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Uma breve história do meu pai

20/04/2010

Olhem por que eu sou assim:

Uma breve história do meu pai


Ele é engenheiro formado pela poli. Lá no passado teve uma esposa, quatro filhos, uma casa enorme, uma fábrica de compressores de ar uma vida confortável, com casona, caseiro, cachorros e piscina e tudo mais nos eixos. Mas aí empresa se deu mal naquele tempo do collor em que todas as empresas se davam mal, o casamento acabou e ele foi trabalhar por outros, abriu umas franquias e tocou alguns negócios que fizeram a gente sobreviver, mas o dinheiro minguar. Conheceu a Vera. Brigou com a vera, a Vera brigou com a gente, a gente brigou com ele. Terminou com a Vera. Voltou com a Vera. Muitas vezes. Depois abriu uma agência de turismo para quem tem carrões quatro por quatro e essa coisa de criar filhos. Essa coisa de não ter dinheiro com filhos pra criar e recomeçar um negócio era tão estressante, mas tão estressante que ele virou uma bomba atômica. Aí a bomba explodiu. Um mês e meio na UTI e o mundo virou de cabeça pra baixo. Essa coisa de nascer de novo faz isso. Tempos difíceis, recuperação milagrosa, falta de dinheiro, falta de perspectivas, depressão, medo, 60 anos sem dinheiro, sem empresa, sem trabalho e sem concentração, que foi levada pelo AVC. Mas com uma mulher incrível, uma ex-mulher incrível e quatro filhos incríveis. Aí ele casou, de papel passado, com uma festa deliciosa e com a sábia decisão de ir o marido pra uma casa e a esposa para outra. Ele resolveu diminuir o tamanho da sua vida: trocou a casona por um apartamento, comprou um taxi, um alvará e virou taxista por São Paulo. Sem dar a mínima pra quem disse que isso era decadência. Decadência nada. Isso é decência. Decência por entender que o importante na vida é fazer o que gosta: tocar saxofone, estudar música, ir pro clube fazer spinning, ficar com sua mulher, fazer uns almoços com os filhos em casa, tomar banho de cachoeira e não ter grandes preocupações. Ele recomeçou tudo de novo. Recomeçou melhor – menor, mais calmo, mais feliz, se importando com as coisas mais certas. Entendendo de uma forma definitiva que as coisas pequenas são as que mais importam. E aí quando tá tudo calminho e nos eixos ele muda tudo de novo. Comprou uma casa em Delfinópolis, 5 mil habitantes, lá na Serra da Canastra, com planos de se mudar daqui a 3 anos. E de repente vendeu o taxi, o alugou o alvará, comprou um 4×4, fez um camping pra não dar certo, estendeu uma rede na varanda e pronto. Os três anos viraram três meses. Ele agora está lá no interior, feliz da vida, todo sem pressa, sem barulho, sem estresse, completamente realizado com tudo o que ele construiu – e desconstruiu na vida.

Feliz aniversário

16/10/2009

eu cega

No mesmo dia de hoje, mas no ano passado, eu vestia uma calça laranja e uma blusa azul de bolinhas brancas com um laço nos ombros, arrastava uma mala com umas roupas e uns pertences e uma rodinha a menos e me preparava para ir para esse lugar sem volta chamado Angola. Não dava nem para chorar, só dava para ter pressa, pois eu estava bué atrasada e tive mesmo que correr.

De repente eu estava lá, dentro daquele avião, entre um consertador de ônibus evangélico e um menino estranho com cabelos encaracolados com uns óculos enormes. Eles também haviam deixado tudo para trás.

Deixar tudo para trás é difícil.

O que será que eles estavam sentindo? Será que tinham esposas? Filhos? Havia uma separação anunciada? Iriam virar sócios de uma empresa? Tinham medo de se apaixonar por alguém? De apanhar paludismo? De fazer um filho? Será que eles iriam odiar tudo aquilo? Ou se atirar lá do alto e fazer com que cada instante daquela existência longínqua e inexplicável os marcasse para sempre? Será que eles achavam que tudo ia voltar para o mesmo lugar quando eles voltassem, como eu achava?

Nada voltou pro seu lugar depois desse dia.

Ainda bem.

Por muito tempo, eu fiquei tentando caber num lugar que não era meu. Era um esforço danado ter que ficar se encaixando nos planos que eu mesma fazia para mim. Um dia, quando eu achava que estava tudo encaixadinho, apareceu uma dor de cabeça que não parava nunca. E aí eu pifei. No começo eu não entendi muito bem por que. Demorou para eu descobrir que o que estava errado eram os planos que eu fazia para mim mesma, que atropelavam meus sentimentos, meus instintos e minha essência. Essas coisas todas que existem dentro do nosso peito e que a gente nem sabe dar nome direito têm uma potência mais avassaladora do que conseguimos imaginar ou controlar.

Deixar coisas importantes para trás e embarcar nesse avião sem volta foi a materialização de uma mudança profunda em mim, que começou a ganhar corpo talvez um ano antes.

Decidir embarcar nesse avião foi difícil, talvez a coisa mais difícil que eu já tenha decidido. Só que, ao mesmo tempo, também era como se nem fosse uma decisão. Eu sentia que era o único caminho possível. Era o meu caminho. Embarcar nesse avião era apenas se apropriar do que já era meu. E eu me apropriei da forma mais sincera e intensa que eu pude.

Nunca vivi tanto, chorei tanto, senti tanta saudade, me desiludi tanto, aprendi tanto, mudei tanto, me diverti tanto, dancei tanto, visitei tantos lugares, conheci tanta gente, me apaixonei tanto pela vida. Nunca escrevi tanto. Nunca tive tanta sede. E nem tantos projetos. Meus projetos. Apesar de ter ficado tanto e tantas vezes sem rumo, nunca me senti tão no rumo certo e nem tão preparada lidar com todas as coisas monstras que vão aparecendo pela frente.

Hoje, consigo aceitar melhor que, para mim, talvez tudo esteja no lugar quando está fora do lugar. Que alguns lugares marcados não me servem. Tenho medo? Um monte deles. Mas, quando vou dormir, não sinto aquela dor de cabeça enlouquecedora. E me divirto bem mais.

Feliz aniversário, Ju.

O canto e o tempo de cada um

19/07/2009

Os planos são novos, foram moldados à força porque a vida é imprevisível e os caminhos mais certos podem ruir totalmente em minutos. Ou em um segundo. Porque isso acontece todos os instantes com alguém em algum lugar do mundo.

Com planos novos (ainda que bem incertos e confusos), a vida parece ser nova também. Mas a casa ainda é a antiga e a vista ainda é essa mesma aí de cima. E, para ela virar uma nova casa no mesmo endereço, isso demora um pouco. É uma transformação lenta, como a transformação das pessoas. A casa nova tem que nascer, as coisas que estão dentro precisam encontrar os seus novos lugares. A casa é uma metáfora de nós mesmos. Ela precisa de tempo para que os móveis e as energias entendam onde têm que ficar.

O escritório não é mais escritório, virou um quarto. E a TV de repente ficou sem quarto. E a casa ficou sem TV, porque a fonte queimou. Aí a TV voltou e ela não sabia muito bem se devia morar no novo escritório ou na nova sala, que na verdade quase nem é nova, só tem o chão mais gelado porque sente falta de um tapete, também não tem ipod e nem som e nem uma mesa bem descolada que ficava ali. Também tem um ou dois quadros a menos, mas em compensação ganhou uns apetrechos do mundo — uma máscara africana a mais, um pano lindo de Côte de Ivoire, uma mulher do Vietnã desenhada num fundo vermelho e uns pôsteres da China que ainda estão enrolados, mas um dia ficarão emoldurados e pendurados na parede.

A TV inicialmente queria ir para o escritório novo, afinal, ela sempre tinha morado no escritório. O escritório novo, por enquanto, não tem um tampo legal, apenas os cavaletes. O tampo é de compensado, mas vai virar uma obra de arte e vai ficar tão legal quanto o lagarto de madeira e colagens que fica também na sala.

Mas a TV não se mudou para o novo escritório nunca. Porque eu ainda estou me reacostumando com a rotina e com os espaços e com os vazios na casa. Aí entendi que, agora que muitas vezes estou sozinha, talvez ela me faça mais companhia na sala do que no escritório. Pronto, isso mesmo. Arrumei uma mesinha para ela morar, mudei a cubana e o cacto de lugar, empurrei o sofá e as coisas reencontraram seu novo lugar. Aos poucos as coisas vão se renovando.

Crise dos 30

30/06/2009

Ei, alguém sabe se dá pra ter crise dos 30 com 27 anos? Se der, acho que estou nela. Se não der, vou repensar minha vida com 27 anos para depois ter que repensar tudo de novo com 30. Ai, meu deus, que trabalheira.

Coisas que me agoniam hoje

31/05/2009

Ouvir música clássica dá agonia. Eles fizeram essas músicas lindas muito carregadas de sentimentos e sempre quando eu escuto até coisas que não são dramáticas ficam dramáticas.

E terminar de ler O Retrato de Dorian Gray também dá agonia. Aliás, uma coisa combina com a outra, acho.

E voltar para uma casa que é minha, mas de outro jeito agora; que é na minha cidade, mas que eu vejo de outro jeito agora; e que pertence a mim, mas eu sou de outro jeito agora (de um jeito que eu nem sei explicar muito bem qual é), também da agonia.

Mas imagino que vai ser bom poder tirar minhas coisas da mala depois de tanto tempo. E o domingo que funcionou como domingo foi uma delícia e não deu agonia.

O excesso da Time

28/05/2009

Meu dia começou mais feliz porque eu comecei lendo uma revista Time que estava dando sopa por aqui. Quando a gente lê coisa boa dá até tristeza de pensar quanta coisa ruim é escrita no mundo. Espiem só como a Time começou essa matéria de capa sobre as transformações que a crise mundial está causando na economia americana:

Sometimes we change because we want to: lose weight, go veagan, find God, get sober. But sometimes we change bacause we have no choice, and since this violates our manifest destiny to do do as we please, it may take a while before we notice that those are often the changes we need to make de most. We rean a good long road test of the prmeisse that more is better: we built houses that could hold all our stuff but were too big to heatp; we bought cars that could ferry a soccer team but were too big to park; we tought we were embracing the simple life by squeezing in a yoga class between working and shopping and took an extra job to pay for it all. Now we’re stripping down and starting over.

E, depois, vejam como a matéria termina:

A consumer culture invites us to want more than we can ever have; a culture of thrift invites us to be grateful for whatever we can get. So we pass the time by tending our gardens and patching our safety nets and debating whether, years from now, this season will be remermbered for what we lost, or all that we found.

Além de ser um lindo texto jornalístico, essa matéria fala de um jeito muito delicado sobre como são importantes os momentos da vida em que a gente entra numa crise e é obrigado a mudar. Sempre acaba sendo melhor, por mais que na hora não seja nada divertido passar por aquilo tudo.

Antibiótico no fuso

17/03/2009

Mudar de fuso horário já deixa as pessoas perdidas normalmente. No Brasil são 8h30, em Angola são 11h30, aqui (que agora é Hong Kong) são 19h30. Num país é hoje, no outro é amanhã, no outro é de tarde.

Imagine só tomar antibiótico de amidalite mudando de um país pra outro. Tem que pensar no horário sem o fuso, se a barriga tá cheia ou vazia, que dia da semana é hoje. Não deu pra ser assim, britânica, na medicação. Mas, ufa, ainda bem que acabou. Devagarzinho eu vou botando as coisas no lugar.

Tchau, Ju!

16/03/2009

furos

Não tive tempo de ficar me programando para comer abacate todas as tardes para acumular energia e gordura para a viagem.

Não tive tempo de programar direito o que vou fazer daqui pra frente, muito menos de fazer um roteiro de viagem no Google maps.

Não tive tempo de visitar o Huambo, cidade que se transformou toda desde a primeira vez que eu a visitei, há quatro anos, quando ela ainda estava toda furada de balas da guerra.

Não tive tempo de fazer uma festona de despedida, dessas com comida e bebida a vontade, para reunir todos os tantos amigos que eu fiz em cada canto da cidade.

Não tive nem tempo de despedir de pessoas queridas.

Tive menos de 48 horas com a saúde se recuperando de uma crise de amidalite, com o estômago todo embrulhado por causa do antibiótico e com o coração totalmente despedaçado por ir embora tão de repente de um país que me acolheu tão bem para colocar minhas coisas na mala, dar tchau para alguns amigos mais próximos e entrar num avião para sair do país.

Não estou mais em Angola. Agora, vou perambular um pouco pelo mundo para tentar encontrar o caminho de casa. Estou em Hong Kong. Vou ficar vários dias na China na casa de uma amiga que é tão amiga que já é da família. Vou tomar vitamina, assistir tv largada no sofá, dormir um monte, jogar muita conversa fora, falar um monte de besteira, andar a toa na rua por um lugar em que não vou entender nada que ninguém diz, come ou faz. Depois vou andar pela Ásia na companhia da minha irmã que está construindo a vida dela na Austrália.

Esse blog vai continuar falando de mim, de Angola, da China, dos outros países que eu vou visitar e que ainda nem sei quais são, das dificuldades e facilidades e aprendizados que eu for tendo pelo caminho.

Assim que o susto passar eu conto um pouco sobre o que aconteceu lá em Angola. Não foi nada tão terrível assim. Foi só conturbado. Mas ninguém precisa ficar preocupado.