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A moto amarela

21/07/2010

– Vai andar de moto agora!
– To com medo.
– Aproveita então. Daqui a pouco você perde o medo e perde a graça.

Já fazia tempos que eu a queria lá na garagem. Desde os tempos da outra vida, daquela em que tudo estava no lugar, tão no lugar que havia uma pessoa dormindo no lugar ao lado da mesma cama dizendo que eu era maluca de ter uma ideia dessas. Imagina, uma moto. Que perigo. E eu dizia que perigoso é perder a paciência porque as ruas estão engarrafadas, é viver numa cidade com tantos carros, é ficar procurando lugar para estacionar, perigoso é ter carros caros e muito dinheiro, perigoso são esses motoboys malucos que, coitados, ganham mal e por hora e aí ficam andando desse jeito. Perigoso é morrer de tédio. Perigoso é não ter medo, é se sentir presa, é não viver. Perigoso é abandonar o namorado e ir morar do outro lado do mar. Perigoso é tudo, eu dizia, meio sem paciência com aquela imobilidade toda.

Aí o tempo passou, o namorado passou, a juliana voltou – e foi e voltou e foi e voltou e se perdeu e se encontrou e se desentendeu e se reentendeu e passou a entender melhor essa fluidez toda – e a ideia de tê-la na garagem não passou.

Fiz as aulas com o instrutor bombado que me chamava de bebê e não me ensinou nada, vesti aquele capacete fedido que sempre me fazia voltar para casa correndo para tomar banho, acordei as 5h da manhã para fazer aquele circuitinho imbecil e passei na prova de primeira, sem fazer todas as aulas, sem precisar engatar segunda marcha e sem ter a menor ideia de como se pilota uma moto.

Aí um dia eu fui na loja, fiquei na dúvida entre o amarelo e o preto, decidi pelo amarelo e comprei uma daquelas motos de mulherzinha, que põe o pé na frente, não tem embreagem e pode andar de saia.

Aí de repente ela estacionou na minha garagem. Em vez de ficar feliz, fiquei petrificada de medo. No primeiro dia nem consegui ir lá embaixo olhar pra ela. Meu deus, que ideia infeliz que eu fui ter, onde estava com a cabeça, isso é muito perigoso.

No segundo dia, decidi que era perigoso demais ir até o posto em cima da moto e fui a pé comprar combustível dentro de um saco plástico pra eu ficar dando volta no quarteirão. Quando voltei com aquela sacola molenga que não dá para apoiar, percebi que não sabia abrir o tanque, que havia esquecido o farol aceso e que a bateria havia descarregado. Chamei o zelador, o porteiro, o motoboy da loja da frente, o vizinho. Todos deram seus palpites e, como sempre, ficaram felizes por desempenharem suas funções masculinas.

E saí para a primeira volta no quarteirão. Na falta de um pai, que não mora aqui, de um irmão mais velho, que não existe, ou de uma pessoa mais ajuizada, acionei a amiga C. para ficar me dando apoio moral e dando risada comigo. O porteiro ficou todo orgulhoso, parecia meu pai. Disse que com o tempo eu pego a prática – prática que ele não tem, pois nunca pilotou uma moto na vida.

Amanhã quero dar mais umas voltinhas no quarteirão. Quem sabe depois de amanhã eu já me arrisco a ir até a Vila Madalena? É, tá decidido: bem mais perigoso que ter uma moto é não se divertir.

O medo que mede cinco metros

09/09/2009

Subi aqueles degrauzinhos estreitos e bem íngremes de cimento velho toda decidida e cheia de mim. O sol esquentava meu corpo e tudo mais a minha volta porque era a hora do almoço numa terra que todos os dias faz sol e isso me deixava ainda mais a vontade, pois é assim que eu me sinto em casa: no calor, com pouca roupa e com umas havaianas. Mas aí eu cheguei na beirada e percebi que o mundo inteiro estava lá embaixo e só havia sobrado eu naquela altura toda. E perceber isso fez toda aquela confiança se evaporar no mesmo instante e me fez empacar igual essas mulas de fazenda que ficam fazendo o que não querem o dia todo e uma hora elas simplesmente desistem e nunca mais se movem.

Apenas cinco metros me separavam daquela água toda lá debaixo. E esses cinco metros me davam um medo imenso, que, se desse para medir, acho que daria alguns quilômetros. Como cinco metros de altura me metiam tantos quilômetros de medo? É só água. Não machuca nem nada. Quando a gente pula, ela engole a gente e é bom. E depois ela devolve a gente sozinho para cima. É só pular.
Lá debaixo é mesmo fácil falar que é só pular. Mas ali de cima era um drama. Também, lá de cima dava para ver a piscina olímpica de azulejinhos descascados, a outra piscina menor de água turva dos putos, a arquibancada sempre vazia, as árvores lá bem longe, os telhados das casas do chiques do Alvalade e muitas outras coisas. E sé dá para ver tanta coisa porque é alto. E se é alto dá medo, pelo menos para mim.

Eu passei um tempo considerável nessa nessa briga interna de vai não vai, passo pra frente passo para trás, vou adiante ou volto pelas escadinhas. A piscina toda parou para ver a agonia engraçada daquela pula branquinha e meio escandalosa. Aí vinham uns putos que subiam, chegavam correndo até a beirada e saltavam dançando kuduro, ou então de cabeça, ou então com cara de pouco caso. Eles queriam mostrar para a pula que era só pular, simples assim. Ou então queriam mostrar como eles eram corajosos, sei lá. Só sei que eu continuava com medo.

Esse medo que eu senti lá em cima é do tipo que dá um frio enorme na barriga mesmo quando a cabeça sabe que é uma bobagem, pois não há o que dar errado. Não havia como eu pular fora da piscina, quebrara a perna ou me afogar. Tudo necessariamente iria ficar bem. Não havia risco nenhum. Mas, ainda assim, eu sentia medo.

Ontem eu senti um medo desses.
Aí uma hora eu parei de pensar nisso e pulei.
A água me engoliu e foi bom. E depois me devolveu sozinha para cima.

Terremoto

27/07/2009

Eu tento começar tudo de novo, bem devagarzinho, tijolinho por tijolinho, cuidando bem de tudo. Aí vem um terremoto e em instantes ele destroi toda a parede que tava começando a se levantar. Droga. E eu perco o chão mais uma vez. E eu me sinto sozinha e desprotegida no mundo mais uma vez, mais do que nunca. E eu fico cansada de mais uma vez ter que começar tudo de novo. Sozinha. Sozinha.