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O Novo Jornal

29/05/2009

Eu já contei aqui que dia desses um amigo angolano veio pra SP e fomos lá passear no Brás, onde centenas de angolanas que atravessam o Atlântico vão comprar roupas para vender lá n’Angola, sobretudo no Roque.

Aí esse amigo trabalha no Novo Jornal, que é meu preferido lá de Angola. Assim como todos os outros  jornais privados, ele é semanal e sai às sextas-feiras (os dois únicos jornais diários são o Jornal de Angola e o Jornal de Desportos, ambos do governo).

Esse meu amigo fez uma matéria muito bacana e divertida sobre esse comércio Brás – Luanda. As fotos são minhas. Teve até chamada de capa. Agora a ideia é que periodicamente eu colabore com eles. Quem se interessar em ler, aí está a matéria.

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A Taag e o Brás

16/05/2009

A Taag, a empresa aérea falida do governo angolano que perdeu minha mala e depois reencontrou e que perde a mala de um monte de gente todos os dias, agora vai voar três vezes por semana para São Paulo. Antes ela só voava para o Rio, o que não estava fazendo sentido, pois é para cá que as pessoas de lá costumam vir e é daqui que as pessoas daqui costumam sair.

Aí como a Taag inaugurou esse vôo e o dinheiro dela sai da torneira feito água, ela resolveu chamar um monte de jornalistas e pessoas oficiais para fazer esse primeiro vôo. Foi assim que meu amigo Tugolano veio parar aqui por uns dias. Ele é da turma dos jornalistas, não das pessoas oficiais.

E aí eu disse para ele que ele tinha que ir fazer uma matéria no Brás, que é um grande pólo de roupas e calçados, e ele topou. No Brás está cheio de sacoleiras angolanas que atravessam o Atlântico para comprar havaianas, sapatos, calcinhas, cuecas, jeans, blusas, cabelo brasileiro, meias e outras coisas para revender lá em Angola, que ainda não teve tempo de desenvolver uma indústria consistente e tem que importar quase tudo.

Eu mesma já tinha feito essa matéria antes e então já soube indicar certinho os hoteis, as transportadoras, os restaurantes e as ruas para encontrar as pessoas e as informações. Fomos na transportadora palancas, no hotel que serve calulu, funge e muamba de galinha, ficamos sabendo da discoteca que toca kizomba e ficamos a ouvir bué de histórias engraçadas. Ah, também tinha um hotel com aqueles relógios que mostram os horários em várias cidades do mundo e as cidades eram São Paulo, Luanda, Johanesburgo e Lisboa.

Conhecemos um casal de coreanos que vende 90% da sua produção para angolanas. E clientela é tão fiel e a dona encontrou um nicho tão bom que ela mesma foi lá em angola em 2004 para visitar pessoalmente a terra e os hábitos dos seus parceiros comerciais. No balcão da loja tem uma foto dela no aeroporto 4 de fevereiro, um bolo com a bandeira de angola, bué de pessoas a dançar kizomba e uns comércios lá no Roque Santeiro. A dona está tendo tanto sucesso nos seus negócios que seu sotaque um pouco puxado para o coreano chama todo mundo de amigo ou amiga, como se faz lá do outro lado.

O que eu mais gosto desse comércio das sacoleiras é que praticamente um país inteiro se veste graças às viagens dessas moças. O mais natural para a nossa lógica seria que um ou alguns empresários montassem um negócio gigante que levasse contêineres e mais contêineres de roupas do Brás para Luanda. Seria mais simples, mais barato, mais direto, mais econômico. Mas o mais lógico nem sempre é mais lógico para todo mundo ou nem sempre as coisas funcionam da forma mais lógica. Então as mulheres pagam suas passagens, trazem seu kumbu em espécie, vão nas lojas que suas amigas indicaram ou que elas já conhecem, compram as quantidades e as qualidades que elas gostam, pagam a vista, carregam suas malas com o peso máximo permitido, pagam todo o excesso de bagagem permitido, levam suas mercadorias de volta e revendem no Roque, nas ruas, nas pequenas lojas ou na sua casa, tudo bem informalmente. Como é tudo bem caro por lá, essa empreitada compensa.

O chão do Roque

28/12/2008

roque

O Roque Santeiro é famoso em Angola e no mundo. É um dos maiores mercados a céu aberto do mundo. Todo mundo que vem pra ca fala dele, mas nem todos efetivamente colocam os pés pelaquelas bandas, pois as lendas urbanas contam que os gatunos pegam os pulas, viram de ponta cabeça e chacolham até todo o dinheiro cair no chão.

No Roque, assim como todos os lugares em que muitas pessoas se aglomeram, há muita informação vinda de todos os lados e é fácil um gatuno roubar alguém sem ser percebido e ser for percebido desaparecer na multidão.  Mas isso é assim no Pelourinho, no jogo de futebol, na 25 de março, no ensaio da escola de samba.

Lá no Roque vende-se de tudo. De tudo mesmo. Fogão, comidas, ervas, enlatados, remédios, farinha, carvão, peixe, roupas, sapatos, tecidos, eletrónicos, armas, música, mulheres e muitas etceteras. E tudo é mais barato do que nos mercados, nas zungueiras e nas lojas. O mercado é um labirinto gigantesco de corredores e toldos e estacas para prender os toldos e carros que tentam circular por uns caminhos que eles pensam que são ruas.

Uma das coisas que eu achei mais fantásticas do Roque é que o chão é temático — ele varia de acordo com o que é vendido no local. Na parte das bebidas há um tapete natural com centenas de garrafas, latas e tampinhas coloridas amassadas pelos passos das pessoas. Na parte do carvão e nas imediações o chão fica negro de pó. Logo ao lado, na parte das farinhas e fubas, o chão fica branquinho branquinho branquinho, como a roupa das senhoras gordas que vendem as farinhas sentadas na terra. Na parte de comprar cabelos e fazer penteados há um carpete meio nojento de cabelos de verdade e de mentira, a grande maioria deles comprados no Brasil. Na parte das roupas o chão vira de tecido das peças que eu imagino que sejam defeituosas. Esse foi um dos chãos que eu achei mais interessantes. Na parte das verduras e folhas o chão é verde de talos de couve e de folhas velhas de mandioca, que aqui são usadas para fazer muitos pratos, e em alguns pontos o chão vira uma montanha de folhas verdes que já estão ficando amarelas. Na parte em que as mulheres preparam comida para vender aos que vão fazer compras no mercado ainda bem que o chão não é de comida, mas, ainda assim, há uns lugares há poças de restos de frango, óleo, agua com gordura e sabão usada pra lavar a louça. Na parte dos peixes e carnes, o chão não é de moscas, mas o ar é.

Essa foto genérica do Roque aí de cima foi tirada pelo Kota 50, angolano macaco velho que anda com sua câmera endurada no pescoço até mesmo no Roque, da outra vez que estivemos lá. Quanto às imagens do chão do Roque, vocês vão ter que se contentar apenas com as minhas palavras, pois eu provavelmente não irei fotografá-lo tão cedo.