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O Clube Pinheiros é mais ou menos assim

26/05/2009

O clube Pinheiros é um lugar que eu adoro. Ele é um quarteirão inteiro entre a Marginal Pinheiros, a Faria Lima, o shopping Iguatemi e uns prédios de gente rica. Lá dentro tem alamedas, palmeiras imperiais, piscinas, quadras, restaurantes, bancos, escolinha, araras e jardins floridos muito bem cuidados. Tudo está impecavelmente no seu lugar.

Para entrar lá dentro tem que pagar uns 40 mil para virar sócio, ser filho de alguém que é sócio, porque aí não paga quase nada, ser atleta do clube e fazer esportes profissionalmente ou ser funcionário e ficar trabalhando para manter aquele lugar impecável cada vez mais impecável para pessoas impecáveis terem seus momentos de lazer.

No clube Pinheiros tem um monte de meninas com suas pernas durinhas em suas roupas lindas de dryfit todas umas iguais às outras, meninos adolescentes que jogam futebol na grama perfeitamente sintética e conservada com chuteiras que geralmente custam mais do que o salário do faxineiro que passa andando despreocupadamente empurrando uma lata de lixo com rodinhas e que faz um barulho todo ritmado no chão de lajotinhas. As meninas de perna dura de hoje ontem tinham aquelas pernas fininhas e jogavam futebol, faziam ginástica olímpica ou jogavam handebol. Amanhã elas serão essas executivas que andam pelas alamedas de scarpin sempre apressadas a partir das 19h e correm para a academia, depois de correrem o dia todo no trabalho. Essas executivas amanhã serão essas mulheres que envelhecem, mas para os outros não perceberem que elas envelheceram, elas esticam a pele e colocam coisas postiças na cara. Elas são casadas com homens que também andam apressados para as alamedas para irem até correr na academia depois de também passarem o dia correndo no trabalho.

Ah, essas pessoas todas geralmente andam pelas alamedas arborizadas e iluminadas com Ipod, aí não precisam conversar com ninguém e podem colocar uma música que dite o ritmo daquela vida apressada, que nunca para. Eu ainda não consigo parar de me assustar com a pressa das pessoas em São Paulo.

Só quem parece não ter pressa são as senhorinhas amigas que jogam boliche todas as tardes, os senhores carecas de cabelos brancos e amigos que ficam jogando conversa fora e as mães que, nas manhãs ensolaradas, acompanham as suas babás que passeiam com seus filhos.

Tudo no Clube Pinheiros está tão no lugar certo quanto a vida das pessoas que passeiam ali. As pessoas se entediam, casam, compram apartamentos caros e contratam decoradores para colocar móveis caros que combinam uns com os outros, compram carro novo, compram presentes caros para os outros, fazem mochilão na Europa, MBA nos Estados Unidos, matriculam o filho na aula de natação filho e, com tanta coisa para fazer, não dá tempo de ter tempo livre, esse mal que desvia os pensamentos para coisas inúteis e diabólicas.

Cardápio, exercícios e coração

06/05/2009

Cardápio de segunda: risoto de camarão com caipirinha de vodka russa na casa do vizinho.

Cardápio de terça: arroz tailandês com dill e salmão co molho do iogurte e pepino na nossa casa.

Cardápio de hoje: sashimi de salmão de entrada e picanha com farofa e salada na casa de outro vizinho.

Ainda bem que todos os os dias ou eu ando de bike olhando o mar, ou eu corro olhando o mar, ou faço yoga ouvindo o rio ou nado no mar ou faço duas coisas combinadas. Se não eu explodia.

A vida ta mesmo boa aqui. Mas tenho que dizer que eu já to começando a querer cineminha na augusta, chopinho no filial e até uma balada moderninha, que é super a minha cara.

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Minha irmã que estuda Educação Física mediu minha frequência  cardíaca enquanto eu fazia cooper para um exercício da faculdade  e disse que meu coração bate muito acelerado. Alguém duvidava disso?

Eu não contei que…

04/05/2009

Eu não contei que, além de rio, passarinhos, comidas deliciosas e sossego, na casa da minha mãe tem uma dama da noite. E toda a noite ela insiste em espalhar seu cheiro pelo ar, deixando tudo perfumado de um jeito bom e sensual.

Eu também não contei que estou curtindo uma preguiça imensa e merecida de tudo e de quase todos e que meu corpo não pára de me falar que eu preciso alimentá-lo bem, descansá-lo bem e exercitá-lo bem.

E também não contei que estou um pouco triste porque esse blog que começou com a ju n’angola e virou o blog da ju no mundo agora vai ficar estacionado numa ilha em que tudo parece estar no seu devido lugar e por isso não acontecem coisas fantásticas ao meu redor a todo tempo para eu ficar divagando, perguntando e contando.

Não estou triste por mim, já que tudo o que eu quero e mereço (pelo menos por um tempo, até que meu desgovernado ascendente geminiano comece a reclamar novamente) é ficar estacionada num lugar só com comidas, pessoas e cheiros familiares.

Na verdade eu fico um pouco triste de perceber que vai ficando para trás um hábito que me deu muito prazer e diversão e que me ajudou a manter a sanidade e a rotina durante todo esse tempo. Faz sete meses que, faça chuva ou faça sol, esteja eu na tpm, na euforia, em Macau, em Krabi, em Luanda ou em Johanesburgo, feliz, medrosa, com o mundo desabando sobre mim, acordando ou indo dormir, eu escrevo nesse lugar virtual. Não importa o que eu estivesse fazendo, onde eu estivesse ou o que eu estivesse sentindo, eu tinha sempre pelo menos uma rotina: mostrar como eu estava vendo e percebendo o mundo naquele momento. Acho que vou ficar com saudade disso e da intensidade disso. Mas tudo bem, aos poucos vou recriando outras rotinas e escrevendo outras coisas, em outros espaços e de outros jeitos.

E de vez em quando, quando aparecer uma vontadezinha como apareceu agora, eu acho que ainda vou continuar por aqui postando coisas que talvez sejam desinteressantes ou talvez não.

Boa noite.