aparadas.

***

E agora chega a hora de uma nova viagem, uma viagem importante, para esse mesmo lugar que eu fui depois do funeral antecipado, mas agora com um projeto que nasceu da minha própria cabeça e cresceu com minhas próprias mãos.

As lágrimas não existem, nem o funeral, nem a terapia, nem eu acho que vou ter que escolher entre uma coisa e o seu contrário, pois, dessa vez, me parece que está mais fácil conversar com todas essas julianas opostas que habitam meu coração.

Hoje, sinto que há apenas esse nervosismo bom que antecede uma partida e o cansaço de uma vida que anda agitada: o mudo infectado, a moto amarela circulando pelos ônibus e avenidas e fumaças da cidade, as pessoas novas, projetos virando gente grande, o retorno de saturno, o inferno astral.

E aí o melhor jeito que eu encontrei para me preparar para essa viagem foi fazendo uma outra viagenzinha lá para aquela ilha que tem cheiro de casa. Porque eu acho mais fácil de desligar me religando com a natureza, e lá na ilha dá para fazer isso.

Tentarei ficar um pouco quieta, concentrando as energias que dentro em breve serão ativadas com força máxima na cidade mais suave e frenética que eu conheço.

Boa viagem

24/06/2010

A Cecy foi uma avó completamente improvável. Não sabia cozinhar, fazia os piores bolos que eu já comi na vida – e os mais divertidos também. Fazia yoga quando as pessoas não sabiam o que era isso. Fez faculdade de educação física num tempo em que as mulheres nem terminavam a escola. Tinha uma mente tão criativa, mas tão criativa, que acreditava que seu filho havia nascido no mesmo dia que ela, apesar de ela ter parido um dia antes. Fazia obrinhas que sempre deixavam tudo pior, mais feio e menos funcional. Nadava tão bem que de repente estava lá no meio dos barcos, tranquila, de costas, com aquelas braçadas-motores. Fazia sua própria granola, muitas vezes com grampo de grampeador dentro. Vestia as netas com sacos de lixo no lugar de vestidos e as pintava com jeito de monstro e não de princesa. Subia no alto do abacateiro. Virava cambotas. Cambotas! Uma avó que vira cambotas! Fazia vestido de noiva com a cortina da janela. Entrou na faculdade da terceira idade com setenta e poucos anos. Na aula de dança com oitenta e poucos. Com essa mesma idade, colocava as palmas das mãos inteiras no chão com as pernas unidas e estendidas – algo que eu ainda não estou perto de fazer com três anos de yoga. Andava pelos corredores da casa imitando modelo. Gargalhava sempre e de tudo. Nunca reclamava de nada.

A vida, para a Cecy, não era boa. Era ma-ra-vi-lho-sa.

Mesmo depois que sua cabeça começou a se despedir do seu corpo, alguns anos atrás, a vida continuou ma-ra-vi-lho-sa. Os nomes das pessoas, as fisionomias, o cardápio do almoço e do jantar, os dias da semana, o caminho de casa, a ideia de passado, presente e futuro passaram a ser cada vez menos importantes. E foram dando lugar para bailes de gala com toda a alta sociedade. Colônia de férias nas vinícolas chinesas, que emendava com uma viagem pela África – imaginem, para a África – em meio àquelas pessoas pobres e àquela natureza exuberante. Depois apareciam os restos mortais de uma raposa dentro da sala da sua casa. E de repente era o momento de nervosismo, pois estava quase na hora da sua festa de noivado. Gravidez. Outra gravide z. Mais uma. Bicicletas compradas para as suas duas filhas Elianas. Ceias de natal em sua homenagem. Piadas, desfiles de moda. Um veio furunfunfeio saramacuteio que tinha uma balaio daio gurungundaio saramacutaio e um coelhinho dinho gurungundinho saramacutinho.

Enquanto as pessoas envelhecem definhando, enranzizando, se apequenando, se desmovimentando, minha avó Cecy envelheceu viajando. Até que, hoje, depois de andar de ônibus pela cidade com a Luzia, chegar em casa, fazer piada, tomar um banho e sentar para comer, seu coração parou de bater.

Outras linhas já escritas sobre minha avó Cecy

Minhas Férias

17/01/2010

Querido diário,

num momento de ócio num sábado à noite eu decidi fazer um videozinho tosco pra você entender um pouco sobre as minhas divertidas férias.

Pontos de vista

05/01/2010

manhã

tarde

noite

chuva

Águas da Ilha

07/12/2009

Essas águas são as mesmas que banharam as terras que minha bisavó nasceu, que minha avó e seus nove irmãos nadaram enquanto na terra não havia estrada nem carros e quase não havia casas, apenas a delegacia, a igreja, o pontão e uma ou outa coisa. Eles comiam pão quente com manteiga no pontão e as águas eram bem pouco iluminadas, pois a cidade que ficava do outro lado do canal era ainda pequenina. São as águas que meus avós olharam quando namoravam, que meu pai brincou com seus montes de primos na praia que antes do porto tinha uma areia comprida na frente, que meus pais que meus avós olharam quando namoravam.

São as mesmas águas calmas que eu aprendi a nadar, que meus irmãos aprenderam a nadar e que à noite ficam brilhantes por causa dos plânctons.

São essas águas que me revitalizam carregam as baterias pelo menos uma vez em cada mês, sobre as quais eu me deito e olho o céu e os morros. Os morros têm cada vez mais casas.

Essa é a água mais familiar que eu conheço. É a água que eu poderia chamar de casa, se desse para chamar alguma água de casa. Ou de mãe.

Sorrisos num domingo feliz

12/10/2009

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Cecy

01/10/2009

Quando desci lá na garagem para ajudar a descarregar o carro, em vez de dizer oi, minha mãe me disse: a tia Dedé morreu. Meu pai acabara de lhe dar a notícia. A tia Dedé não é minha tia, é tia avó, irmã da vó Cecy, casada com esse avô sobre o qual eu já escrevi um dia. É tia querida, mais de 90, gente sábia, amada e bué conhecida na Ilhabela. Conhecida dessas de aparecer nos livros e dar nomes pra ruas e escolas e ser homenageada no aniversário da cidade.

Eles eram dez irmãos. Sete mulheres e três homens. Os homens morreram todos, eles vivem menos, é assim mesmo. Acho que não aguentam. Sobraram as sete mulheres. A tia Dedé foi a primeira a partir. Aí é que dá tristeza, porque quando parte uma, é comum outas pessoas próximas irem junto.

Ainda mais essas irmãs. Elas são unidas como eu nunca vi. Mesmo agora que todas têm mais de 80 e vivem em várias cidades diferentes, elas sempre conseguem arrumar uma carona, um esquema, uma confusão para se reunirem nos aniversários, casamentos ou outras celebrações. Elas são todas lindas e alegres. Até mesmo as duas que parecem só estar aqui no corpo, pois as cabeças não funcionam mais, continuam lindas e alegres.

Uma dessas cuja cabeça não funciona mais é minha avó Cecy. Ela foi sendo desligada aos poucos por uma doença triste, que faz as pessoas esquecerem de tudo – do tempo, das pessoas distantes, das pessoas próximas, das obrigações, do dia e da noite. Parece que a única coisa de que ela ainda se lembra é que é sempre melhor ser alegre que ser triste. A fração da sua cabeça que continua plugada está sempre sorrindo, faz piada com sua voz que hoje é baixinha, mas que noutros tempos foi famosa por ser espalhafatosa, imagina galas, homenagens, casamentos, nascimento de filhos e outras coisas grandiosas, nunca desgraças e tristezas. Eu acho que isso é uma espécie de sabedoria.

Agora as sete irmãs estarão todas reunidas pela última vez. Amanhã, em Ilhabela. E eu estou com um nó na garganta danado. Pela partida da tia Dedé e pela família dela. Mas, mas principalmente, por estar pensando sem querer a partida da minha avó Cecy. Porque quando uma pessoa assim velhinha parte, acho que automaticamente nossas cabeças simulam a partida das nossas pessoas. Minha avó Cecy mora aqui do meu ladinho, perto mesmo. Eu posso até ir a pé, não dá nem 20 minutos. E eu to para passar lá para uma visita já faz cinco meses. E nunca passo, porque sempre invento para mim mesma que ela não vai se lembrar mesmo. Mas isso não ta certo. Nossa, queria ir lá amanhã.

Viagem introspectiva à casa da minha mãe

07/07/2009

Fim de semana na Ilhabela com tempo feio dá nisso.

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A luz do outono faz isso

24/05/2009

A luz do outono deixa o azul do céu azul nesse tom bem forte que eu adoro e deixa as cores dos matos e das águas de Ilhabela assim desse jeito colorido e cheio de detalhes nas sombras.

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