Posts Tagged ‘São Paulo’

O céu rosa, a chuva e o deserto

10/10/2010

Ontem o céu de Luanda estava rosa, exatamente como o céu de São Paulo. Cidade estranha essa que eu nasci, que não dorme nunca e tem céu cor de rosa, não negro. Aqui do outro lado do mar caíram pesadas gotas do céu rosa e os passos das pessoas inebriadas dançaram sensuais e molhados numa esplanada do Alvalade.

A chuva.

A chuva tem cheiro bom.

A chuva quando vem forte me lembra da minha casa da infância. Ela vinha e levava a energia embora e aí o grande acontecimento da noite era a família reunida em torno do acender do lampião que ficava guardado no alto da dispensa e desse jeito de andar devagar com a vela equilibrada no castiçal improvisado para não apagar o fogo. Íamos dormir mais cedo e mais felizes.

No deserto do Namibe, onde eu estava ontem, a chuva quase não vem. Lá a chuva é a areia, que também cai do céu também e deixa tudo monocromaticamente amarelado: os sorrisos, os telhados, as casas, as ruas, as frutas, as folhas das árvores, o peixe, até o próprio céu. O amarelo só acaba quando começa o azul das águas imensas e geladas do mar. O amarelo, o azul e o silêncio.

No deserto os olhos podem repousar e as ideias podem momentaneamente decantar entre um céu rosa e outro. Entre uma etapa e outra. Entre um e outro lado do mar. É, eu to com saudade de casa.

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Barrados no baile

29/07/2010

Nossa, nesse meu mundo que eu ando vivendo, se desse para somar todas as pessoas que existem certamente daria menos gente do que os personagens que existem num seriado. E mesmo com tão poucas pessoas que existem no mundo ainda dá para acontecer desencontros continentais potencializados pela lua cheia. No meio de tudo isso o celular comprado na China – um modelo tão antigo, mas tão antigo que já está na moda de novo, igual a disco de vinil – de repente voa da minha mão e para de funcionar, bem no dia em que ele precisava funcionar. Aí eu entro num carro com dois arquitetos, um publiciteiro com DDA grau máximo e uma estagiária e começo a contar a história esquisita de amor que aconteceu com uma amiga minha lá do outro lado do mar. Uma história que vai virar novela daqui a uns 20 anos, quando ela caducar igual caducam débitos com a prefeitura, determinadas dívidas ou promessas antigas ou mesmo pena de prisão. No meio da história, um desses arquitetos que estavam no carro – que, como todo bom roteiro de seriado, acabou de se mudar para o prédio vizinho ao meu – comenta que essa parece a história do ex namorado da atual namorada.

E como nesse mundo que eu ando vivendo não há personagens suficientes para viver duas histórias tão parecidas, concluímos que minha amiga namorou o ex namorado da atual namorada dele. Só que o pior é que essa é apenas uma das histórias estranhas de encontros, desencontros, coincidências e repetições. É como se todos os dias aparecesse uma nova, mas sempre com as mesmas pessoas se alternando nos papeis. Ah, e tudo isso com essa coisa estranha chamada facebook sempre estabelecendo novas conexões que não estavam visíveis a olho nu.

Ave, acho que já tá na hora de ir dar uma volta por aí.

A moto amarela

21/07/2010

– Vai andar de moto agora!
– To com medo.
– Aproveita então. Daqui a pouco você perde o medo e perde a graça.

Já fazia tempos que eu a queria lá na garagem. Desde os tempos da outra vida, daquela em que tudo estava no lugar, tão no lugar que havia uma pessoa dormindo no lugar ao lado da mesma cama dizendo que eu era maluca de ter uma ideia dessas. Imagina, uma moto. Que perigo. E eu dizia que perigoso é perder a paciência porque as ruas estão engarrafadas, é viver numa cidade com tantos carros, é ficar procurando lugar para estacionar, perigoso é ter carros caros e muito dinheiro, perigoso são esses motoboys malucos que, coitados, ganham mal e por hora e aí ficam andando desse jeito. Perigoso é morrer de tédio. Perigoso é não ter medo, é se sentir presa, é não viver. Perigoso é abandonar o namorado e ir morar do outro lado do mar. Perigoso é tudo, eu dizia, meio sem paciência com aquela imobilidade toda.

Aí o tempo passou, o namorado passou, a juliana voltou – e foi e voltou e foi e voltou e se perdeu e se encontrou e se desentendeu e se reentendeu e passou a entender melhor essa fluidez toda – e a ideia de tê-la na garagem não passou.

Fiz as aulas com o instrutor bombado que me chamava de bebê e não me ensinou nada, vesti aquele capacete fedido que sempre me fazia voltar para casa correndo para tomar banho, acordei as 5h da manhã para fazer aquele circuitinho imbecil e passei na prova de primeira, sem fazer todas as aulas, sem precisar engatar segunda marcha e sem ter a menor ideia de como se pilota uma moto.

Aí um dia eu fui na loja, fiquei na dúvida entre o amarelo e o preto, decidi pelo amarelo e comprei uma daquelas motos de mulherzinha, que põe o pé na frente, não tem embreagem e pode andar de saia.

Aí de repente ela estacionou na minha garagem. Em vez de ficar feliz, fiquei petrificada de medo. No primeiro dia nem consegui ir lá embaixo olhar pra ela. Meu deus, que ideia infeliz que eu fui ter, onde estava com a cabeça, isso é muito perigoso.

No segundo dia, decidi que era perigoso demais ir até o posto em cima da moto e fui a pé comprar combustível dentro de um saco plástico pra eu ficar dando volta no quarteirão. Quando voltei com aquela sacola molenga que não dá para apoiar, percebi que não sabia abrir o tanque, que havia esquecido o farol aceso e que a bateria havia descarregado. Chamei o zelador, o porteiro, o motoboy da loja da frente, o vizinho. Todos deram seus palpites e, como sempre, ficaram felizes por desempenharem suas funções masculinas.

E saí para a primeira volta no quarteirão. Na falta de um pai, que não mora aqui, de um irmão mais velho, que não existe, ou de uma pessoa mais ajuizada, acionei a amiga C. para ficar me dando apoio moral e dando risada comigo. O porteiro ficou todo orgulhoso, parecia meu pai. Disse que com o tempo eu pego a prática – prática que ele não tem, pois nunca pilotou uma moto na vida.

Amanhã quero dar mais umas voltinhas no quarteirão. Quem sabe depois de amanhã eu já me arrisco a ir até a Vila Madalena? É, tá decidido: bem mais perigoso que ter uma moto é não se divertir.

copa da áfrica

13/07/2010

– porque eu acho essa coisa de se vestir de verde amarelo, desenhar bandeiras de tinta no rosto meio non sense;
– porque eu acho o dunga, o kaká e os outros que eu nem sei o nome direito maior sem graça e os jogos da copa igual à novela das oito;
– porque eu ficava meio irritada toda a vez que alguém falava que a Copa na África do Sul é a Copa na África — será que alguém vai chamar a copa do Brasil de Copa da América?;
– porque me agrada a ideia de estar num lugar em que as pessoas não estão;
– porque eu adoro andar na cidade vaiza;
– porque eu tenho gostado cada vez mais de fotografar,

eu resolvi, em vez de assitir aos jogos da seleção, fazer essas fotos aí em cima.

Boa viagem

24/06/2010

A Cecy foi uma avó completamente improvável. Não sabia cozinhar, fazia os piores bolos que eu já comi na vida – e os mais divertidos também. Fazia yoga quando as pessoas não sabiam o que era isso. Fez faculdade de educação física num tempo em que as mulheres nem terminavam a escola. Tinha uma mente tão criativa, mas tão criativa, que acreditava que seu filho havia nascido no mesmo dia que ela, apesar de ela ter parido um dia antes. Fazia obrinhas que sempre deixavam tudo pior, mais feio e menos funcional. Nadava tão bem que de repente estava lá no meio dos barcos, tranquila, de costas, com aquelas braçadas-motores. Fazia sua própria granola, muitas vezes com grampo de grampeador dentro. Vestia as netas com sacos de lixo no lugar de vestidos e as pintava com jeito de monstro e não de princesa. Subia no alto do abacateiro. Virava cambotas. Cambotas! Uma avó que vira cambotas! Fazia vestido de noiva com a cortina da janela. Entrou na faculdade da terceira idade com setenta e poucos anos. Na aula de dança com oitenta e poucos. Com essa mesma idade, colocava as palmas das mãos inteiras no chão com as pernas unidas e estendidas – algo que eu ainda não estou perto de fazer com três anos de yoga. Andava pelos corredores da casa imitando modelo. Gargalhava sempre e de tudo. Nunca reclamava de nada.

A vida, para a Cecy, não era boa. Era ma-ra-vi-lho-sa.

Mesmo depois que sua cabeça começou a se despedir do seu corpo, alguns anos atrás, a vida continuou ma-ra-vi-lho-sa. Os nomes das pessoas, as fisionomias, o cardápio do almoço e do jantar, os dias da semana, o caminho de casa, a ideia de passado, presente e futuro passaram a ser cada vez menos importantes. E foram dando lugar para bailes de gala com toda a alta sociedade. Colônia de férias nas vinícolas chinesas, que emendava com uma viagem pela África – imaginem, para a África – em meio àquelas pessoas pobres e àquela natureza exuberante. Depois apareciam os restos mortais de uma raposa dentro da sala da sua casa. E de repente era o momento de nervosismo, pois estava quase na hora da sua festa de noivado. Gravidez. Outra gravide z. Mais uma. Bicicletas compradas para as suas duas filhas Elianas. Ceias de natal em sua homenagem. Piadas, desfiles de moda. Um veio furunfunfeio saramacuteio que tinha uma balaio daio gurungundaio saramacutaio e um coelhinho dinho gurungundinho saramacutinho.

Enquanto as pessoas envelhecem definhando, enranzizando, se apequenando, se desmovimentando, minha avó Cecy envelheceu viajando. Até que, hoje, depois de andar de ônibus pela cidade com a Luzia, chegar em casa, fazer piada, tomar um banho e sentar para comer, seu coração parou de bater.

Outras linhas já escritas sobre minha avó Cecy

Há dias que deixo meu coração em casa

06/06/2010

O mesmo guarda que apontou a arma na cabeça, gritou ce tá fudido, drogado, vai já pra delegacia, também falou a coisa mais doce que eu ouvi alguém me contar nos últimos tempos: há dias que deixo meu coração em casa.

Há dias que eu gostaria de deixar meu coração em casa. Eu já tentei uma vez e não funcionou. Tudo ficou tão no lugar que o coração ficou fora do lugar. E desde então eu não deixei mais ele em casa. As coisas agora ficam fora do lugar às vezes, muitas vezes. Mas pelo menos o coração fica dentro.

Bodes e elefantes

06/06/2010

Uma noite fria e tumultuada dentro da cabeça vai desembocar num show de música alta, nova, contemporânea e emocionante no museu da imagem e do som. Chego lá atropelada pelos meus pensamentos, que depois são atropelados por todo aquele barulho organizado e eu fico sem saber direito se mais alto é o som que é feito no palco ou o ritmo frenético e nada suave das rotações do meu cérebro.

Suave e frenético. Smooth and Rave.

15 minutos, 52 minutos, 1 téra, 2HDs, 1D90, 1EX1, 1EX3, 200 mil, 745 reais, 3 cidades. Uma equação tão difícil quanto simples de resolver. O caos organizado completamente desorganizado. Um alguém que pensa em forma de equações traduzidas em obras de arte e que se faz entender, mas que é tão difícil de compreender e de estar.

Estar é complexo.

Estar só é complexo. Mas necessário. Estar junto é complexo. Mas é bom.

A chuva

20/01/2010

Tem dia que eu sinto meu coração apertado, o mundo grande demais e vontade de ficar quietinha em casa, bem encolhida e de luz apagada. Hoje é um desses dias. Eu acho bom quando bem nesses dias tem a chuva, pois a música da água caindo embala os sentimentos de um jeito gostoso.

A Luz

25/10/2009

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Lá no meu flickr tem outras fotos da Estação da Luz

Eu quero uma dessas

14/10/2009
Asssim que eu tiver minhas aulas de moto…
O sucesso das elétricas
As motos elétricas foram o grande sucesso do Salão de Duas Rodas, que terminou ontem no Parque do Anhembi, em São Paulo. Desde pequenas bicicletas com potência inferior à de um chuveiro a potentes modelos de competição, foram elas que despertaram o maior interesse dos visitantes. Para se ter uma idéia, a Kasinski, comprada recentemente pelo grupo chinês Zongshen em sociedade com o empresário brasileiro Cláudio Rosa, vendeu 260 scooter elétricos de 1000 watts (potência semelhante à d euma moto de 100 cilindradas, segundo o fabricante). Já o mesmo modelo de scooter, mas movido à gasolina, teve 150 unidades vendidas nos seis dias de exposição.