Posts Tagged ‘onibus’

Cena carioca

05/08/2009

22h, no ônibus da Gávea para Botafogo. Minha cabeça, que estava distraída nos pensamentos de uma fotinho que eu destruía em mil pedaços, demorou pra perceber que o ônibus faz uma parada mais longa do que devida e estava com o psica-alerta aceso. Só depois que eu notei que a cobradora não estava no ônibus. Devia estar apertada para fazer xixi, pensei, e o motorista, bem gentilmente, fez um stop. Depois de uns minutos ela voltou acompanhada do motivo da parada: uma sacolinha plástica com um sanduíche dentro. Ah é, aqui é o Rio de Janeiro.

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Na mesma toada desse historinha besta vão passando as histórias de um livro bem despretensioso que eu to lendo. Chama Como ser feliz sem dar certo — e outras histórias de salvação pela bobagem, do Carlos Moraes.  Tem umas historias bonitinhas, principalmente essas duas.

Poesia e informação

Mauro Vicente Robles, o mais jovem diretor da empresa, era tão sério que cada vez que um troço parecia meio assim, vaporoso, ele falava pro pessoal: “Tudo bem, gente, mas isso é pura poesia, na prática nada a ver.”

Uma noite tinha um encontro com uma mulher diferente, que muito o impressionara. Antes passou pela sua aula de inglês avançado. Foi quando o professor, a pretexto de explicar um verbo qualkquer, veio com o seguinte verso de um poeta inglês do século XVII, Alexander Pope, soube depois: “Fools rush in where angels fear to tread.”

Mauro era um perfeccionista, o professor também e um bom tempo lá ficaram os dois em busca da melhor versão. No fim concordaram nesta: “Só os idiotas vão com tudo ali onde até os anjos pisam devagar.”

Terminou a aula e Mauro foi para seu encontro com aquele verso de quase trezentos anos na cabeça, martelando. Aquela noite, devagar, começou a acontecer a melhor coisa que já lhe acontecera na vida e, daí pra frente, ele nunca mais disse de coisa nenhuma: é pura poesia.

Pedigrees

Depois de certa idade, a gente tem mais é que simplificar. Eu, que de muitas maneiras já dividi a espécie, hoje penso que só há dois tipos: os humanos e os mundanos. Os humanos são os que têm critérios principalmente humanos nas escolhas que fazem. Os mundanos, critérios mundanos. Na hora de ilustrar um e outro caso, dois nomes me ocorrem.

Alberto B. Lenzi muito contrariou a família ao casar com uma moça de família simples, mas magnificamente dotada, esta é a palavra, de sentimentos reais. Um sábado eu estava no sítio deles conversando com Alberto quando ela chegou lá do fundo do jardim com lágrimas nos olhos. O motivo: as primeiras flores de um manacá que ela e o marido haviam plantado juntos cinco anos atrás. Antes de ir lá conferir com a mulher, ele achou jeito de me perguntar: “Quantas PUCs vale isso, me diz?”

Já Lilita Vals do Couto era uma senhora tão fina que até na Aids do folho conseguiu encontrar o pedigree. O rapaz, um artista plástico até bem-conceituado, nem dois anos depois de ter pego o mal veio a falecer lá pelos sertões de Minas ou Bahia, à procura de um desses milagreiros que sempre aparecem. A mãe deve ter sentido, sim, mas fazia questão de ressaltar onde e de quem o filho tinha contraído a doença. Em Paris, de um bailarino russo, o que é que vocês estão pensando? Para que isso, aliás, ficasse bem claro ela nem Aids falava. Dizia Sida, ou melhor, Sidá.

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A casa sumiu

27/05/2009

A coisa mais estranha que aconteceu comigo ultimamente (e olha que coisas estranhas não andam faltando na minha vida ultimamente) é ter uma casa e não poder ficar nela, depois de já ter ficado tanto tempo sem casa pelo mundo.

Uma outra coisa um pouco estranha que aconteceu na minha vida ontem foi ficar escutando dentro do ônibus um poeta declamar uma poesia horrorosa sobre a mãe dele, a dona Maria Auxiliadora, e depois eu ter comprado a poesia horrorosa por 25 centavos.  Acho que foi porque eu fiquei com dó que um cara lá de trás ficava falando bla bla bla bla bem alto, no ritmo da poesoia do poeta, enquanto todos os outros amigos davam risada.

Outra coisa estranha foi eu não ter tido tpm. E estar com tensão pós menstrual. Acho que tem a ver com essa coisa da minha casa desaparecida. Sei lá. Só sei que está tudo meio estranho.

Hong Kong é no Ocidente

20/04/2009

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Um mês e pouco atrás, quando meus olhos pisaram pela primeira vez em Hong Kong, eles acharam as letras, as línguas, os gestos, os códigos, as comidas e os cheiros bem esquisitos e diferentes de todas as referências passadas. Sim, eu estava na Ásia e todas aquelas coisas desfamiliares me diziam isso. Agora, depois de ter andado um pouco por aí (um pouquinho que não é quase nada para o tamanho e a variedade da Ásia), meus olhos voltaram novamente a pisar em Hong Kong ontem a noite.

Eu sabia onde era a fila da imigração, que para chegar na Nathan Road era só pegar o ônibus A21 que custa 33 hkd, sabia até onde era a bilheteria e mais ou menos onde o ônibus ia parar. Acertei até o ponto que eu tinha que descer.

Ainda não me acostumei totalmente com os carros vindo na mão errada, mas já não pareço tão idiota atravessando a rua, já não me assusto mais que o albergue fica num prédio que tem escritórios baratos, putas, gatos passeando, encanamentos vazando, camelôs, as placas dizem um nome mas os nomes verdadeiros são outros. Já também nem me impressiono mais com a enxurrada de indianos e árabes que colam atrás de você te oferecendo suits, copy rolex, cheap hostel, já sei que é tudo bem comer no restaurante que tem patos e galinhas sem pele pendurados na entrada, já não fico mais tão confusa quando as pessoas furam a fila ou correm para pegar o assento do metrô porque sei que aqui é assim mesmo, é gente demais. Já sei comprar tiquetes de metrô com moedinhas, também sei que tem que guardar o ticket para liberar a catraca na saída e que quando não tem troco é só ir numa cabine que um funcionário troca o dinheiro pra vc, mas nao vende a passagem. Sei também que as roupas aqui são todas de marcas, lindas e caríssimas.

Em Hong Kong não preciso comer só soup noodles, pois tem queijo feta ou outros queijos, massa e um starbucks em cada esquina. Não preciso fazer mímica igual louca. Não preciso comer na rua e nem sentar em mini bancos e nem ir em restaurantes que são também salões de beleza ou a casa das pessoas. Em Hong Kong quando eu saio de havaianas na rua me sinto maloqueira. Em HK as pessoas não param para tirar foto de mim e as placas são te ensinam a fazer tudo sem dificuldade.

Nossa, tudo está muito familiar aqui para mim. Hoje, Hong Kong para mim está no Ocidente.

O ultimo capitulo

18/04/2009

Eu podia ficar horas contando sobre as coisas esquisitas das ruinhas de Hanoi, sobre as plantacoes de arroz de Sapa, sobre o trem, as pessoas incriveis que eu fui conhecendo no caminho ou sobre umas pessoas bem pequenas de etnias minoritarias das montanhas que nos levam ate suas casas e nos fazem almocar la e nos sentir super em casa. Eu podia ficar horas falando sobre muitas outras coisas que eu vi, vivi e senti aqui…

Mas eh que agora fica mais dificil porque o meu coracao ja nao ta mais por aqui. Os nossos coracoes se transportam no espaco e no tempo quando bem entendem, sem que seja necessario fazer uma maratona de voos e aeroportos. Entao o meu ja foi na frente e ja se reocupou todo de novo de pessoas, coisas e sentimentos imensos que eu deixei para tras ha seis meses e dois dias.

Hoje, no resto do sono que eu tive na cama confortavel de um hotel, depois de passar a noite chacoalhando no trem de volta para Hanoi, tive um sonho estranho que foi igual a ultimo capitulo de novela. Nao que ele teve um desfecho ou a solucao de um misterio, longe disso. Mas o meu sonho juntou, igual casamento de ultimo capitulo de novela, um monte de pessoas e lugares que sao ou foram muito importantes para mim nos ultimos tempos. Teve vovoh, amigos antigos e amigos novos, a Cacau e sua barriga de gravida, mae, pai, irmas e irmao, barcos e onibus, chuva, tia Ruth, tio Marcos, vietnamitas fantasiados de roupas angolanas, terapeuta, gente que outras gentes do sonho nao conhecem, vagoes de trem, comida boa, um enorme salao de festa.  

Agora que o coracao ja esta la, so falta o corpo chegar de volta.