Posts Tagged ‘mala’

A vida com 100 coisas

29/06/2009

Eu já tinha lido sobre esse cara, o David Michael Bruno. Ele quer viver um ano com apenas 100 coisas pra mostrar como as pessoas vivem com tantas coisas que não servem para nada. A Época fez uma matéria sobre vida simples e falou sobre ele.

Essa ideia me lembrou que quando eu fui morar em Angola, arrumei uma mala de 20 ou 30 quilos, agora não me lembro, e, por seis meses, isso era tudo o que eu tinha. Poucas das minhas roupas e sapatos, umas fotos para o mural, meus colares e brincos vila madalena, uns xampus e uns cremes e um perfume, dois livros, um caderno, meu computador e minha câmera. Era tudo. E eu comecei a viver com isso e todas as outras coisas que eu tinha é como se não existissem mais, eu nem lembrava que já as tinha tido algum dia.

Aí quando vim, de férias por quinze dias, para SP, foi horrível. Tive uma das sensações mais esquisitas para uma pessoa que chega de férias em casa, com saudade de tudo. Em vez de ficar feliz, não conseguia parar de chorar quando via minhas coisas. Foi angustiante. Eu olhava para aquelas bolsas, aqueles sapatos, para os móveis, para as quinquilharias que a gente acumula no tempo e só conseguia pensar, meio em pânico, como é que eu faria para me livrar de todas aquelas coisas inúteis. Depois a sensação foi passando e eu fui relembrando que, sim, ter aquelas coisas era importante e era legal. Ironicamente, voltei pra Angola e minha mala desapareceu por três semanas. Contei um monte sobre isso aqui. Foi tudo um aprendizado.

A Taag e o Brás

16/05/2009

A Taag, a empresa aérea falida do governo angolano que perdeu minha mala e depois reencontrou e que perde a mala de um monte de gente todos os dias, agora vai voar três vezes por semana para São Paulo. Antes ela só voava para o Rio, o que não estava fazendo sentido, pois é para cá que as pessoas de lá costumam vir e é daqui que as pessoas daqui costumam sair.

Aí como a Taag inaugurou esse vôo e o dinheiro dela sai da torneira feito água, ela resolveu chamar um monte de jornalistas e pessoas oficiais para fazer esse primeiro vôo. Foi assim que meu amigo Tugolano veio parar aqui por uns dias. Ele é da turma dos jornalistas, não das pessoas oficiais.

E aí eu disse para ele que ele tinha que ir fazer uma matéria no Brás, que é um grande pólo de roupas e calçados, e ele topou. No Brás está cheio de sacoleiras angolanas que atravessam o Atlântico para comprar havaianas, sapatos, calcinhas, cuecas, jeans, blusas, cabelo brasileiro, meias e outras coisas para revender lá em Angola, que ainda não teve tempo de desenvolver uma indústria consistente e tem que importar quase tudo.

Eu mesma já tinha feito essa matéria antes e então já soube indicar certinho os hoteis, as transportadoras, os restaurantes e as ruas para encontrar as pessoas e as informações. Fomos na transportadora palancas, no hotel que serve calulu, funge e muamba de galinha, ficamos sabendo da discoteca que toca kizomba e ficamos a ouvir bué de histórias engraçadas. Ah, também tinha um hotel com aqueles relógios que mostram os horários em várias cidades do mundo e as cidades eram São Paulo, Luanda, Johanesburgo e Lisboa.

Conhecemos um casal de coreanos que vende 90% da sua produção para angolanas. E clientela é tão fiel e a dona encontrou um nicho tão bom que ela mesma foi lá em angola em 2004 para visitar pessoalmente a terra e os hábitos dos seus parceiros comerciais. No balcão da loja tem uma foto dela no aeroporto 4 de fevereiro, um bolo com a bandeira de angola, bué de pessoas a dançar kizomba e uns comércios lá no Roque Santeiro. A dona está tendo tanto sucesso nos seus negócios que seu sotaque um pouco puxado para o coreano chama todo mundo de amigo ou amiga, como se faz lá do outro lado.

O que eu mais gosto desse comércio das sacoleiras é que praticamente um país inteiro se veste graças às viagens dessas moças. O mais natural para a nossa lógica seria que um ou alguns empresários montassem um negócio gigante que levasse contêineres e mais contêineres de roupas do Brás para Luanda. Seria mais simples, mais barato, mais direto, mais econômico. Mas o mais lógico nem sempre é mais lógico para todo mundo ou nem sempre as coisas funcionam da forma mais lógica. Então as mulheres pagam suas passagens, trazem seu kumbu em espécie, vão nas lojas que suas amigas indicaram ou que elas já conhecem, compram as quantidades e as qualidades que elas gostam, pagam a vista, carregam suas malas com o peso máximo permitido, pagam todo o excesso de bagagem permitido, levam suas mercadorias de volta e revendem no Roque, nas ruas, nas pequenas lojas ou na sua casa, tudo bem informalmente. Como é tudo bem caro por lá, essa empreitada compensa.

Até choveu

14/02/2009

Passei hidratante de maracujá e vesti pulseira, colar, brinco, vestido novo e sandálias prateadas. Saí toda mulherzinha por ter a mala de volta para tomar cerveja na  ilha e comer choco grelhado. Choco é uma lula gigante que não tem no Brasil. É mesmo bom.

Estava tão esquisito eu assim, com tantas vaidades penduradas, que até o tempo estranhou. De repente, quando já estávamos lá nos caboverdianos, que é um grande salão em que caboverdianos jovens, velhos, casados, avulsos e namorados se encontram para tocar, dançar e ter saudade da música da terra deles, começou a bater um vento gelado, que trouxe consigo uns pingões de chuva. Os pingões se transformaram numa tempestade, dessas que caem sempre em São Paulo, mas que eu nunca tinha visto em Luanda. Em minutos, a água se empoçou pelas ruas de tal forma que comecei a achar que era melhor embora porque a Chicala iria afundar.

Dá um certo alívio quando chove, pois aqui o tempo é seco, empoeirado, a garganta estranha e os narizes sangram às vezes. Mas sempre quando eu fico feliz quando umas gotas caem do céu, as pessoas de Luanda me falam pra eu não dizerm isso, porque a cidade sempre fica um caos quando chove. Morre gente, doenças aumentam, ruas se estragam, famílias perdem seus pertences.

Com a chuva, minha sandália sujou um pouco com lama e esgoto, meu vestido molhou. Mas tudo bem. Tenho uma mala inteira de opções.

A mala ou a troca?

12/02/2009

Tem um filme com a Angelina Jolie que tava no cinema até bem pouco tempo atrás chamado A Troca. O filho da Angelina desapareceu e a polícia devolve um outro menino no lugar do filho verdadeiro. Aí ela tenta dizer que não é o filho dela e a polícia começa a dizer que ela está louca, que é normal rejeitar o filho depois de um trauma tão grande e que aquele é, sim, o filho dela. Aí ela tenta brigar mais e vai parar num hospício pra não manchar a imagem da polícia.

Por que estou contando isso? Porque ontem recebi uma ligação da TAAG dizendo que minha mala foi localizada depois de três semanas passeando por aeroportos do mundo. Parece que ela ficou uns dias em SP, foi pra Johanesburgo e deve chegar hj em Luanda.

E o que isso tem a ver com a Angelina Jolie? Entrei na maior viagem e fiquei pensando que podem me entregar uma mala dizendo que é minha sem ela ser minha, igual fizeram com o filho da Angelina. Fiquei pensando num sr barrigudo da TAAG olhando pra roupas enormes e masculinas dentro da minha suposta mala, dizendo: senhora, é normal emagrecer diante de um trauma tão grande como esse. É claro que essas rupas são suas, sim!

Bom, vamos ver se a tal da mala aperece e se a mala que aperecer é a minha verdadeira.

Quanto valem nossas coisas

05/02/2009

Esse negócio de perder a mala e passar todos os dias repetindo as poucas e mesmas roupas e não ter absolutamente nenhum luxo faz a gente sofrer, mas também faz a gente aprender algumas coisas.

Não tenho nenhum colar, nenhum creme, nenhum brinco, não tenho havianas, não tenho meus vestidos lindos, não tenho cortador de unha, não tenho minhas sandálias que gosto de usar, não tenho perfume, não tenho lápis de olho e nem gloss. Nas minhas férias, gastei um monte de dinheiro comprando roupas novas que não eram necessariamente essenciais. Agora tenho que pagar o cartão de crédito sem nunca ter usado nada daquilo.  Sim, um pouco de vaidade não faz mal a ninguém, comprar coisas que a gente gosta não é pecado… mas, por outro lado, a vida continua normalmente sem todas essas coisas.

Hoje to feliz da vida porque encontrei uma calça jeans minha esquecida no fundo de um armário. Nem lembrava mais dela e agora ela é uma peça essencial no meu modesto guarda roupas. Com esse jeans, tenho agora três calças para usar. Já to achando quase um exagero!

E minha mala ainda não apareceu

28/01/2009

A epopéia continua. Já cheguei há três dias e nada da mala aparecer. Daqui a pouco já vou conhecer os funcionários do aeroporto pelo nome de tanto ir lá.

Bom, eis o que consegui descobrir nessas idas ao aeroporto:

– Parece que um contentor de malas foi esquecido em Johanesburgo. Muitas outras pessoas tb ficaramsem bagagem.

– Um senhor Tuga que veio no meu vôo e perdeu a bagagem já a encontrou.

– Se vc for simpático com os funcionários do aeroporto, eles podem realmente se empenhar em ajudar. Caso contrário, eles farão pouco caso e aí é pior pra vc.

– Duas reclamações minhas foram inseridas no sistema da TAAG. Não sei se isso ajuda em algo, pois não há um sistema integrado que se comunica com os outros aeroportos.

– A South African (fiz metade do voo pela TAAG e metade pela South African) não abre na quarta-feira no aeroporto. É dia de folga. Terei que ir fazer a reclamação formal de perda da bagagem outro dia.

– O site da South African tem uma parte dedicada a ajudar quem perdeu a bagagem. Mas ele não funciona. Digitei o código da minha bagagem e ele não foi localizado.

– Em Angola, Achados e Perdidos se chama Perdidos e Achados. Acho até mais lógico.

– Milhares de malas se perdem diariamente pelo mundo por falta de organização das cias aéreas.

– É horrível ficar sem roupa num outro país e cogitar a possibilidade de ficar sem todas as coisas queridas que a gente compra durante vários anos e pelas quais a gente se apega.

To a sofrer

26/01/2009

To sem mala. Minha bagagem não apareceu. Talvez chegue amanhã, talvez nunca chegue. O setor de perdidos e achados do aeroporto 4 de Fevereiro é assustador: é imenso, tem centenas ou milhares de malas empilhadas em prateleiras velhas que nunca chegaram aos seus destinos. As malas recém-achadas vão prara uma salinha menor, depois de uns dias lá é que vao para aquela gigante. Talvez meus pertences mais queridos fiquem perdidos de mim pra sempre. Mas eu ainda acho que essa mala vai aparecer. Hj à noite chega um outro vôo, amanhã vou lá no aeroporto de novo. Tomara que ela apareça.

To sozinha. Minha casa, que sempre teve cinco moradores, tem um só, que vai pro Brasil amanhã. Ficarei uns dias sozinha nessa casona, bem os primeiros, que são os mais difíceis. Ainda bem que tem V. aqui embaixo, que me fez companhia ontem, e outras pessoas queridas que conheci na primeira temporada.

To com saudade do marido. E da Olga. E de casa. E dos dias incríveis que eu tive com eles todos, sem fazer nada de especial, e que por isso mesmo foram especiais. As coisas pequenas e simples são as mais legais.

E tem a TPM, que sempre aparece nessas horas.

A segunda temporada começa sem mala

26/01/2009

de-voltaDepois de 24 horas em trânsito, que incluiu um passeio relâmpago por Johanesburgo, reaterrisei em Luanda. Já sabia que na sala maluca da imigração eu precisava pegar o tal formulário do visto, ficar na fila, responder as perguntas corretamente pra passar pra próxima fase, a esteira das malas.

Três vôos haviam chegado naquela tarde (um de Johanesburgo, um de Bruxelas e um de Lisboa), o que fez com que desse pane no sistema. Fiquei quase duas horas vendo aquelas malas desfilarem naquela esteira. E a minha nunca apareceu.

Aí lá fui pra salinha de reclamação fazer um registo (sim, aqui é registo, não registro) do desaparecimento da mala. O senhor escreveu as características da mala num pedaço de papel e disse pra eu voltar amanhã, pois ia chegar um vôo de Johanesburgo. Saí sem nenhuma garantia de que minha mala vai aparecer ou qualquer comprovante de registo da perda da minha bagagem.

Agora to indo lá no aeroporto. Torçam pra que minha malinha, com todas as minhas roupas, livros, presentes e outros pertences queridos me reencontre.