Posts Tagged ‘luanda’

O céu rosa, a chuva e o deserto

10/10/2010

Ontem o céu de Luanda estava rosa, exatamente como o céu de São Paulo. Cidade estranha essa que eu nasci, que não dorme nunca e tem céu cor de rosa, não negro. Aqui do outro lado do mar caíram pesadas gotas do céu rosa e os passos das pessoas inebriadas dançaram sensuais e molhados numa esplanada do Alvalade.

A chuva.

A chuva tem cheiro bom.

A chuva quando vem forte me lembra da minha casa da infância. Ela vinha e levava a energia embora e aí o grande acontecimento da noite era a família reunida em torno do acender do lampião que ficava guardado no alto da dispensa e desse jeito de andar devagar com a vela equilibrada no castiçal improvisado para não apagar o fogo. Íamos dormir mais cedo e mais felizes.

No deserto do Namibe, onde eu estava ontem, a chuva quase não vem. Lá a chuva é a areia, que também cai do céu também e deixa tudo monocromaticamente amarelado: os sorrisos, os telhados, as casas, as ruas, as frutas, as folhas das árvores, o peixe, até o próprio céu. O amarelo só acaba quando começa o azul das águas imensas e geladas do mar. O amarelo, o azul e o silêncio.

No deserto os olhos podem repousar e as ideias podem momentaneamente decantar entre um céu rosa e outro. Entre uma etapa e outra. Entre um e outro lado do mar. É, eu to com saudade de casa.

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30 dias, 30 anos

23/09/2010

30 dias completamente imersa num mundo ao mesmo tempo familiar e inexplicável. Quanto mais eu tento explicar, menos eu consigo entender. Quanto menos eu tento entender, mais eu gosto. A ideia nunca foi explicar mesmo. Foi falar sobre. E falar não é explicar. Falar sobre às vezes é só mostrar. Nem sempre as palavras são necessárias. Ou suficientes. É por isso que a arte e o silêncio existem.

Nesses 30 dias de quase 30 anos tenho procurado ouvir mais do que falar, conforme me aconselharam. Também tenho tentando estar o mais aberta possível ao acaso e ao que as pessoas têm a oferecer. E tenho feito malabarismos para equilibrar tantos sentimentos, personalidades, vontades e expectativas que me bombardeiam de todos os lados. Quanto mais cerebral, mais distante fico da minha busca. Quanto mais pretensão, menos conteúdo.

Se colocar na frente de uma pessoa com uma câmera ligada e, por uma, duas ou três horas, tentar entender um pouco do seu universo particular é uma experiência tão enriquecedora quanto extenuante. Cada pedaço de vida, cada pedaço de sonho, cada questionamento, descrédito e ou sentimento que as pessoas arremessam em mim me alimentam e ao mesmo tempo me consomem. No fundo o que eu quero é entender um pouco mais sobre mim.

To cansada. Exausta. Ao fim desses dias, certamente não entenderei mais sobre Luanda. Terei uma colcha de retalhos completamente subjetiva, íntima, pessoal sobre pessoas que ocupam um mesmo espaço geográfico, um espaço em que as emoções são catapultadas e obrigadas a circular mais intensamente. Faço o meu melhor, da forma mais sincera e feminina possível. É tudo o que eu tenho a oferecer.

o grito

17/09/2010

Outro dia sonhei que era uma mochila, acordei chorando e senti saudade do que está por vir. No hotel globo, minha nova provisória casa, na rua rainha ginga, número 100, baixa de luanda, tudo está tão fora do lugar que de repente tudo se encaixou. E fez-se a paz dentro do caos. Não dá para explicar nem pra entender. O Mia Couto tem mesmo razão: a vida a gente só sucede quando a gente não entende.

detalhe

07/09/2010

Luanda doce e silenciosa

04/09/2010

Luanda doce e silenciosa. É assim que hoje eu sinto essa cidade. Não sei se tem a ver com o lado de dentro ou com o lado de fora, pois tanto um quanto o outro se metamorfoseiam.

Eu ando na rua e só escuto o silêncio.

O silêncio das zungueiras. O silêncio das calçadas. O silêncio das motas que se multiplicam. O silêncio das gruas que verticalizam a cidade. O silêncio da brisa boa do fim do cacimbo. O silêncio do hotel Globo. O silêncio do tempo passando no tempo certo. O silêncio e a doçura.

Missão: amar

27/08/2010

O director geral, por ser director geral (ou general director), deve estar acostumado a ser bajulado. Deve estar acostumado a impor sua autoridade pelo cargo que vem após o seu nome, e não pelo que ele é. Deve estar acostumado a pensar que as damas, por não serem directoras gerais, vão querer sair com o director geral. Então, quando ele senta-se para almoçar e vê uma miúda sorridente na mesa ao lado almoçando com um kota amigo, acha-se no direito de mandar este singelo bilhete de amor.  Pura poesia.

Uma viagem com outra viagem

21/08/2010

Foram 15 dias quase ininterruptos de lágrimas, uma espécie de funeral antecipado. Um enterro de uma vida que já não me cabia mais, mas que, até então, vinha sendo minha vida. E era boa a vida, por isso foi complexo e doloroso fácil me livrar dela.

Foi assim que, quase dois anos atrás, eu coloquei umas roupas, uns remédios e uns livros na mala e fui para Angola trabalhar, viver, me divertir, conhecer, me apaixonar, me transformar, me desconstruir.

Não foi fácil viver essa vida com dois chips que não conseguiam conversar. Era um eterno e doído cabo de guerra interno. E é em horas como essas que acontecem os rompimentos. Rompimentos de pessoas, de chips, de vidas passadas e presentes, de comportamentos, de sentimentos. O rompimento é difícil, pois somos acostumados aos padrões.

Mas depois dos rompimentos há as reconciliações. Elas podem demorar a aparecer, mas uma hora elas vêm e fazem os oceanos diminuírem, os opostos serem relativizados, as arestas serem aparadas.

***

E agora chega a hora de uma nova viagem, uma viagem importante, para esse mesmo lugar que eu fui depois do funeral antecipado, mas agora com um projeto que nasceu da minha própria cabeça e cresceu com minhas próprias mãos.

As lágrimas não existem, nem o funeral, nem a terapia, nem eu acho que vou ter que escolher entre uma coisa e o seu contrário, pois, dessa vez, me parece que está mais fácil conversar com todas essas julianas opostas que habitam meu coração.

Hoje, sinto que há apenas esse nervosismo bom que antecede uma partida e o cansaço de uma vida que anda agitada: o mudo infectado, a moto amarela circulando pelos ônibus e avenidas e fumaças da cidade, as pessoas novas, projetos virando gente grande, o retorno de saturno, o inferno astral.

E aí o melhor jeito que eu encontrei para me preparar para essa viagem foi fazendo uma outra viagenzinha lá para aquela ilha que tem cheiro de casa. Porque eu acho mais fácil de desligar me religando com a natureza, e lá na ilha dá para fazer isso.

Tentarei ficar um pouco quieta, concentrando as energias que dentro em breve serão ativadas com força máxima na cidade mais suave e frenética que eu conheço.

luanda geografias emocionais

14/08/2010

Luanda Geografias Emocionais – Teaser from tasaver on Vimeo.

Teaser do documentário Luanda Geografias Emocionais, que o tás a ver? está produzindo em Angola. É por causa desse projeto, nascido na minha cabeça e criado por várias mãos junto com as minhas, que eu estou arrumando as malas mais uma vez.

Para saber mais sobre o tás a ver? e sobre o projeto do doc é só espiar o site do tás a ver?

buala

14/08/2010

O Buala é um portal de cultura conteporânea africana muito fixe.

Buala (em quimbundo Bwala) significa casa, aldeia, a comunidade onde se dá o encontro. A geografia do projecto responde ao desenho da proveniência das contribuições, certamente mais nómada que estanque. A língua portuguesa, celebrada na diversidade de Portugal, Brasil e Áfricas, dialoga com o mundo.

Eu agora, de tempos em tempos, vou escrever para o Buala. Esse é o primeiro texto que eu escrevi.

Luanda e Salvador rediscutem seus laços por meio da arte

Salvador, na Bahia, e Luanda, em Angola, são cidades primas. Mas são como primas distantes: elas têm uma forte ligação familiar, mas perderam o contato uma com a outra com o passar dos anos. Por meio dessa imagem, o artista plástico e curador angolano Fernando Alvim sintetiza sua visão sobre as relações entre a capital de Angola e a capital da Bahia, o estado com maior presença negra no Brasil.

Para ele, é impossível não perceber a semelhança entre ambas. “Há algo na estética, na arquitetura, na maneira como as pessoas se movimentam, no som, no clima, nas cores, que deixa os dois lados do Atlântico muito familiares”. Mas, ao mesmo, tempo, é notável o desconhecimento de um lado sobre o outro – principalmente dos baianos em relação a Angola e à África contemporânea.

… continua…

Bodes e elefantes

06/06/2010

Uma noite fria e tumultuada dentro da cabeça vai desembocar num show de música alta, nova, contemporânea e emocionante no museu da imagem e do som. Chego lá atropelada pelos meus pensamentos, que depois são atropelados por todo aquele barulho organizado e eu fico sem saber direito se mais alto é o som que é feito no palco ou o ritmo frenético e nada suave das rotações do meu cérebro.

Suave e frenético. Smooth and Rave.

15 minutos, 52 minutos, 1 téra, 2HDs, 1D90, 1EX1, 1EX3, 200 mil, 745 reais, 3 cidades. Uma equação tão difícil quanto simples de resolver. O caos organizado completamente desorganizado. Um alguém que pensa em forma de equações traduzidas em obras de arte e que se faz entender, mas que é tão difícil de compreender e de estar.

Estar é complexo.

Estar só é complexo. Mas necessário. Estar junto é complexo. Mas é bom.