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Novo léxico familiar

19/03/2011

Caros amigos,

é com imenso prazer que vos apresento o maravilhoso léxico de palavras, expressões e perguntas de uma família que, desde o dia 25 de janeiro, luta para não perder a sanidade. Infelizmente, alguns já tombaram pelo caminho.

escaras
cuidador
órtese para pé equino
comprou uripen?
com ou sem micropore?
sertralina
estado de tetraplegia
mas tem alguma referência do hospital?
agora de manha não tem vaga, ela vai ligar as 13h pra saber se tem

optamos nesse momento pela opção de 12 horas, pois o Zé ainda está demandando muitos cuidados.
impulsos elétricos
por que as pernas recuperam-se mais rápido que os braços?
home care
tamarine sempre antes do almoço
qual a diferença entre fisioterapia e terapia ocupacional?
hemorroidas
colar ortopédico com ou sem espuma?
aquele andador que você nos emprestou não serve agora, porque ele só trava as rodas acionando o freio
sinvastatina
compraria se a receita não fosse controlada
neurocirurgião
dor
andador
ardor
lisador
precisa de mais uma caixa de luvas cirúrgicas
o braço esquerdo pesado é resultado da ausência de movimento ou de algum fenômeno neurológico?
edema
o assento para cadeira de rodas é com ou sem termogel?
há algum comprometimento em áreas relativas à cognição?
esfincter
fora isso, temos que combinar quem vai acordar as 5h da manhã pra ficar no lugar da Neli até a enfermeira chegar as 8h
a cicatrização medula é que demora
tem a gino ou a rimed
mas o seguro não deveria cobrir esse exame?
clinica de reabilitação
qual é a definição de “fase aguda” nesse caso?
ambulância
atende
não atende

Alô?

Ooooi, tudo bem. Obrigada por ligar. Sim, estamos indo bem. Muito bem. Cada dia melhores. Claro, é uma recuperação lenta, mas estamos confiantes. Obrigada por ligar. Um beeeeijo.

Alô? Alôôôôôôô?

Tu-tu-tu-tu-tu-tu

O filme da lua no cinema longe

01/07/2010

Quando a cabeça e o corpo não precisam se ocupar de nada que é necessário, sobra todo o resto das coisas para se fazer. Esse todo resto das coisas de ontem foi ver o filme da lua no cinema longe.

A lua nasce sempre uma hora depois do dia anterior. Então, como antes de ontem ela nasceu às vinte uma e tal, bem na hora da quermesse, significa que ontem ela apareceria umas vinte e duas e tal.

Antes do filme da lua começar, teve o filme das estrelas. No mundo do Mwanito, Jerusalém, inventado pelo Mia Couto, as estrelas foram furadas pela espingarda do Zacarias Kalash. Mas e aqueles borrões brancos que não são um único furo, mas um conjunto de milhões deles, que formam um tecido que só enxergamos quando não tem luz da lua nem luz da cidade? Não sei bem o que eles são, se são os furos da espingarda ou se foram os estragos de uma granada. Mas são bonitos.

Por quase uma hora, o carro subiu a serra, guiado por aqueles farois que iluminavam dramaticamente as árvores retorcidas, as corujas, o condomínio de pedras, os mata-burros, as porteiras. Lindo mesmo era quando os farois eram colocados para dormir no meio da estrada. E aí ficávamos só nós dois, meu pai e eu, escutando o silêncio.

O cinema é a casa do Creuso e da Aline, lá no alto, no meio do nada. É uma tela gigante, 3D, acho que deve ser até 4D. Dá para ver a imensa Delfinópolis lá embaixo e, pela ausência de luzes, dá para imaginar onde está a represa. Dá para ver também como o céu é preto, e não rosa, como a gente enxerga em São Paulo. E como o vento é frio. Dá para ver um chuveiro que nunca desliga com uma botina tomando banho. Lá por detrás dos morros, do outro lado, começa a ficar claro igual o dia raiando. Mas ainda não é o sol do dia. É o sol da noite. Esse sol da noite deixa visível as silhuetas dos morros e das árvores, mas não os detalhes das coisas. Ver à noite é um jeito diferente de ver de dia: existe só o escuro e o claro, nada mais. Depois que as silhuetas aparecem, vem a lua, toda brilhosa, meio cor de caramelo, ofuscando o brilho das estrelas furadas pelas espingardas. O filme foi tão bonito que eu desci a serra na companhia do meu pai e da Billie Holliday já dormindo, com aquele sacolejo bom das estradas de terra.

Uma breve história do meu pai

20/04/2010

Olhem por que eu sou assim:

Uma breve história do meu pai


Ele é engenheiro formado pela poli. Lá no passado teve uma esposa, quatro filhos, uma casa enorme, uma fábrica de compressores de ar uma vida confortável, com casona, caseiro, cachorros e piscina e tudo mais nos eixos. Mas aí empresa se deu mal naquele tempo do collor em que todas as empresas se davam mal, o casamento acabou e ele foi trabalhar por outros, abriu umas franquias e tocou alguns negócios que fizeram a gente sobreviver, mas o dinheiro minguar. Conheceu a Vera. Brigou com a vera, a Vera brigou com a gente, a gente brigou com ele. Terminou com a Vera. Voltou com a Vera. Muitas vezes. Depois abriu uma agência de turismo para quem tem carrões quatro por quatro e essa coisa de criar filhos. Essa coisa de não ter dinheiro com filhos pra criar e recomeçar um negócio era tão estressante, mas tão estressante que ele virou uma bomba atômica. Aí a bomba explodiu. Um mês e meio na UTI e o mundo virou de cabeça pra baixo. Essa coisa de nascer de novo faz isso. Tempos difíceis, recuperação milagrosa, falta de dinheiro, falta de perspectivas, depressão, medo, 60 anos sem dinheiro, sem empresa, sem trabalho e sem concentração, que foi levada pelo AVC. Mas com uma mulher incrível, uma ex-mulher incrível e quatro filhos incríveis. Aí ele casou, de papel passado, com uma festa deliciosa e com a sábia decisão de ir o marido pra uma casa e a esposa para outra. Ele resolveu diminuir o tamanho da sua vida: trocou a casona por um apartamento, comprou um taxi, um alvará e virou taxista por São Paulo. Sem dar a mínima pra quem disse que isso era decadência. Decadência nada. Isso é decência. Decência por entender que o importante na vida é fazer o que gosta: tocar saxofone, estudar música, ir pro clube fazer spinning, ficar com sua mulher, fazer uns almoços com os filhos em casa, tomar banho de cachoeira e não ter grandes preocupações. Ele recomeçou tudo de novo. Recomeçou melhor – menor, mais calmo, mais feliz, se importando com as coisas mais certas. Entendendo de uma forma definitiva que as coisas pequenas são as que mais importam. E aí quando tá tudo calminho e nos eixos ele muda tudo de novo. Comprou uma casa em Delfinópolis, 5 mil habitantes, lá na Serra da Canastra, com planos de se mudar daqui a 3 anos. E de repente vendeu o taxi, o alugou o alvará, comprou um 4×4, fez um camping pra não dar certo, estendeu uma rede na varanda e pronto. Os três anos viraram três meses. Ele agora está lá no interior, feliz da vida, todo sem pressa, sem barulho, sem estresse, completamente realizado com tudo o que ele construiu – e desconstruiu na vida.

Família globalizada

22/07/2009

familia2

Meu irmão vai morar fora do brasil amanhã. Vai encontrar uma irmã que já mora lá. O apelido dele é Cuzão e todo mundo na família ocasionalmente chama ele assim. Mas hoje em dia ele cresceu e nem é mais cuzão. Minha mãe não mora em São Paulo e se hospeda na casa do meu pai, que é casado com a madrasta. Eles namoraram uns dez anos e casaram de papel passado há dois. Mas meu pai mora na casa dele e a madrasta na dela e eles durante a semana ficam nas suas respectivas casas e no fim de semana reunem as escovas de dentes. Meu pai também tem uma casa na Ilhabela, que é onde minha mãe mora junto com outra irmã. Mas quando meu pai e a madrasta vão para lá, preferem ficar na casa da minha mãe, que é confortável, silenciosa, tem cachoeira, tucanos, abacates, tem boa comida e todo mundo se dá bem. Quando meu pai ficou muito doente e teve que ficar 2 meses no hospital entre a vida e a morte, minha mãe veio morar na casa do meu pai para cuidar dos filhos e do meu pai. Mas a madrasta, que na época ainda não era madrasta de papel passado, também cuidava dele e meu pai era conhecido no hospital como o homem das duas esposas.

A filha da madrasta mora da europa há muitos anos. Ela veio para o Brasil no ano passado e também ficou na casa da minha mãe na Ilhabela junto com a sua esposa. As três ficaram muito amigas porque trabalham com coisas parecidas — minha mãe restaura moveis e a esposa da filha da minha madrasta é marcineira.

No Natal, quando os filhos moravam todos no mesmo país, a gente reunia a família do meu pai com a da minha mãe e todos passavam o natal juntos. Durante dois natais, além das duas famílias, havia também uns dez filhotes de boxer espalhados pelo jardim, porque a Maia sempre pulava a cerca e cruzava com o Pancho.

Hoje somos todos amigos, as duas famílias são uma só. Quer dizer, as três: a do meu pai, a da minha mãe e a da minha madrasta. Mas nem sempre foi assim. Houve brigas, confusões, desentendimentos, rompimentos, rancores. Mas isso foi sendo resolvido aos poucos, os filhos foram crescendo, as pessoas foram se adaptando e adaptando as suas expectativas e hoje todos convivem mais ou menos harmonicamente.

É claro que a historia não é só bonitinha assim. Família dá trabalho, dá dor de cabeça, tem um monte de gente maluca, faz a gente herdar coisas que não gostaria e parar na terapia. Mas, de uma maneira geral, acho que a nossa família é legal. E o que eu acho mais legal é que ela não veio pronta. Foi sendo construída, desconstruída, foi se moldando de acordo com o tempo e com as demandas de cada um, até ganhar essa cara que ela tem hoje.

Eu tenho orgulho da minha família e morro de saudade dos que moram longe, seja nesse país ou em outro. Mas também acho que a gente se dá bem melhor com a família quando cada um busca seu caminho e quebra esses laços de ter que obrigatoriamente ficar perto e falar todos os dias e saber de tudo da vida dos outros.

Cuzão, boa viagem! Abraça bastante a Marina!