Posts Tagged ‘passado’

Tudo de novo

03/04/2010

Quando me dei conta eu já estava lá, reabrindo com umas chavinhas uns compartimentos da cabeça que foram fechados em algum lugar do passado. Efeito de assistir um filme francês em uma noite de tpm-ressaca-e-bué-de-trabalho que me fez chorar do início ao fim. Era um filme bonito, sobre o recomeço, sobre o amor, sobre a dor. E de repente o filme acaba e quando aquela música francesa bem melancólica no piano ainda está tocando me pego lendo palavras que já não pertencem mais a esse tempo, escritas por homens que já estiveram, por mais ou menos tempo, no compartimento do tempo presente. Palavras doces, palavras duras, palavras de amor e desamor, palavras que eu não entendi, palavras que me enganaram, que me fizeram amar mais ou sofrer mais. Ingênuas, desencontradas, mentirosas, separadas por um oceano, por um bairro ou por uma fração de segundo. Palavras que faziam planos a dois quando outros planos a dois já haviam sido traçados. Palavras ultrapassadas. Mortas. Mas que machucam, orgulham ou aborrecem quando as caixinhas em que elas moram são reabertas. Reabrindo essas caixinhas dá vontade de dizer o que não foi dito, de fazer diferente, de repetir tudo mais uma vez. Mas, principalmente, dá vontade de recomeçar a amar tudo de novo, antes que eu me esqueça como é que se faz.

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Águas da Ilha

07/12/2009

Essas águas são as mesmas que banharam as terras que minha bisavó nasceu, que minha avó e seus nove irmãos nadaram enquanto na terra não havia estrada nem carros e quase não havia casas, apenas a delegacia, a igreja, o pontão e uma ou outa coisa. Eles comiam pão quente com manteiga no pontão e as águas eram bem pouco iluminadas, pois a cidade que ficava do outro lado do canal era ainda pequenina. São as águas que meus avós olharam quando namoravam, que meu pai brincou com seus montes de primos na praia que antes do porto tinha uma areia comprida na frente, que meus pais que meus avós olharam quando namoravam.

São as mesmas águas calmas que eu aprendi a nadar, que meus irmãos aprenderam a nadar e que à noite ficam brilhantes por causa dos plânctons.

São essas águas que me revitalizam carregam as baterias pelo menos uma vez em cada mês, sobre as quais eu me deito e olho o céu e os morros. Os morros têm cada vez mais casas.

Essa é a água mais familiar que eu conheço. É a água que eu poderia chamar de casa, se desse para chamar alguma água de casa. Ou de mãe.