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G.

08/11/2008

G. é chefe de arte talentoso e trabalhador, que bota a equipe pra funcionar. Uma vez por semana, em vez de dormir à noite, ele fica na gráfica acompanhando a impressão do jornal e só quando as candongas acordam para trabalhar é que ele pode voltar para casa. G. anda elegante pro trabalho, vestindo gravata, camisa e calça social. Na semana passada, G. estava preocupado e não pôde ir trabalhar, pois sua filha, que tem dois anos só, apanhou paludismo, provavelmente o primeiro de muitos. G. tem um iphone cheio de música. Mas não tem internet em casa pra carregar as músicas. G. tem que comprar água para banhar, cozinhar e limpar dos vendedores que andam pelas periferias carregando baldes, pois os canos não chegam até sua casa. G acabou de comprar um Mac com monitor de 32 polegadas. Pagou caro, economizou, mas tem certeza de que é uma ferramenta de trabalho importante. G., que é professor, quer passar um tempo no estrangeiro para fazer um curso um design. G. vai longe na vida.

Sobre o Jornal de Economia & Finanças

06/11/2008

Até agora falei bem pouco sobre o trabalho. Pois ando a trabalhar tanto que está difícil falar sobre ele. Mas o trabalho está fantástico.

Para quem caiu de pára-quedas, vim para Angola para trabalhar no Jornal de Economia & Finanças, a primeira publicação em Angola focada em economia. Circula semanalmente, às sextas-feiras, e foi lançado há pouco mais de dois meses. O jornal pertence ao todo poderoso governo, que também é dono do Jornal de Angola, o único diário do país, da agência de notícias Angop, da TV aberta e de umas quatro ou cinco rádios.  

O governo contratou uma equipe de consultores brasileiros para ajudar o time angolano a colocar o jornal para funcionar. Colocar o jornal pra funcionar vai muitíssimo além dos desafios jornalísticos — criar um projeto gráfico e editorial, formar e treinar uma equipe, fechar no horário, vender anúncios, etc –, que, por si só, são enormes já.

Também é preciso encontrar meios de lidar com a falta diária e constante de energia elétrica e de água, de convencer o motorista de que horário redação é não ter horário, de convencer autoridades de que não necessariamente há formas mais fáceis de atender a imprensa do que por meio de cartas oficiais que demoram semanas para cehgar aos destinatários, de ensinar um repórter não a fazer uma reportagem, mas a usar o email ou o google, de comprar tinta de impressora, de entender que os problemas das pessoas fora da redação são muitos e nem sempre elas podem estar no trabalho no horário de trabalho.

Mas acho que o  maior desafio é aprender a lidar com os nossos próprios preconceitos, com a nossa falsa idéia de superioridade e, principalmente, reaprender a lidar com o tempo. Sim, sou ansiosa, fico nervosa, me descabelo, conto até dez, até mil, até dez mil, pressiono os repórteres, ligo três vezes seguidas, fico brava quando alguém marca e não aparece. Sim, eu quero que as pessoas do jornal aprendam a lidar com o compromisso profissional de uma forma mais… profissional. Mas não adianta eu querer resovler as coisas só do meu jeito. As vezes (muitas vezes) tenho que simplesmente dar o braço a torcer, observar e confiar que dá pra fazer de um jeito diferente, que eu nem imagino qual. E dá mesmo.

O Gaspar, lá da arte, me disse que acha que eu já estou bem mais calma. Fiquei fiquei feliz com isso.

Essa Coluna Primeiro Plano foi uma novidade que eu ajudei a implementar no jornal na primeira semana em que cheguei. Ela passou por algumas transformações já, mas fiquei satisfeita com o resultado. Vou ver se consigo colocar mais PDFs do JE. Em breve, faremos um site. Aí fica mais fácil de mostrar. Aguardem.

 

Quando estou de saco cheio

05/11/2008

Quando estou de saco cheio porque o fechamento não acaba e não tem perspectivas de acabar, quando estou de saco cheio porque o motorista resolveu, por conta própria e sem comunicar ninguém, abortar a pauta que seria feita no Cacuaco porque há engarrafamento, quando estou de saco cheio porque uma rua que só tem uma mão, mas carros enormes que vêm dos dois sentidos se amontoam de um jeito que demora mais de 20 minutos para passar, quando estou de saco cheio porque uma das tantas conseqüências de tantos anos de guerra é que as pessoas não são acostumadas a trabalhar o dia inteiro e simplesmente desaparaecem quando querem sem dar satisfação e o trabalho acumula e quando estou com o coraçãozinho apertado de tanta saudade das coisas que ficaram do outro lado do oceano, vou até o terraço da nossa redação tomar uma brisa fresca que vem do mar que está próximo. Não fumo, mas é como se eu ficasse lá esperando pensativa o cigarro se fumar sozinho.

Já postei umas fotos do terraço. Mas acho que essa aqui descreve melhor como me sinto hj.

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Meu terraço

29/10/2008

Nossa redação é muito chique pros padrões angolanos. Pros padrões a que estamos acostumados, ela é normal. Tem cara de escritório. O engraçado é que ocupamos um andar no meio de um prédio residencial. Isso é comum por aqui — tem até hotel que funciona nesse esquema.

Ficamos no primeiro andar. Nesse piso, temos um…. terraço. Fui tirar umas fotos e apareceram essas crianças fazendo pose. Dêem só uma olhada.

Essa outra foto é de um outdoor da Coca que tem pela cidade inteira e que eu adoro. Também foi tirada do meu terraço.

O trabalho não acaba 2!

23/10/2008

Agora já passa um pouco de meia noite e continuo na redação, esperando o fechamento terminar. Os designers nesses exato momento estão tirando fotos uns dos outros e deformando os traços no photoshop. E tem trabalho ainda pra fazer. Eu preferia estar em casa. Hmpf.
Bom, pelo menos hoje eu fui na piscina dos Aqualoucos. Pelo menos amanhã é sexta e o trabalho é pouco. Pelo menos minha TPM se foi.

O trabalho não acaba!

22/10/2008

São 21h e estou há quase 12 horas na redação. Não que não esteja acostumada com fechamentos caóticos, mas como aqui tudo é novidade, minha cabeça e meu corpo se cansam mais. O jornal é semanal e sempre fecha às quintas-feiras, mas quarta parece ser o dia mais puxado. Além dos problemas normais de fechamento, temos que gerenciar outras coisas, como providenciar água para a casa (sim, a água acabou de novo), combinar horários com o motorista, descobrir como se liga para um telefone fixo, (tentar) escrever no português de Portugal, etc.

Está sendo muito interessante trabalhar numa equipe mista de brasileiros e angolanos. As duas partes têm muito o que aprender. É engraçado que a comunicação às vezes emperra com as diferenças de cultura e de língua. Vou ver se consigo postar umas fotos em breve. Por enquanto ainda está um pouco difícil.