Posts Tagged ‘rio de janeiro’

O que venho aprendendo em dez dias no rio

27/03/2010

Eu já conheço bem essa cidade, já me apaixonei por ela e por pessoas dela, sei me locomover direitinho, tenho um monte de amigos espalhados, sei que todos os táxis da rodoviária e do aeroporto te roubam, sei chegar na praia da joatinga, que bangu é o lugar mais quente do rio e que o ar dessa cidade tem um gosto especial.

Mas nesses dez dias que eu vim passar aqui eu tenho aprendido algumas coisas novas:

– as bicicletas têm suporte para levar a prancha de surf

– às 18j parece que a cidade inteira acaba de trabalhar vai para perto do mar fazer atividades ao ar livre: corrida, caminhada, papo furado, samba, futebol

– em cada esquina tem uma casa de suco

– ver o mar todos os dias faz um bem danado

– a 20 minutos da sua casa tem cachoeira

– as pessoas usam poucas roupas e ninguém se importa com isso

– uma pessoa que não entende isso aqui, apesar de ter a cara disso, me faz ter saudade

– da pra ir num restaurante ou na casa de um amigo com o pé de areia e o corpo de protetor

– levar caldo faz parte da rotina

– uma cidade musical é bem mais alegre

– trabalhar não é a única coisa que importa na vida

– fazer uma coisa legal com gente chata é a mesma coisa que fazer uma coisa chata

– criar uma coisa nova e bacana com gente bacana e inteligente é incrível

– estar onde a gente gosta faz a gente trabalhar melhor

– eu ainda vou vir morar aqui

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Música clássica

10/08/2009

Lá em Vigário Geral.

afro

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Nóis no morro

07/08/2009

Os batuques que hipnotizam, a ginga despreocupada que esnoba os olhos dos outros, a música, a cor das pessoas, os cheiros de coisas boas e coisas estragadas, os sorrisos, a organização pelo caos, o peso do ar, e principalmente, esse jeito de abraçar, de beijar e de ficar a vontade com os outros. Tudo isso me levou para outro tempo, o tempo que eu vivi lá do outro lado do mar. Mas o lugar era desse lado de cá, era Vigário Geral. Mas é tudo parecido, é tudo irmão, ou primo, ou descendente ou sei lá o que.

Um lado se inspira no outro, mesmo que as pessoas nem saibam disso; as energias vão e voltam sem cessar; e quando elas fazem esse percurso natural de ir e vir, elas se transformam, têm outra feição, se reinterpretaram. E quando elas fazem isso elas ganham mais força a ainda para continuar indo e vindo e emocionando e contagiando as pessoas.

Os meninos que dançam e tocam e sincronizam seus movimentos e dão risada enquanto fazem essas coisas todas numa certa altura gritam kuduro. Kuduro é o futuro. Kuduro nasceu lá do outro lado, mas é primo do funk. E quando ele viaja dos Combatentes ou do Sambizanga para Vigário Geral ou Rocinha ou Parada de Lucas ele já não é mais kuduro, é outra coisa. E aqueles meninos sabem de tudo isso.

Esse Waly Salomão fica pintado quadra da entrada de Vigário Geral

Esse Waly Salomão fica pintado quadra da entrada de Vigário Geral

Coisas simples da vida

05/08/2009

Quem é criado no mato, quando vai para a cidade sente falta de bué de coisas. Coisas tão bobas que a pessoa até demora para entender quais são essas coisas.

O que eu mais sinto saudade é do silêncio que faz à noite, que não necessariamente é um silêncio total, mas é silêncio do barulho da cidade, da fumaça, do carro, do caminhão, do zunido baixinho que nunca cessa.

A segunda coisa que mais me dá saudade — e essa eu demorei bastante pra descobrir — foi pisar na terra. Em São Paulo, parece idiota, mas não dá pra pisar na terra, só da pra pisar no asfalto. E no Rio dá. Tem esse monte de areia da praia bem na sua frente. Em Luanda dava também e a coisa que eu mais gostava de sentir quando eu chegava na praia — na Ilha, no Mussulo ou no Kwanza — era a cosquinha e o quente que areia fazia nos meus pés. Eu ficava andando com os pés arrastados só para aumentar essa sensação boa do contato da areia com a pele. E depois enterrava meus pés para sentir a umidade e o frio da água do mar que fica debaixo da areia.

Minha terapeuta me conta que um povo de algum lugar do mundo, quando quer tratar uma pessoa enferma do corpo ou da cabeça, enterra a pessoa toda debaixo da terra, so deixa a cabeça, para as energias ruins se dissiparem para a terra. Quando eu piso na terra eu sinto isso na hora. Um descarrego.

Hoje, depois de correr 45 minutos, antes de voltar para casa, eu tirei o sapato e fui entregar os meus pés para a areia. E o barulho do mar para meus olhos e meus ouvidos. Essa cidade maravilhosa me faz um bem danado.

Cena carioca

05/08/2009

22h, no ônibus da Gávea para Botafogo. Minha cabeça, que estava distraída nos pensamentos de uma fotinho que eu destruía em mil pedaços, demorou pra perceber que o ônibus faz uma parada mais longa do que devida e estava com o psica-alerta aceso. Só depois que eu notei que a cobradora não estava no ônibus. Devia estar apertada para fazer xixi, pensei, e o motorista, bem gentilmente, fez um stop. Depois de uns minutos ela voltou acompanhada do motivo da parada: uma sacolinha plástica com um sanduíche dentro. Ah é, aqui é o Rio de Janeiro.

***

Na mesma toada desse historinha besta vão passando as histórias de um livro bem despretensioso que eu to lendo. Chama Como ser feliz sem dar certo — e outras histórias de salvação pela bobagem, do Carlos Moraes.  Tem umas historias bonitinhas, principalmente essas duas.

Poesia e informação

Mauro Vicente Robles, o mais jovem diretor da empresa, era tão sério que cada vez que um troço parecia meio assim, vaporoso, ele falava pro pessoal: “Tudo bem, gente, mas isso é pura poesia, na prática nada a ver.”

Uma noite tinha um encontro com uma mulher diferente, que muito o impressionara. Antes passou pela sua aula de inglês avançado. Foi quando o professor, a pretexto de explicar um verbo qualkquer, veio com o seguinte verso de um poeta inglês do século XVII, Alexander Pope, soube depois: “Fools rush in where angels fear to tread.”

Mauro era um perfeccionista, o professor também e um bom tempo lá ficaram os dois em busca da melhor versão. No fim concordaram nesta: “Só os idiotas vão com tudo ali onde até os anjos pisam devagar.”

Terminou a aula e Mauro foi para seu encontro com aquele verso de quase trezentos anos na cabeça, martelando. Aquela noite, devagar, começou a acontecer a melhor coisa que já lhe acontecera na vida e, daí pra frente, ele nunca mais disse de coisa nenhuma: é pura poesia.

Pedigrees

Depois de certa idade, a gente tem mais é que simplificar. Eu, que de muitas maneiras já dividi a espécie, hoje penso que só há dois tipos: os humanos e os mundanos. Os humanos são os que têm critérios principalmente humanos nas escolhas que fazem. Os mundanos, critérios mundanos. Na hora de ilustrar um e outro caso, dois nomes me ocorrem.

Alberto B. Lenzi muito contrariou a família ao casar com uma moça de família simples, mas magnificamente dotada, esta é a palavra, de sentimentos reais. Um sábado eu estava no sítio deles conversando com Alberto quando ela chegou lá do fundo do jardim com lágrimas nos olhos. O motivo: as primeiras flores de um manacá que ela e o marido haviam plantado juntos cinco anos atrás. Antes de ir lá conferir com a mulher, ele achou jeito de me perguntar: “Quantas PUCs vale isso, me diz?”

Já Lilita Vals do Couto era uma senhora tão fina que até na Aids do folho conseguiu encontrar o pedigree. O rapaz, um artista plástico até bem-conceituado, nem dois anos depois de ter pego o mal veio a falecer lá pelos sertões de Minas ou Bahia, à procura de um desses milagreiros que sempre aparecem. A mãe deve ter sentido, sim, mas fazia questão de ressaltar onde e de quem o filho tinha contraído a doença. Em Paris, de um bailarino russo, o que é que vocês estão pensando? Para que isso, aliás, ficasse bem claro ela nem Aids falava. Dizia Sida, ou melhor, Sidá.

Leve

02/08/2009

flores

Hoje tem sol depois de muitos dias sem ele.

E eu to calminha, calminha. E escrevi mais uma partezinha do meu livro.

E eu não tenho geladeira em casa porque minha roomate foi embora derepentemente com suas coisas e sua geladeira. Mas eu não estou preocupada com isso. Levei as coisas para a casa do meu pai e comprei um vinho, um chocolate special dark, uma manteiga, um pão fresco e umas frutas que não vão na geladeira. E fui tomar café da manhã na padaria.

E eu vou comprar sal grosso pra espantar as energias negativas da casa.

E as minhas flores estão florindo porque eu voltei a cuidar delas, mesmo sem saber se elas vão continuar morando aqui. A orquídea já floriu, a violeta também e o bambu tem brotos novos.

E eu já estou de malas prontas porque vou passar  a semana no Rio de Janeiro.